"Mulheres, Igreja polifônica". Entrevista com Anne-Marie Pelletier

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29 Janeiro 2021

Anne-Marie Pelletier não é apenas uma exegeta experiente e uma professora universitária brilhante. Ganhadora do Prêmio Ratzinger de teologia, a intelectual francesa também se torna uma paladina das mulheres, dentro e fora da Igreja, quando aborda a questão da condição feminina atual. "Um clube de homens idosos, vestidos de maneira esquisita, que dizem às pessoas como se comportar na cama". Com essa sarcástica definição, Timothy Radcliffe ilustra como, segundo ele, as pessoas veem a Igreja. Por que, ao contrário, não é reconhecida a grande contribuição das mulheres para a vida da Igreja? As palavras de Radcliffe são impiedosas, mas expressam bem a realidade. A visibilidade da Igreja Católica permanece indiscutivelmente aquela da sua hierarquia, composta exclusivamente por homens. E essa visão não é um efeito ótico. Basta abrir a porta de uma igreja durante uma celebração para ver que o presbitério é um espaço que pertence aos homens, de forma majoritária, senão mesmo exclusiva. Além disso, a autoridade está ligada ao sacerdócio ministerial. E, para muitos, esse tipo de sacerdócio continua sendo a pedra angular do corpo eclesial. Aliás, passa a ideia de que constitui sua expressão suprema. Disso resultam as reiteradas denúncias de clericalismo de parte do Papa Francisco.

A entrevista é de Lorenzo Fazzini, poublicada por Avvenire, 27-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O que se perde nessa visão centrada no masculino?

A tragédia é que a verdade da Igreja fica escondida. De fato, a Igreja não é primeiramente a sua hierarquia, mas antes de tudo um corpo, que essa hierarquia tem a função de servir. Esse corpo é composto por homens e mulheres que, nos seus diversos estados de vida, se reconhecem convocados pela palavra de Cristo. Esse povo de batizados doa carne e presença ao Evangelho no mundo, muitas vezes em silêncio, mas de maneira autêntica. E é preciso admitir que as mulheres, nesse corpo, ocupam um lugar eminente, aliás dominante, porque, em muitos lugares e circunstâncias, são o rosto e a mão da Igreja para os nossos contemporâneos. Eu acabo perdendo um pouco a paciência quando ouço as pessoas repetirem que “precisamos dar lugar às mulheres” quando, em vez disso, a primeira coisa a fazer é reconhecer o lugar que elas ocupam nas paróquias, na catequese, nas missões. Sem elas, a Igreja já teria desaparecido.

Em outro momento, a senhora destacou como a atenção da Igreja com Francisco para com as mulheres não é uma questão nova: há 50 anos, os papas têm prestado uma atenção crescente ao mundo feminino com vários documentos. Então, é a Igreja que falhou, no que diz respeito à igualdade entre homens e mulheres, se ainda hoje é percebida como masculina?

Trata-se de um dado impressionante. Desde a década de 1960, o magistério tem prestado uma atenção inédita às mulheres. Nunca antes houve tanto elogio à mulher por parte das autoridades da Igreja. Ainda assim, na Igreja Católica, as mulheres - em grande número - continuaram a se sentir marginalizadas, vendo-se designadas a cargos secundários, tratadas com condescendência, às vezes desprezadas por um mundo clerical que arroga a si toda decisão. A ponto de dar origem à opinião de que bem poucas coisas poderiam ser mudadas. O problema básico não é simplesmente falar das mulheres, nem falar às mulheres, mas deixá-las existir, fazê-las falar em seu nome na Igreja, fazer com que sejam elas a julgar os problemas da vida e as questões da fé, dos quais têm experiência tanto quanto os homens.

Num dos seus textos em 'Vita e Pensiero' escreveu: “O futuro da instituição eclesial está intrinsecamente ligado, no catolicismo, a uma reflexão polifónica, ou seja, ao compartilhamento da busca da verdade, sempre maior do que podemos nos aperceber”. Uma reforma apenas "intelectual" pode ser suficiente para promover o lugar das mulheres na Igreja? Ou também é necessária uma reforma estrutural?

