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17 Novembro 2020

"Na interpretação da autora, a construção de uma terceira via católica acabou sufocada entre a pressão identitária e a elevação do consumo sexual como 'característica indispensável da qualidade de vida do consumidor', como escreveu Pasolini no Corriere de 19 de janeiro de 1975, menos de um ano antes de sua morte. Entre os 'comícios' de Pasolini e as encíclicas de Montini, os católicos se encaminhavam assim, desorientados e divididos, em direção ao terceiro milênio", escreve Marco Ventura, em artigo publicado por La Lettura, 15-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Não podemos ficar calados. Falar é um grande problema”. O dilema de Paulo VI, entrevistado por Alberto Cavallari, está nas páginas do Corriere della Sera de 3 de outubro de 1965. O Concílio Vaticano II está chegando ao fim. O Papa Montini impôs à maioria o redimensionamento das aberturas sobre o amor conjugal, sobre a paternidade responsável e sobre a autonomia dos cônjuges. Paulo VI não quer rupturas com a minoria conservadora. Ao mesmo tempo que o Concílio, a Comissão sobre a natalidade encomendada por João XXIII está trabalhando para responder a um mundo católico abalado pelo advento dos anticoncepcionais hormonais. Paulo VI confidencia o problema a Cavallari: “Ah, se estuda muito, sabe. Mas depois cabe decidir. E ao decidir, estamos sozinhos”.

A palavra sobre o sexo agita a Itália do boom econômico. Não se sabe o que dizer, não se sabe como dizer, o hábito do silêncio e a urgência de não calar entram em choque. As autoridades intelectuais e institucionais se sentem sozinhas. Naquele mesmo ano de 1965, foi lançado Comizi d'amore, documentário-enquete de Pier Paolo Pasolini sobre a sexualidade dos italianos. Nas ruas, praças e praias da Itália, o escritor e diretor entrevista estudantes e donas de casa, prostitutas e jogadores de futebol, crianças e intelectuais, operários e agricultores. Como Paulo VI, Pasolini expressa sua dificuldade e a de seus interlocutores: “Não há nada mais difícil, na verdade, do que falar de sexo”.

A historiadora Anna Patuzzi dedicou àquele complicado momento o volume que a editora Mimesis está prestes a entregar às livrarias com o título Il piacere e la colpa. Cattolici e sesso in Italia 1930-1980 (O prazer e a culpa. Católicos e sexo na Itália 1930-1980, em tradução livre). A incerteza de Paulo VI diante da possível orientação da Comissão e depois a decisão na encíclica Humanæ vitæ de 1968 de condenar a contracepção não natural são colocadas no centro de uma história à qual a autora dá um tempo e um sentido.

O tempo inicia em 1930 com a encíclica Casta connubii de Pio XI, a primeira intervenção pontifícia em defesa de uma sexualidade conjugal ameaçada por quem ao "fazer uso dela a tornam deliberadamente incapaz" de procriação, e termina em 1980, às vésperas do referendo sobre o aborto e nos primórdios do magistério de João Paulo II sobre a sacralidade da vida.

O sentido proposto por Patuzzi está em um sexo que "sai do confessionário" e em um catolicismo plural, mobilizado em torno do ensinamento dos papas e do dinamismo das comunidades, das associações, movimentos e revistas. Nas várias fases descritas, dos anos 1950 até os contrastes pós-conciliares dos anos 1970, a autora vê um catolicismo italiano em busca das "posições do magistério", mas também "dos fermentos da Europa e do outro lado do oceano". Em uma sociedade em profunda transição, o livro então narra “a quase forçada irrupção do sexo nas preocupações religiosas, políticas e antropológicas dos católicos italianos”.

Para Patuzzi, ao se confrontar com as relações pré-matrimoniais, a educação sexual, a homossexualidade, a luta contra o aborto clandestino, se desfez uma alternativa às duas "grandes bolhas" da "privatização do comportamento sexual" e de uma sexualidade sacralizada pela autoridade eclesiástica "para marcar a própria doutrina e cimentar o consenso interno".

Na interpretação da autora, a construção de uma terceira via católica acabou sufocada entre a pressão identitária e a elevação do consumo sexual como "característica indispensável da qualidade de vida do consumidor", como escreveu Pasolini no Corriere de 19 de janeiro de 1975, menos de um ano antes de sua morte.

Entre os "comícios" de Pasolini e as encíclicas de Montini, os católicos se encaminhavam assim, desorientados e divididos, em direção ao terceiro milênio. No dia seguinte ao lançamento da entrevista de Cavallari, Paulo VI está em Nova York. Presságio de um catolicismo cada vez mais global e cada vez menos ocidental, ele fala às Nações Unidas. Ele critica o controle da natalidade: pede aos governos "que propiciem pão suficiente para a mesa da humanidade".

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