Brasil pode ter 2021 pior que 2020 mesmo com vacina, diz ex-presidente da Anvisa

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21 Janeiro 2021

Primeiro presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto não se dá por aliviado com o início do processo de vacinação, ocorrido no começo desta semana, após o aval do órgão regulador às vacinas produzidas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz. Para Gonzalo, o Brasil corre o risco de ter um 2021 ainda pior que 2020, quando mais de 200 mil brasileiros perderam a vida para a covid-19, se não restringir o funcionamento das suas atividades e não levar adiante uma campanha publicitária eficaz para imunizar a população.

Em entrevista ao Congresso em Foco, o professor da Universidade de São Paulo (USP) defende que o país adote lockdown, permitindo o funcionamento apenas de serviços essenciais, reforce a vigilância sobre medidas sanitárias, como distanciamento social e uso de máscaras, e invista pesadamente na conscientização das pessoas sobre a necessidade, a segurança e a eficácia das vacinas. Segundo ele, os efeitos da vacinação só serão percebidos quando o país imunizar cerca de 160 milhões de pessoas, alcançando a chamada imunização de rebanho ou coletiva. Até lá, ressalta o médico, ninguém pode baixar a guarda. 

Gonzalo Vecina Neto: "O Estado está sendo o grande sabotador da vacina". Foto: Reprodução.

“Relaxou, vai ter aumento de casos. O aumento de casos de covid é diretamente ligado ao relaxamento social. Não tem mágica. Se governadores e prefeitos não fecharem mais as atividades que não sejam essenciais, vamos ter desastre sanitário de novo. Em Manaus, o governador disse que ia fechar isso e aquilo. Os comerciantes foram para a rua e fizeram movimento social. O que o governador incompetente e genocida do Amazonas fez? Liberou. Qual o resultado da liberação? Em Manaus não se fala em hospital de campanha. Fala-se de necrotério de campanha, por não ter onde botar defunto”, afirmou.

Gonzalo Vecina também atribui parte das mais de 211 mil mortes por covid-19 registradas no Brasil até agora à insistência do governo com o discurso negacionista e à tentativa do governo de "sabotar" a vacina. Ele também condena a estratégia do presidente Jair Bolsonaro de recomendar à população o uso de medicamentos que não têm qualquer eficácia contra a covid-19, como a cloroquina e a hidroxicloroquina, e o “silêncio vergonhoso” de entidades médicas em relação ao assunto.

“O Estado está sendo o grande sabotador da vacina. Quando o presidente fala as bobagens que fala, quando o ministro fala a favor de drogas não eficazes, quando ele negou inicialmente a Coronavac e depois voltou atrás porque não tinha alternativa, isso é desastroso. Quando um sujeito que é especialista em logística não consegue fazer um avião levantar na hora para levar uma vacina de São Paulo para o Rio de Janeiro… A vacina chegou com seis horas de atraso! Acho que acabou. Precisamos tomar posição frente ao governo que tem patrocinado o que historicamente só tem um nome: genocídio. É algo que temos de descobrir quem, por que e punir. Está na hora de fazer isso”, condena o médico.

Na avaliação de Gonzalo, Bolsonaro age como um “anti-líder” ao se posicionar contra a vacinação e precisa ser confrontado, em campanha de conscientização, por especialistas com credibilidade no assunto. “O exemplo de líder para um liderado é o exemplo mais importante. Nosso líder se chama Bolsonaro. Esse líder está dizendo para você que não tomará vacina. Numa campanha de vacinação, os Dráuzios Varelas anularão os Bolsonaros”, defende, em alusão ao seu colega médico.

Para o sanitarista, o país precisa se preparar para enfrentar a nova versão do vírus disseminada em Manaus. Ele considera pequenas as chances de o restante do Brasil sofrer com a falta de oxigênio, a exemplo do que tem ocorrido no Amazonas, mas alerta para a sobrecarga de leitos hospitalares. “Se não tomarmos providência do ponto de vista de tentar manter nível de controle de governabilidade dessa crise, não tenho dúvida de que teremos um problema grave pior ainda do que tivemos até agora.”

