“O fascismo, o nazismo, o racismo não foram cogumelos venenosos nascidos por acaso no jardim da civilidade europeia”, alerta presidente da Itália no Dia da Memória

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28 Janeiro 2021

"Faríamos uma ofensa grave àqueles homens, àquelas mulheres, àquelas crianças enviadas para morrer nas câmaras de gás, se considerássemos aquela época infeliz como um acidente da história, a ser colocado entre parênteses. Se, em suma, fôssemos apenas fechar esses trágicos acontecimentos na nossa memória, fechando os olhos às origens que tiveram e às suas dinâmicas. Fascismonazismoracismo não foram cogumelos venenosos nascidos por acaso no jardim bem cuidado da civilidade europeia. Em vez disso, foram produto de pulsões, correntes pseudoculturais e até mesmo de modas e atitudes que afundavam suas raízes nas décadas e até mesmo nos séculos anteriores", escreve Sergio Mattarella, jurista e político italiano, atual presidente da República Italiana, em discurso na comemoração do Dia da Memória, proferido no Palácio do Quirinal, 27-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Segundo ele, "as palavras, especialmente se são de ódio, não ficam sem consequências por muito tempo. Aquelas ideias e pensamentos grotescos, alimentados por séculos de preconceitos contra os judeus, representaram o caldo de cultura em que o germe do totalitarismo racista nasceu e se reproduziu. Permaneceu por muito tempo adormecido, explodiu e se espalhou com violência inimaginável quando infectou organismos políticos e sociais enfraquecidos e exaustos pela crise econômica que eclodiu após a Grande Guerra".

 

"Violência, medo, opressão, perseguição, privilégios, racismo, culto ao líder - assevera o presidente italiano - foram os autênticos alicerces da nova ordem política e social defendida pelo nazifascismo. Lauro de Bosis escreveu em 1931: “Não faz sentido a atitude que consiste em admirar o fascismo e deplorar os excessos. O fascismo só pode existir graças aos seus excessos. Seus chamados excessos são a sua lógica”.

 

Eis o discurso.

 

Saúdo os Presidentes do Senado, da Câmara, do Conselho e de quantos nos acompanham à distância.

 

Agradeço a todos aqueles que falaram: Eraldo Affinati e o Presidente Di Segni por suas palavras precisas e muito eficazes.

 

 

Agradeço à Ministra Azzolina, atenta à divulgação do tema da memória nas escolas, e agradeço a Alicja e a Cesare que a entrevistaram.

 

Parabéns aos artistas Eleonora Giovanardi que também nos conduziram com tanta eficácia, Claudio Cavallaro e Massimo Spada que, com tanta sensibilidade, intensificaram a celebração deste Dia da Memória.

 

 

Dirijo uma lembrança a Nedo Fiano, falecido há poucas semanas, cujo pensamento envolvente e altamente exigente acabamos de ouvir.

 

Um agradecimento muito especial a Sami Modiano. Não é a primeira vez que o ouvimos no Quirinale. Mas o seu testemunho sempre límpido e firme, gravado na sua existência pessoal, envolve, comove e nos faz refletir cada vez que o ouvimos. Obrigado por vir desta vez também.

 

Vinte anos se passaram desde aquela lei que instituiu o Dia da Memória, dedicado à memória do extermínio e da perseguição do povo judeu e dos deportados militares e políticos italianos para os campos nazistas. E, a cada vez, abordamos o tema da Memória com emoção e perturbação; e sempre permeados por inquietações, dúvidas e questões não resolvidas.

 

Porque Auschwitz - que simboliza e resume todo o horror e a lúcida loucura do totalitarismo racista - incorpora em si os termos de um trágico paradoxo.

 

Trata-se, de fato, da construção mais desumana jamais concebida pelo homem. Homens contra a humanidade.

 

Uma aterrorizante fábrica de morte. O não-lugar, o inaudito, o nunca visto, o inimaginável. Esses são os termos recorrentes com os quais os sobreviventes descreveram sua terrível passagem por aqueles lugares de violência e abjeção. Acabamos de ouvir as palavras de Sami Modiano.

 

 

Um unicum na história da humanidade, que infelizmente está constelada de massacres, genocídios, guerras e crueldades. Uma monstruosa construção, realizada no coração da civilizada e evoluída Europa. Num século que havia se aberto com a esperança no progresso, na paz e na justiça social e com confiança na ciência, na técnica e nas instituições da democracia.

 

Os totalitarismos da primeira metade do século XX - e as ideologias que os inspiraram - pararam a roda do desenvolvimento da civilidade, mergulhando grande parte do mundo na noite da razão, na escuridão densa da barbárie, em uma dimensão de terror e sangue.

 

Recordar e fazer com que todos se lembrem do sacrifício de milhões de vítimas inocentes - na maioria judeus, mas também ciganos e sinti, homossexuais, adversários políticos, pessoas com deficiência - expressa, portanto, um dever de humanidade e civilidade, que sempre fazemos nosso com dolorosa participação.

 

Mas faríamos uma ofensa grave àqueles homens, àquelas mulheres, àquelas crianças enviadas para morrer nas câmaras de gás, se considerássemos aquela época infeliz como um acidente da história, a ser colocado entre parênteses. Se, em suma, fôssemos apenas fechar esses trágicos acontecimentos na nossa memória, fechando os olhos às origens que tiveram e às suas dinâmicas.

