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15 Janeiro 2021

Brasil ultrapassa a marca dos 200 mil óbitos por covid-19, e sanitaristas alertam que a tendência é que a doença ainda seja responsável por muitas mortes no país, mesmo com o início da vacinação.

Foto: portal EPSJV/Fiocruz

A reportagem é de André Antunes, publicada por portal EPSJV/Fiocruz, 14-01-2021.

Na última semana o Brasil ultrapassou a triste marca dos 200 mil mortos pela covid-19 desde que a pandemia chegou ao país, em março do ano passado. No momento em que esta reportagem é escrita, o consórcio de veículos de imprensa que monitora os casos no país contabiliza 206 mil mortos pelo novo coronavírus – o que coloca o Brasil na segunda posição entre os países com maior número de óbitos pela doença, atrás apenas dos Estados Unidos.

Para se ter uma ideia, isso representa quase a soma de todas as mortes causadas anualmente pelas doenças isquêmicas do coração e doenças cerebrovasculares – que são as que mais matam.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, entre 2010 e 2019, as doenças isquêmicas do coração mataram em média 110 mil pessoas a cada ano, enquanto as doenças cerebrovasculares mataram em torno de 100 mil pessoas por ano.

“É muito para uma doença só. Isso é muito grave”, alerta a presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gulnar Azevedo. E completa: “O número de óbitos do Brasil é maior do que o da Índia, que tem uma população muito maior. Trata-se de uma doença transmissível e se fossem adotadas medidas de prevenção certamente conseguiríamos diminuir bastante esses números”, observa.

Para muitos sanitaristas, a marca é preocupante também por ter sido atingida em um momento em que a média móvel de mortes por covid-19 voltou ao patamar de agosto, auge da pandemia, e mês em que o Brasil ultrapassou a marca das 100 mil mortes pelo novo coronavírus.

Desde então, as medidas de isolamento social adotadas para conter o avanço do vírus foram sendo flexibilizadas por todo o país. Também chegou ao fim, em dezembro de 2020, a vigência do auxílio emergencial que contribuiu, pelo menos no começo, para que milhões de trabalhadores informais ficassem em casa em meio à pandemia.

“É triste a gente ter chegado a uma marca dessas, mas é triste também ver como isso não sensibiliza mais. A impressão que eu tenho é que grande parte da população ignora a magnitude desse dado. Muita gente circulando, viajando no Natal, nas festas de Ano Novo, e o aumento expressivo de casos que a gente vê agora é reflexo também do nosso comportamento enquanto sociedade”, critica Diego Xavier, pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (ICICT/Fiocruz).

E completa: “Mas claro que a gente tem um problema crônico desde o início da pandemia, que é a falta de um discurso único, de uma liderança que fosse capaz de guiar a população para o enfrentamento dessa doença. E aí a gente está falando não só do presidente mas de vários gestores públicos estaduais e locais também, muita gente comprou esse discurso negacionista, muita gente buscou uma solução fácil para o problema, que é complexo, que demanda soluções complexas e, no final, esse é o efeito que a gente vê”.

Para Maria Yury Ichihara, vice-coordenadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde (Cidacs) da Fiocruz, o número é ainda mais cruel se considerado o perfil da maioria das vítimas.

“São mortes em populações mais vulneráveis que poderiam ter sido evitadas. Isso é o mais perverso, considerando que a maioria dessas 200 mil mortes aconteceu na população mais pobre, que não tem acesso a serviços de saúde, que precisa sair pra trabalhar, que não tem condição de moradia digna e não pode fazer isolamento social, vivem em periferias e em situações de adensamento urbano”, diz ela. E pondera: “Esse quadro teria sido ainda mais trágico se nós não tivéssemos no Brasil o Sistema Único de Saúde, que apesar de todo o não financiamento, apesar de todas as tentativas de desestruturação da atenção primária, do Mais Médicos, da diminuição dos leitos, de profissionais, foi um sistema que conseguiu segurar um pouco a escala da pandemia. Sem o SUS teríamos uma situação ainda mais grave”.

O que faltou?

Gulnar lembra que, em julho, a Frente pela Vida, composta por diversas entidades e organizações da saúde coletiva, produziram um plano nacional de enfrentamento à pandemia, que foi entregue ao Executivo e ao Legislativo, mas cujas recomendações não foram implementadas, segundo a presidente da Abrasco.

“Seriam medidas clássicas de saúde pública para lidar com uma doença que é altamente transmissível: distanciamento físico, uso de máscara, evitar aglomeração. Mas principalmente implementar um sistema de rastreio de casos suspeitos e de casos confirmados a partir de técnicas da vigilância epidemiológica, olhar todo mundo que teve contato, monitorar para que a pessoa com suspeita fique em quarentena até se ter certeza que não desenvolveu a doença. Ou seja, a gente tem que bloquear a transmissão, que é uma coisa que já se fazia há muito tempo em relação a doenças transmissíveis, mas que a gente não deu conta de fazer no caso da covid-19”, diz Gulnar.