Além de primeiro presidente da Anvisa, Gonzalo foi secretário nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, no governo Fernando Henrique Cardoso, e secretário municipal da Saúde em São Paulo, na gestão de Marta Suplicy. Professor da Faculdade de São Pública da USP, também foi superintendente do Hospital Sírio Libanês em São Paulo.

A entrevista é de Edson Sardinha, publicada por Congresso em Foco, 20-01-2021.

Eis a entrevista.

Quando o Brasil deve começar a sentir os efeitos da vacinação contra a covid-19?

A redução das medidas de higiene, de uso de máscara e de distanciamento social nós só vamos ter quando atingirmos a imunidade de rebanho, a imunidade coletiva. Antes de alcançar essa quantidade de pessoas vacinadas não podemos facilitar. As vacinas não são 100% eficazes. Elas não protegem algumas pessoas. A gente tem de continuar até que o vírus deixe de circular. Quando não tivermos casos novos, aí significa que o vírus deixou de circular. Aí estaremos livres do vírus. Imaginamos que isso possa acontecer por volta de outubro e novembro deste ano se nós tivermos o fluxo de vacinas esperado, ou seja, uma produção de 30 milhões de doses por mês entre as produzidas pelo Butantan e pela Fiocruz. A perspectiva é que cada um produza, a partir de março, 15 milhões de doses cada. Isso dá 30 milhões mensais. Em dez meses, 300 milhões de doses. Estima-se que vamos consumir entre 300 milhões e 320 milhões de doses. Quando vai surtir efeito? Aí é quando o vírus deve parar de circular, quando a gente tiver a imunidade de rebanho que é por volta de 150 milhões a 160 milhões de brasileiros vacinados.

A Coronavac é segura e eficaz para todas as idades e pessoas?

Nesta fase têm de ser vacinadas pessoas com mais de 18 anos. As vacinas não foram testadas em pessoas com menos de 18 anos. Só a da Pfizer foi testada na população de 12 a 18 anos. As outras não foram testadas abaixo dos 18. Já existe protocolo sendo apresentado para experimentar a vacina na população mais jovem. Primeiro faz teste nas pessoas mais maduras, com processo imunológico mais estabilizado. Evitamos fazer isso em jovens e crianças por causa do risco. Primeiro, se passar bem em adultos, aí baixamos a idade até testar em criança. Embora a doença até o momento afete muito pouco jovens e crianças, afeta também. A mortalidade é muito baixa, mas existe. Agora vamos começar a fazer testes em pessoas mais jovens, crianças e grávidas. Essas pessoas muito idosas também não foram testadas. Só a da Pfizer foi testada em pessoas com mais de 80 anos. Mas não estamos restringindo a oferta a vacina nesse momento para eles. Vamos saber o que acontece com eles no ciclo normal da vacinação.

O que podemos descobrir sobre a vacina ainda durante o processo de imunização?

Quando abrimos muito a população, quando você aumenta o tamanho da amostra submetida ao que você quer estudar, começam a aparecer fenômenos muito raros. Quando aumenta a amostra, ganham expressão efeitos colaterais e ou desejáveis. Pode descobrir que, apesar de ter sido feita com um objetivo, ela também pode ter resultado para outras coisas. De repente, ele imuniza a família coronavírus inteira, que são oito vírus. Não acho que vá acontecer. É só uma possibilidade de ter efeito esperado em outra direção ou inesperado. Por exemplo, a cloroquina é remédio usado para tratar malária. Provavelmente você trata pessoas com outras doenças. Cloroquina tem efeito colateral grave em cardiopata. Pode levar a aumento da frequência cardíaca, fibrilação do coração, um efeito indesejável. Descobrimos isso tratando quem tem malária. Mas tem gente que tem malária e artrite reumatoide. De repente descobriram que a cloroquina tem efeito bom para controlar a dor reumatóide. Hoje está na bula da cloroquina a indicação para tratar artrite reumatoide. Tem gente que toma só para tratar disso, não para malária. Isso a gente aprende na fase 4, que é a atual. Na primeira fase dos estudos clínicos, testa-se a segurança, na segunda, a eficácia e na terceira se ampliam as fases 1 e 2. Se é eficaz e seguro, autoriza-se a comercialização. Aí vem a fase 4, que é vigiar o medicamento que está sendo amplamente consumido no mercado. É a fase da farmacovigilância. O produtor da vacina, do medicamento, tem obrigação de receber dados da comunidade médica, compilar esses dados e enviá-los à Anvisa, para que a farmacovigilância seja realizada.