 

Fascismo, nazismo, racismo não foram cogumelos venenosos nascidos por acaso no jardim bem cuidado da civilidade europeia. Em vez disso, foram produto de pulsões, correntes pseudoculturais e até mesmo de modas e atitudes que afundavam suas raízes nas décadas e até mesmo nos séculos anteriores.

 

 

É claro que nos salões de muitas partes da Europa, onde na virada dos séculos XIX e XX, se conversava, com coquetismo irresponsável, de hierarquia racial, de superioridade ariana, de antissemitismo acadêmico, talvez ninguém teria pensado que se chegaria, um dia, ao que foi cruelmente chamado de solução final, aos campos de extermínio, aos fornos crematórios.

 

Mas as palavras, especialmente se são de ódio, não ficam sem consequências por muito tempo. Aquelas ideias e pensamentos grotescos, alimentados por séculos de preconceitos contra os judeus, representaram o caldo de cultura em que o germe do totalitarismo racista nasceu e se reproduziu. Permaneceu por muito tempo adormecido, explodiu e se espalhou com violência inimaginável quando infectou organismos políticos e sociais enfraquecidos e exaustos pela crise econômica que eclodiu após a Grande Guerra.

 

 

O desespero e o medo do futuro, face à ineficácia e as divisões da política, levaram muitas pessoas a entregar o seu destino nas mãos dos que propunham atalhos autoritários, a confiar cegamente no carisma "mágico" do homem forte.

 

“Acreditar, obedecer e lutar”, intimava o fascismo. "Obediência incondicional a Adolf Hitler" juraram os soldados e oficiais do regime nazista.

 

A confiança no poder tornava-se um ato de fé cego e absoluto. O arbítrio suplantava a lei.

 

O uso hábil e inescrupuloso dos meios de comunicação mais modernos da época e o estabelecimento de um regime de terror, que esmagava todas as formas de dissidência, completaram aquela obra nefasta.

 

Violência, medo, opressão, perseguição, privilégios, racismo, culto ao líder foram os autênticos alicerces da nova ordem política e social defendida pelo nazifascismo. Lauro de Bosis escreveu em 1931: “Não faz sentido a atitude que consiste em admirar o fascismo e deplorar os excessos. O fascismo só pode existir graças aos seus excessos. Seus chamados excessos são a sua lógica”.

 

A lógica daqueles excessos contra a cultura e contra a dignidade humana, contra a dimensão pessoal de cada cidadão, inerente a todos os totalitarismos, desviou bruscamente o curso da Itália e da Alemanha. Eram países com antiga tradição cristã e humanista, berços do direito, da arte, do pensamento, da civilização.

 

 

As ditaduras os mergulharam em um universo sombrio, sem liberdade e sem humanidade. Uma dimensão feita de ódio e medo que inevitavelmente levou à supressão física daqueles que eram definidos como diferentes e desencadeou - por um desejo de conquista e poder - o conflito mais mortal e destrutivo de que a história humana lembra.

 

A circunstância que os ditadores encontraram em suas populações, por algum tempo, ampla aprovação e amplo consenso não atenua de forma alguma a responsabilidade moral e histórica por seus delitos. Um crime, e um crime contra a humanidade, continua a ser um crime, mesmo que compartilhado por muitos, acrescentando à infâmia a culpa de ter arrastado muitos outros com ele.

 

Esta constatação, até mesmo óbvia - mas por vezes posta em discussão - obriga-nos, mais uma vez, a chegar a um acordo com a história nacional sem fingimentos e com coragem. E chamar os eventos com seu verdadeiro nome.

 

Nos salões do Quirinale, uma obra do mestre Emilio Isgrò, intitulada "Aquele que sou", está sendo exibida há alguns meses - junto com outras valiosas realizações artísticas contemporâneas. Isgrò apagou uma a uma as palavras contidas nos artigos das famigeradas leis raciais italianas de 1938. Aquelas supressões não representam uma remoção, longe disso. As páginas daquela infame e vergonhosa disposição permanecem de fato claramente visíveis, embora sob grossas traços de caneta.

 

A Constituição Republicana, nascida da Resistência, cancelou a ignomínia da ditadura. Mas não pretende esquecê-las. Elas não devem ser esquecidas.

 

Por isso, a memória é um fundamento da República que se baseia nos princípios da igualdade, liberdade, dignidade humana, com o reconhecimento pleno e inalienável dos direitos universais do homem, de cada pessoa. Contra a barbárie do arbítrio, da violência, da opressão.

 

A memória - que hoje celebramos aqui e em muitas outras partes do mundo - não é, portanto, lançar o nosso olhar sobre uma fotografia que desvanece com o passar do tempo. Mas um sentimento civil, enérgico e exigente. Uma autêntica paixão por tudo o que se relaciona com a paz, a fraternidade, a amizade entre os povos, o direito, o diálogo, a igualdade, a liberdade, a democracia.

 

 

Nos últimos dias, Edith Bruk disse que "está retornando sobre toda a Europa uma nuvem negra". Confio que assim não seja, também pela confiança na grande construção histórica da paz representada pela União Europeia, nascida dando centralidade à pessoa humana, com base na amizade entre os povos do continente e colocando em comum o seu futuro.

 

Mas aquele apelo, aquele aviso não deve ser esquecido.

 

Cabe a nós evitar que aquilo que – de tão torpe - aconteceu se repita.

 

Cabe a nós vigiar e orientar os eventos e transmitir os valores da civilidade humana às futuras gerações.

 

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