Para ela também a resposta à pandemia teria sido outra caso houvesse um maior investimento no SUS. “A chegada desse vírus no Brasil coincide com um cenário em que o SUS vinha sendo muito atacado, principalmente a atenção primária, que atua junto com a vigilância epidemiológica para fazer esse trabalho de bloqueio de doenças transmissíveis. O Brasil tinha uma experiência boa nessa área, mas isso foi desestruturado – inclusive com o desfinanciamento da atenção primária, que fez com que muitas equipes fossem reduzidas”, ressalta a presidente da Abrasco.

Cenário preocupante

Boletim divulgado na última quarta-feira (13) pelo Observatório Covid-19 da Fiocruz mostra um quadro alarmante. Entre 21 de dezembro de 2020 e 4 de janeiro de 2021, 14 estados registraram taxas de ocupação de leitos de UTI para pacientes adultos de covid-19 acima de 70%.

As maiores taxas foram registradas no Amazonas (89,2%), Distrito Federal (88,7%), Mato Grosso do Sul (85,6%), Pernambuco (83%) , Amapá (81%) e Espírito Santo (80,7%).

Em seguida vêm os estados de Santa Catarina (77%), Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (73,3%), Pará e Paraná (71,4%) e Bahia (71%).

Segundo o boletim, nove capitais registraram taxas de ocupação de pelo menos 80%: Belém (100%); Campo Grande (100%); Rio de Janeiro (99,8%); Macapá (94,4%); Manaus (89,4%); Boa Vista (83,3%); Belo Horizonte (80,5%); Vitória (80,1%) e Curitiba (80%).

Diego Xavier, do ICICT, se diz apreensivo com a tendência de aumento nos casos de covid-19 no contexto atual.

“Antes a gente tinha uma alternativa logística de remanejar paciente do interior para capital à medida em que a doença ia chegando. Agora não. Infelizmente a gente tem um aumento de casos de maneira bastante uniforme no território nacional, com vários estados encontrando dificuldades. Essa perspectiva nos traz bastante apreensão, porque a gente tem agora uma população desmobilizada, com cansaço da quarentena, temos equipes de saúde exaustas, com desfalques, dado que muitos trabalhadores da linha de frente morreram por covid; a gente não tem o recurso extra para esse ano até o momento, já que não se definiu uma ajuda emergencial para as pessoas, que inevitavelmente vão ter que voltar a trabalhar. E se isso acontecer, infelizmente, os casos vão continuar surgindo, os óbitos também, até que a gente consiga a vacina, que é um processo que sabemos que não vai ser tão rápido”, avalia.

Vacina não pode ser única solução, dizem especialistas

Na terça-feira (12), o Instituto Butantan divulgou a taxa geral de eficácia da CoronaVac, vacina contra a covid-19 que está sendo produzida pelo instituto em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac: 50,38%, número ligeiramente acima do limite de 50% de eficácia estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para um imunizante contra a covid-19.

Na próxima segunda-feira (18) termina o prazo estipulado pela Anvisa para análise da autorização para uso emergencial da CoronaVac e também da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, que será produzida no Brasil pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), da Fiocruz.

“Em primeiro lugar, é preciso desmontar esse discurso de que a população não quer ser vacinada. A população quer sim ser vacinada. A população quer, merece e isso é uma atitude de cidadania, de direitos humanos, é preciso garantir o acesso para todo mundo”, pontua Gulnar Azevedo, para quem há um enorme desafio de garantir a logística e os insumos necessários para que a vacinação comece o quanto antes.

“Os estados e os municípios estão correndo atrás para garantir a distribuição e também os insumos necessários para a vacinação. Isso é uma resposta que eu acho que tem que ser colocada como importante”, diz a presidente da Abrasco.

Mas ela ressalta que apostar todas as fichas na vacina é um equívoco neste momento. “A gente está no meio da pandemia, com números em crescimento, e a vacina não vai ser dada para todos porque nem tem vacina para todo mundo ao mesmo tempo. Pessoas deixarão de ser suscetíveis à doença, mas o vírus não vai parar de circular. Então vamos ter que manter as outras medidas clássicas de saúde pública, o distanciamento físico, uso de máscara, não aglomerar”, recomenda a presidente da Abrasco.

Diego Xavier concorda. “Toda a discussão em cima da vacina está deixando de lado os cuidados que a gente precisa adotar para reduzir o número de casos – e isso inclui medidas impopulares sim, como o fechamento do comércio não essencial, por exemplo. A máscara tem uma eficácia, evitar aglomeração também tem uma eficácia, os cuidados de higiene também têm uma eficácia, a ciência já apontou isso. Mas a gente está discutindo a eficácia de uma coisa que a gente não tem ainda, como se isso fosse mais importante. Como se o agora e o número de óbitos acima de mil todos os dias não importasse, porque a vacina está chegando. Isso me deixa muito apreensivo”, destaca.

No Reino Unido, a campanha de vacinação contra a covid-19 iniciada no final de 2020 não foi suficiente para frear a escalada do número de casos, e na semana passada o país bateu o recorde de óbitos por covid-19 em um só dia registrado desde o início da pandemia.

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