É possível saber por quanto tempo a vacina deixa a pessoa imunizada contra a covid-19?

Nessa fase que vamos também acompanhar e descobrir por quanto tempo duram os anticorpos, se são perenes ou não. Se são como os do sarampo, que duram a vida inteira, ou se são como os da gripe, que duram um ano. Até agora não deu para descobrir porque começou a fase 3 há quatro ou cinco meses. Sabemos que ele dura quatro, cinco meses. O sexto mês, o sétimo, o oitavo, nós vamos acompanhar os mesmos pacientes que fizeram parte da fase 3. Não vão acompanhar o grupo do placebo. Só o que tomou a vacina.

Quais argumentos o senhor usa para convencer uma pessoa que não quer se vacinar?

Há dois tipos de pessoas que não querem ser vacinadas. Um tipo é o tipo mal informado, que diz que acha que essa vacina mexe no nosso DNA e no sistema imunológico. Para essas pessoas mal informadas, a informação resolve o problema. A maior parte que não quer tomar vacina faz parte desse grupo. Tem idiotas na internet dizendo que a vacina mexe com DNA, com RNA. Isso se resolve facilmente com informação. Bota um cara como o Dráuzio Varela, pessoas influentes dando recados para a população, é uma campanha de marketing. Não existe campanha de vacinação sem marketing. Como faz para as pessoas irem votar? Tem três meses de campanha para fazer as pessoas irem votar. Se queremos comportamento de massa, temos de vacinar, 70, 80% da população. Tem de fazer campanha de comunicação de massa. Precisa de dinheiro para pagar televisão, rádio, jornais, mídias digitais. Não tem outra saída. Você derruba essa falta de informação com a pontinha do dedo se fizer uma campanha real, importante e impactante. Não tem como fazer diferente.

O senhor acredita que virá essa campanha diante da resistência do presidente à vacina?

Olho no orçamento do Ministério da Saúde, tem a Secretaria de Vigilância de Saúde, que é onde fica o programa nacional de imunização, não tem dinheiro para campanha de comunicação. Já posso acreditar que vamos ter um desastre na frente. Sem campanha, não tem vacinação. Este momento é muito importante. Temos vacina, essa atividade que a imprensa está realizando é fundamental e é gratuita. Não está custando nada para o governo. Agora, vamos ter de fazer uma campanha de verdade para difundir isso. Com isso, vai reduzir a quantidade de pessoas que não querem tomar vacina à sua real proporção, que acreditam que a vacina cria problema para o sistema imunológico. Os homeopatas mais tradicionais acreditam que a doença é uma forma de você educar o corpo. Se você não tem sarampo, você não aprende a lutar contra o sarampo. Eles são contra a vacina porque têm uma informação na qual acreditam. Quanto a esse pessoal não tem saída. Esse pessoal tem crença, quem tem crença não mudará a crença. Quantas pessoas na sociedade têm crença antivacina? Acho que não sai de 2% a 3%. Esse é o pessoal que não vacina seus filhos contra poliomielite, que é uma doença incapacitante e mortal. Quanto a esses não há alternativa. Mas eles são absolutamente minoria.

Qual a responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro nessa resistência das pessoas a se vacinar?

