A vacina e o censo. Artigo de Raniero La Valle

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04 Janeiro 2021

A vacina deve ser para todos: mas só pode sê-lo como um bem comum, como o ar, a água, o sol, não uma mercadoria que produziria riquezas ilimitadas para poucos e deixaria de fora milhões de recenseados em toda a Terra.

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 30-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Com a chegada deste ano de 2021, quando [Joe] Biden – sabe-se lá como – é presidente dos Estados Unidos, [Giuseppe] Conte é felizmente o primeiro-ministro da Itália, [Boris] Johnson é o desastroso primeiro-ministro do Reino Unido, e Angela Merkel – a mulher entre os poderosos que chora pelos mortos – é chanceler da Alemanha federal, é preciso fazer um censo de toda a Terra, para dar a todos a vacina que os salvará da pandemia. É como o censo que, segundo o relato de Lucas, César Augusto ordenou que fosse feito em todo o Império, quando Quirino era governador da Síria e quando Jesus nasceu.

Mas há uma diferença. O censo de Augusto foi feito para discriminar os cidadãos não romanos em relação aos romanos, embora este deve incluir a todos. Naquele tempo, pagava-se caro por não ser cidadão romano: por exemplo, a Jesus custou-lhe ser executado mediante a cruz, suplício do qual os romanos eram isentos, por ser considerada infame demais para eles. Para Paulo, por outro lado, ser civis romanus favoreceu-lhe o fato de poder apelar a César e ser transferido para Roma para aí ser julgado, embora isso não tenha parecido uma garantia tão grande, pois em Roma ele foi mantido prisioneiro e morto na primeira perseguição útil.

O fato é que há censos e censos. Davi foi repreendido pelo seu, porque foi feito apenas para saber quantos homens armados ele dispunha para a guerra; a lista de Schindler serviu para salvar o máximo possível de judeus dos campos de concentração; as listas dos registros civis são usadas frequentemente para excluir os pobres e negar a permissão aos estrangeiros; as listas de e-mail roubadas na web servem para acumular consumidores.

O censo a ser feito hoje, ao contrário, é sacrossanto. Pela primeira vez, ele deve ser feito em toda a Terra para ir ao encontro de todos os homens e mulheres cuja vida preciosa está ameaçada pelo vírus. Pobres e ricos, como disse o papa, quer o mercado concorde ou não.

Esta foi a mensagem de Natal: “Jesus ‘nasceu para nós’: um ‘nós’ sem fronteiras, sem privilégios nem exclusões”. Contra o vírus do individualismo, disse o papa, vacinas para todos. “Não posso colocar a mim mesmo na frente dos outros, colocando as leis do mercado e das patentes de invenção acima das leis do amor e da saúde da humanidade. Peço a todos, aos responsáveis dos Estados, às empresas, aos órgãos internacionais, que promovam a cooperação e não a concorrência, e busquem uma solução para todos: vacinas para todos, especialmente para os mais vulneráveis e necessitados em todas as regiões do planeta. Em primeiro lugar, os mais vulneráveis e necessitados!”.

Em toda a mensagem natalícia, nunca houve uma distinção entre quem é cristão e quem não é, nunca houve o menor indício de que o papa estava pensando “nos seus”, ou pelo menos nos fiéis, e não em todos. Essas “luzes de esperança”, como ele chamou as vacinas, “devem estar à disposição de todos”.

O papa, que já é conhecido como o líder de uma “cristandade”, sabe que não foi mandado para uma parte, para uma seleção, para uma Igreja, ele sabe que a sua audiência é para todos, mesmo quando na Praça São Pedro ou na Sala das Bênçãos não há ninguém, em ódio ao contágio; mas ele também sabe por que a audiência deserta quando se torna comunhão universal.

A razão é antiga, mas a sua apresentação é nova. Nunca se pregou assim. Essa é a reforma da Igreja ou, melhor, das religiões: é que o Pai fez todos irmãos, todos filhos no Filho: “Graças a esse Menino, todos podemos nos chamar e ser realmente irmãos: de todos os continentes, de qualquer língua e cultura, com as nossas identidades e diversidades, mas todos irmãos e irmãs”.

Mas, acrescentou o papa, deve ser “uma fraternidade baseada no amor real, capaz de encontrar o outro diferente de mim, de com-padecer dos seus sofrimentos, de se aproximar e de cuidar mesmo se ele não é da minha família, da minha etnia, da minha religião; é diferente de mim, mas é meu irmão, é minha irmã. E isso também vale nas relações entre os povos e as nações: irmãos todos!”. Mesmo que não seja da minha religião.

E se a fraternidade não chega a todos, porque para na porta de Caim, é preciso ir além e reconhecer o outro como próximo, e aqui não há mais fronteiras, porque o próximo, como Isaías o identifica, e depois o Samaritano até a encíclica Fratelli tutti, é aquele que é “da minha própria carne”: “uma caro”, como entre o homem e a mulher. A unidade humana, desejada pelo Pai, desce das alturas espiritualistas, faz-se na carne.

Por isso, a vacina deve ser para todos: mas só pode sê-lo como um bem comum, como o ar, a água, o sol, não uma mercadoria que produziria riquezas ilimitadas para poucos e deixaria de fora milhões de recenseados em toda a Terra. O papa ousou dizer isso, atentando contra o princípio supremo do lucro, e imediatamente o jornal Corriere della Sera, com o seu Giorgio Galli, superou todas as hesitações, decretou que a Igreja acabou, que com o seu Francisco ela não irá longe, que não tem mais razão de existir.

Por outro lado, uma Constituição da Terra, que reconheça o direito universal à saúde e lhe ofereça garantias e instituições operacionais eficazes, deveria prover exatamente isso. Se fosse necessária mais uma prova para demonstrar como é necessário e urgente este novo passo da civilização e do direito, a pandemia já a forneceu. Mas, enquanto isso, como essas instituições ainda faltam, o fornecimento das vacinas a todos deve ocorrer por decisão unânime dos atuais poderes econômicos e políticos. Eles farão isso?

Mesmo que isso aconteça, quando a última vacina for levada pelo Exército, as pessoas reais continuarão tendo que ser alcançadas, que não são um corpo que desaparece do vídeo, não são um rosto distorcido por uma máscara, não são um distanciado social, mas sim um rosto a ser reconhecido, a ser acariciado, a ser amado.

Há uma reflexão muito profunda de Umberto Baldocchi sobre como sair da pandemia [disponível em italiano aqui]. Ele diz que o distanciamento é como o inferno e que o vírus é funcional ao niilismo. Não é possível sair dele com a tecnologia, mas sim com um adendo de humanismo, segundo a lição de Boccaccio e do humanismo italiano após a peste de 1348.

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