Para mim, é claro que uma verdadeira reforma da Igreja deve se encarnar nas estruturas de sua vida e no organograma de sua governança. Nesse sentido, belas palavras não são suficientes. O ponto central é que nós, homens e mulheres, estamos juntos na responsabilidade pelo Evangelho e na missão da Igreja. Em relação ao recente motu proprio, ele retorna a um texto de 1972 que abria o leitorado e o serviço de acolitado aos leigos, desde que fossem homens: neste caso o magistério permite pôr fim a uma aberração que desqualifica os Igreja. O fato é que seria muito pouco simplesmente tentar redistribuir poderes em uma estrutura inalterada. Estou convencida de que estamos em um momento crucial em que a instituição eclesial deve se reinventar.

Devemos retornar à eclesiologia. Não significa se fossilizar em uma atividade abstratamente intelectual. Aliás, aqui está a alavanca para uma verdadeira mudança fundamental. Nesse sentido, gosto de entender a advertência do Papa Francisco para não se ater às simples “funções”. Para isso, eu me sinto desconfortável quando se pensa que o acesso ao sacerdócio feminino seria a solução para a questão. Pelo contrário, constato aí uma maneira para reconduzir e confirmar toda a ordem eclesial ao primado do sacerdócio ministerial. Em vez disso, penso que se deva sair desse esquema para encontrar uma estrutura consoante com o que Paulo apresenta, ou seja, a Igreja como corpo, onde a instituição se funda em dons particulares atribuídos a uns e aos outros para o serviço de todos. E assim a Igreja se redesenha como comunidade de batizados, onde o sacerdócio batismal, compartilhado por todos, volta a ser o mais importante.

Em seu livro Uma Comunhão de Homens e Mulheres, a senhora falou de um "machismo que se tornou a marca registrada da Rússia putiniana e da América trumpista". Por que a aversão à emancipação feminina é tão forte no soberanismo?

As mulheres hoje se encontram sob a ameaça de regimes autoritários que proliferam e que têm ares de dejà vu, cujos líderes são exclusivamente homens. A Rússia vive sob o comando de um líder que exalta a virilidade brutal, que mostra seus músculos na mídia e que realiza uma repressão impiedosa às oposições: a guerra na Chechênia é um exemplo sinistro. Não é por acaso que uma das maiores opositoras dessa ideologia seja uma mulher, a ganhadora do Nobel Svetlana Aleksievic, que escreveu um livro intitulado A guerra não tem rosto de mulher.

Quanto ao populismo de Donald Trump ou Jair Bolsonaro e outros, sabemos bem como esses homens desprezam as mulheres, tanto em seus discursos quanto em suas vidas privadas. Não vamos esquecer que as maiores manifestações da história dos Estados Unidos foram aquelas de mulheres denunciando o machismo insolente de Donald Trump em 2016.

Os movimentos pela emancipação das mulheres são um sinal dos tempos. Como garantir que eles se tornem positivos para a sociedade como um todo e não sejam relegados a ser - embora justos - apenas protestos?

Não há dúvida de que os feminismos, por natureza, são movimentos de protesto e militantes. Como se surpreender que, para denunciar a violência que pesa sobre elas e as submissões a que são forçadas, as mulheres saiam às ruas e brandem a bandeira da revolta? Mas o objetivo deveria ser aquele de sair da guerra entre os sexos, para chegar a uma desejável estima mútua, até uma feliz aliança pela plenitude de uns e das outras. Certamente não é isso que entendem aquelas que hoje exumem os textos de Valérie Solanas, a intelectual estadunidense que sonhava com a eliminação do homem da humanidade. Uma atitude extremista, esta, que não opera para o bem das mulheres reféns da miséria, da pobreza e do machismo que nesse âmbito prospera.

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