Por favor, poxa, vida. Tem um ditado que diz que um exemplo vale mais que mil palavras. Quando digo pega o Dráuzio Varela, o Trudeau, a Angela Merkel, o Macron, a primeira-ministra da Nova Zelândia, o Boris Johnson, são líderes. O exemplo de líder para um liderado é o exemplo mais importante. Nosso líder se chama Bolsonaro. Esse líder está dizendo para você que não tomará vacina. Numa campanha de vacinação, os Dráuzios Varelas anularão os Bolsonaros. Mas seria desnecessário que isso acontecesse se ele fizesse a parte dele. Ele não faz a parte dele. Está, pelo contrário, criando problema para todos nós. Isso é terrível. Ele acarreta um prejuízo de vidas muito grande. Ele está sendo um anti-líder. Lógico que eu gostaria de discutir o afastamento dele, algo que tem de ser feito dentro do jogo democrático. É um processo doloroso e longo. Estamos calejados com essa história do impeachment, até porque acho que exageramos no último impeachment. Mas ainda acho que no meio desse governo ainda vamos ter algo desse tipo depois desses erros que ele cometeu com a pandemia, particularmente neste caso de Manaus.

As mortes aceleradas pelo desabastecimento de oxigênio no Amazonas são um sinal do que vai ocorrer no restante do país?

Manaus tem duas condições muito singulares. É uma das cidades com mais desigualdade social no Brasil. Mas é uma desigualdade social menos percebida que a do Nordeste. Não sou estudioso dessa questão, mas no Nordeste a desigualdade é mais percebida por nós mortais comuns. A fome no Nordeste não tem alternativa, e quando ela se junta com a seca, é uma coisa terrível. No Amazonas não tem seca e tem alternativa para a fome que acaba vindo da natureza, seja através de frutos, de peixes. Manaus é uma cidade muito pobre, que a gente não costuma pensar como sendo pobre. A Zona Franca de Manaus foi instituída para levar mais desenvolvimento para lá, mas só levou mais desigualdade. É algo para ser repensado, dado o objetivo da ZFM de combater a desigualdade. Todos os dias os pobres têm de sair na rua para buscar comida e aí se infectam e têm a doença. Outra condição peculiar é a condição geográfica da cidade, que não tem acesso por terra. Para chegar por terra a Manaus tem de atravessar sete balsas. Só se chega por barco, que é demorado e tem limite na capacidade de transporte, ou por ar, que também tem limite na capacidade de transporte.

Mas pode faltar oxigênio entre outras cidades do país?

Manaus tem uma empresa que produz gás medicinal, que é a White Martins. O Brasil tem quatro empresas com produção de gás medicinal. É um oligopólio, três multinacionais e uma indústria de capital nacional. Essas quatro mandam no mercado de gás medicinal. Esses mesmos gases medicinais são utilizados na indústria em grande consumo. Existe produção industrial e existe produção medicinal. Grandes consumidores de gás, oxigênio, por exemplo, acabam criando suas próprias plantas de produção de oxigênio. Em Manaus tem o gás industrial e o medicinal, da White Martins. A grande diferença entre eles é a pureza. O gás medicinal tem 99% de oxigênio, o industrial, 94%, 95% de oxigênio. Os detentores desse cartel de oxigênio conseguiram aprovar uma lei que quem produz gás medicinal tem de fazer 99%, tem de ter tecnologia e custo diferentes. Criaram nicho de mercado para eles. Em Manaus, por exemplo, tem a White Martins que vende para os hospitais. E aquele monte de balas, torpedos, transitando pela cidade, onde estão buscando oxigênio? Compraram de quem? Não foi da White Martins, foi do mercado paralelo. É um mercado do gás industrial, que não é transparente, percebido. Parece que as pessoas acham oxigênio na quitanda. Certamente isso é fruto do mercado paralelo do oxigênio industrial. Tem ali um problema geográfico e mercadológico. O geográfico é a dificuldade de chegar a Manaus. O mercadológico é a questão que precisa ser melhor estudada pelos brasileiros. É um problema bastante complexo. O oxigênio é só um dos gases medicinais. Precisamos chegar mais próximo dele.

