Leitoras e acólitas, a obra-prima estratégica do Papa Francisco

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15 Janeiro 2021

O pontífice tornou oficial que ler a Bíblia e realizar o serviço do altar durante as missas não deverá ser feito apenas por homens. Um passo importante para uma modernização dos ministérios católicos, que (talvez) inaugure a reforma da igualdade há muito esperada pelo feminismo católico.

A reportagem é de Francesco Lepore, publicada por Linkiesta, 14-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Entre o não de Vaticano à ordenação de mulheres, reafirmado na Exortação pós-sinodal Querida Amazônia, e as pressões contrárias a favor do Sínodo da Igreja na Alemanha, novamente explicitados nas últimas declarações do presidente da Conferência Episcopal alemã Georg Bätzing, o Papa Francisco joga de surpresa a carta da solução intermediária e desbanca a todos. Ou, pelo menos, espera fazer isso.

De fato, há dois dias, com a Carta Apostólica sob a forma de Motu proprio Spiritus Domini, dispôs e regulamentou o acesso das mulheres aos ministérios instituídos do leitorado e acolitado, estabelecendo a modificação do cânon 230 § 1 do Código de Direito Canônico nos seguintes termos : “Os laicos que tenham a idade e as condições determinadas por decreto da Conferência Episcopal, podem ser chamados para o ministério estável de leitor e acólito, mediante o rito litúrgico instituído; porém esta outorga não atribui a eles o direito de ser sustentados ou remuneração pela Igreja”. Assim, é derrubada a especificação anterior "do sexo masculino", transposta pelo Código com base no que foi regulamentado por Paulo VI com o Motu proprio Ministeria quaedam (17 de agosto de 1972), que reservava a instituição do leitor e acólito apenas aos homens.

Recordando como a reforma disciplinar de Montini trouxe à luz o caráter laico desses ministérios e marcou uma diferença com aqueles ordenados no diaconato, presbiterado e episcopado, Francisco fala do desenvolvimento doutrinário ao confiar o leitorado e o acolitado também às mulheres, colocando como fundamento teológico “a comum condição de ser batizado e o sacerdócio real recebido no sacramento do Batismo”.

Uma institucionalização, portanto, do que já acontece há décadas em muitas paróquias e dioceses com mulheres que exercem a função de leitoras durante as celebrações litúrgicas ou ministras da palavra e de acólitas presidindo as orações litúrgicas ou distribuindo a Comunhão eucarística. Mas também do que já havia sido auspiciado no XII (5-26 de outubro de 2008) e no XIII Sínodo (7-28 de outubro de 2012) sob Bento XVI e naquele Pan-amazônico do ano passado.

O próprio Francisco lembra disso na carta explicativa ao Motu proprio Spiritus Domini dirigida ao Cardeal Luis Francisco Ladaria Ferrer, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, na qual, reiterando mais uma vez que a Ordem sagrada é reservada apenas aos homens, também explica que "a opção de conferir também às mulheres” ofícios como os de leitorado e acolitado, “que comportam uma estabilidade, um reconhecimento público e um mandato do bispo, torna mais efetiva na Igreja a participação de todos na obra de evangelização". Disso decorre também a tarefa confiada à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos de reformar o rito da instituição dos leitores e acólitos no Pontificale Romanum de acordo com a nova disposição.

Uma avaliação positiva é expressa a Linkiesta pela irmã Jeannine Gramick, co-fundadora do New Ways Ministry, que declara: “A Igreja precisa de mudanças radicais no direito canônico no que diz respeito ao papel das mulheres na comunidade eclesial! Permitir que as mulheres sejam leitoras e acólitas é um pequeno passo, mas na direção certa”.

O jesuíta James Martin, consultor do Dicastério do Vaticano para a Comunicação, também ficou entusiasmado, lembrando como “em muitas dioceses e paróquias, incluindo algumas nos Estados Unidos, bispos e pastores haviam limitado esses ministérios aos homens. É também o primeiro reconhecimento formal do ministério feminino no altar. Por fim, o Santo Padre descreveu-o como um “desenvolvimento doutrinal”, que é um desafio para aqueles que dizem que a Igreja não pode mudar”.

Em vez disso, considera o Motu proprio uma obra-prima da estratégia bergogliana Marinella Perroni, ex-presidente do Comitê Teólogas Italianas (CTI) e professora do Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, que aprecia especialmente a centralidade da teologia batismal no documento disciplinar.

“O Vaticano II - explica a biblista - entendeu que o verdadeiro problema do ponto de vista das escrituras, patrístico e teológico, é a estrutura ministerial da Igreja. Este é o grande nó da eclesiologia: tudo o resto vai passar com o tempo. Um nó que o Concílio não quis enfrentar, muito menos resolver, esperando, no entanto, que se continuasse a trabalhar nisso. Foi o que os biblistas fizeram nas décadas de 1970 e 80 com publicações, que podem ser consideradas definitivas. Mas depois veio a grande época do gelo”.

Segundo Perroni, “a questão da ordenação de mulheres só pode ser enfrentada com a revisão de toda a estrutura ministerial. O Batismo habilita ao exercício de alguns ministérios. É necessário reafirmá-lo para lembrar, inclusive, que diáconos, presbíteros e bispos também são batizados. Portanto, é essencial, em sintonia com o que fez Francisco, uma recuperação da teologia batismal como fundamento dos ministérios e dos carismas na Igreja. As reações a tal mudança disciplinar dependem unicamente de uma visão teológica tão enrijecida que funciona como um sistema de caixas chinesas”.

Também para Paola Lazzarini, fundadora de Mulheres pela Igreja, aquela de Bergoglio é “uma manobra estratégica bem colocada e muito sábia: ratificar a realidade não muda nenhum equilíbrio consolidado e ao mesmo tempo responde às crescentes instâncias de mais da metade da Igreja, ou seja, das mulheres. As reações das canonistas são muito positivas porque ressaltam a passagem de uma concessão a um direito, o que significa permitir que as mulheres se aproximem do coração da vida sacramental, embora obviamente sem tocá-la de perto”.

Também aponta para Linkiesta que "como socióloga, portanto interessada nos fenômenos sociais mais que no direito, observaria primeiro que essa mudança deve ser lida com um olhar para a Igreja universal e não apenas para a nossa experiência italiana. (nem mesmo esta homogênea), tendo em mente que há contextos em que, por exemplo, a presença de mulheres leitoras não é de forma alguma garantida; em segundo lugar, parece-me que se abre de alguma forma ao ministério da pregação, que muitas de nós consideram importante porque é inerente à nossa vocação batismal”.

Isso tudo é suficiente? De forma alguma, comenta Lazzarini, porque “não se pode deixar de notar que aprovar formalmente o existente é muito diferente de inaugurar uma reforma da Igreja que seja verdadeiramente na direção da igualdade para todos os batizados. E, portanto, que nossa fome e sede de justiça não pode se satisfazer com essas migalhas. E se a intenção era tirar argumentos da ação do feminismo católico (que vive uma fase de grande dinamismo graças às redes internacionais que estão surgindo) não vai funcionar, aliás, nos fortalece na convicção de que devemos agir agora pela mudança, sabendo que as ratificações chegarão, se chegarem, mais adiante e talvez, como neste caso, depois de décadas”.

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