Qual a chance de repetir esse problema fora de Manaus?

Tem a questão da desigualdade e a do gás medicinal. Acho que a maioria das outras cidades tem condição melhor de acesso ao gás medicinal do que Manaus. Mesmo que exista crescimento abrupto do consumo, como aconteceu em Manaus, isso pode acontecer em outros lugares, mas vai ter suprimento de oxigênio. Não acredito que vamos ter colapso com as mesmas características do colapso de Manaus. Podemos ter colapso por falta de leitos, pelo aumento muito grande de demanda nas internações. Mas não por falta de gás.

Qual a lição fica de Manaus?

Quando a gente fala de covid, de número de casos, de utilização da capacidade hospitalar parece que estamos falando de coisa mágica. Não é isso. Estamos falando do resultado do relaxamento social. Relaxou, vai ter aumento de casos. O aumento de casos de covid é diretamente ligado ao relaxamento social. Não tem mágica. Se governadores e prefeitos não fecharem mais as atividades que não sejam essenciais, vamos ter desastre sanitário de novo. Em Manaus, o governador disse que ia fechar isso e aquilo. Os comerciantes foram para a rua e fizeram movimento social. O que o governador incompetente e genocida do Amazonas fez? Liberou. Qual o resultado da liberação? Em Manaus não se fala em hospital de campanha. Fala-se de necrotério de campanha, por não ter onde botar defunto. Uma cidade que enterrava 35 mortos por dia em média, na primeira onda, chegou a enterrar 175, e na quinta passada, enterrou 198. Fruto da inépcia, do desgoverno. Isso pode acontecer em qualquer lugar do Brasil. Com relaxamento, vai acontecer. O vírus da mutação em Manaus vai chegar ao resto do país? Vai chegar ao resto do mundo, assim como o vírus inglês chegou aqui. Não tem como segurar a disseminação de vírus. A China, mão de ferro, consegue reduzir drasticamente o número de casos. Mas tem em lugar algum a situação política da China para fazer o que eles fazem lá. Esse vírus é um booster na epidemia. Vamos ter consequências disso. Vamos ter essa disseminação. Isso só se evita com isolamento social, máscaras e manutenção das medidas de higiene. Não tem outra saída.

A saída é fechar tudo o que for possível, um lockdown?

Defendo um lockdown mesmo. No mínimo temos de fechar certas atividades, não tem por que ter restaurantes abertos. Até aceito restaurante que estiver ao ar livre, com mesas bem distantes. Academia, shopping, cinema, teatro, tudo isso tem de fechar. No restante do comércio tem de ter controle de pessoas. Não pode ter aglomeração, ter espaço para aerosol não se dispersar. Tem de ter lugar onde o aerosol possa se dispersar para que as pessoas não sejam infectadas por alguém que está tossindo ou espirrando. Não tem cabimento ter culto em igreja, a fé não mata vírus. Não sou contra a fé. Mas as crenças não atacam os vírus. Os vírus atacam e matam as pessoas que creem. Se a gente não enfiar isso na cabeça, a vacina não vai servir de nada, porque a vacina vai chegar e nós vamos morrer antes da vacina. Se o governo não fizer campanha, vai ser um desastre. Governo tem condições de fazer mobilização de massa. Estou num grupo da sociedade chamado “Direitos já”, que começou anteontem campanha pela vacinação. Qual é a chance de isso dar certo? Vamos vacinar todas as personalidades políticas que a gente conseguir convencer, religiosos das mais diversas matizes. Vamos fazer muito barulho, mas não temos dinheiro pra fazer campanha de vacinação pela TV, pelo jornal, pelo rádio. A imprensa tem dado sua contribuição, mas é diferente de ter campanha maciça patrocinada pelo poder público. Nosso esforço é muito importante, mas, se não conseguirmos juntar o Estado, não será possível.

O presidente sabota a vacina?

O Estado está sendo o grande sabotador da vacina. Quando o presidente fala as bobagens que fala, quando o ministro fala a favor de drogas não eficazes, quando ele negou inicialmente a Coronavac e depois voltou atrás porque não tinha alternativa, isso é desastroso. Quando um sujeito que é especialista em logística não consegue fazer um avião levantar na hora para levar uma vacina de São Paulo para o Rio de Janeiro… A vacina chegou com seis horas de atraso! Acho que acabou. Precisamos tomar posição frente ao governo que tem patrocinado o que historicamente só tem um nome: genocídio. É algo que temos de descobrir quem, por que e punir. Está na hora de fazer isso.

As entidades médicas, como os conselhos federal e estaduais, precisam se posicionar mais?

Estão vergonhosamente calados. Eles foram levar apoio às posições do presidente. Até hoje nenhum conselho de medicina, federal ou estadual, se colocou em relação à utilização de medicamentos comprovadamente ineficazes pela ciência. Tivemos oportunidade de assistir a uma reunião do presidente com 100 médicos a favor do uso da cloroquina, da hidroxicloroquina e da ivermectina que foram levar apoio às posições do presidente. Até hoje não houve censura à posição irresponsável desse grupo de médicos. Temos 500 mil médicos no Brasil. Espero que a maioria não esteja usando água benta como esses médicos dizem que estão usando. Não tem eficácia. São piores que água benta. Na cloroquina tem efeitos colaterais 10% graves na esfera cardiológica. Conselhos de medicina devem ser objeto do Ministério Público, que é guardião da lei. Mas como o presidente escolheu Augusto Aras, um aliado, para o MP, isso é mais complicado. Ele tem ali um aliado com certeza. Os conselhos teriam condições de enfrentar isso. Como não estão fazendo isso, quem resta? Resta o Ministério Público, que está nocauteado. A Vigilância Sanitária também poderia responder por isso. Tem dois desses medicamentos, a azitromicina e a doxiciclina, que são antibióticos, que só podem ser vendidos com retenção de receita. Neste caso não está havendo retenção de receita. A Anvisa tem parte também nessa responsabilidade, particularmente no comércio de medicamentos, à medida que é função da Anvisa fiscalizar o comércio de medicamentos nas farmácias.

A militarização do Ministério da Saúde e da Anvisa atrapalham o enfrentamento da crise?

Se você coloca uma pessoa que não entende de determinada atividade para realizá-la, será que é ruim? Se pegar um pedreiro e pedir para ele fazer pão, ou pegar o padeiro para fazer uma casa, será que isso é normal? Quando você pega um militar e coloca numa função que não é típica de militar, será que está certo? Deixo a resposta a ser dada pela sociedade. Nem me arvoro a responder essa pergunta. Algumas exceções podem até ser olhadas. O militar que está na Anvisa é médico, isso é diferente de militar especializado em logística, que de logística não entende nada.

Corremos risco de ter um 2021 pior que 2020, mesmo com a vacina?

Se não tomarmos providência do ponto de vista de tentar manter nível de controle de governabilidade dessa crise, não tenho dúvida de que teremos um problema grave pior ainda do que tivemos até agora.

As pessoas podem ter mais confiança na Anvisa depois da reunião de domingo?

O processo foi muito positivo. As indústrias mandaram toda a documentação das pesquisas clínicas. Os servidores de carreira trabalharam noite e dia. Analisaram milhares de páginas que receberam, fizeram proposta de recomendação, que foi para os diretores. Um dos diretores foi o relator. Fez um relatório muito bom. Os outros seguiram, inclusive, o contra-almirante. A agência teve comportamento irrepreensível, que é o que a sociedade pode esperar de uma agência reguladora. Não fizeram, verdade, mais que sua obrigação, mas estamos elogiando porque fez seu serviço.

A vacina ainda continuará a ser politizada?

Não se deve politizar a vacina. O importante é você dar respostas que a sociedade necessita. A resposta que nós necessitamos no caso da vacina é a vacina. Não é a vacina do Doria, do Bolsonaro, da China, da Inglaterra.

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