Byung-Chul Han e os tempos perdidos

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15 Novembro 2020

Como ações simbólicas, os ritos estão permeados de valores e sentimentos que unem uma comunidade. Nessa simbologia descansa a tradição, assenta-se um saber fixado pelo tempo, transparece a “duração” de uma ideia transmitida através dos anos, das épocas, das gerações. Byung-Chul Han afirma que os rituais “libertam o mundo de sua contingência”, como se abrissem uma dimensão alternativa em que anseio, desejo e memória partem do tempo para redescobrir o diferente através do idêntico.

A reportagem é de Federico Romani, publicada por Clarín-Revista Ñ, 05-11-2020. A tradução é do Cepat.

Se a base do ritual é, precisamente, a repetição (de um gesto, de um movimento, de uma atitude), a lógica da crise permanente que alimenta a existência contemporânea – onde a tirania da novidade nos faz avançar sem piedade – não pode ser mais do que inimiga desse tipo de retenção nos lugares e nas coisas.

Praticar um ritual é se instalar, sustenta Han: construir no tempo o mesmo tipo de refúgio que, no espaço, representa um “lar”. Empresta a metáfora de O Neutro de Roland Barthes (“A cerimônia protege como uma casa: algo que permite habitar o sentimento”), primeiro desenhista desse habitáculo que não é físico, mas, no entanto, contém e ordena, canaliza e congela.

O ritual permite ver, escutar, tocar e sentir. O ritual domestica influxos e convida a se deter. É lugar de passagem, mas as transições que propõe têm um começo e um final e estão longe da esquizofrênica velocidade da hipermodernidade, onde não é possível acabar nada porque tudo está, o tempo todo, começando e recomeçando. O tempo se precipita sem contenção na era contemporânea. O tempo de hoje não é habitável porque não se pode tocar o fundo dele.

O desaparecimento dos rituais pode ser lido como uma continuação de O aroma do tempo, que Han publicou em 2015 e que, por sua vez, se apresentava como “um ensaio filosófico sobre a arte da demora”. Em sentido estrito, os dois livros podem ser lidos como um só, como abordagens complementares de um mesmo dilema ancestral ressuscitado pela vertigem psicótica que sequestrou nossa vida de relação: Como se “usa” o tempo hoje? Como é “consumido”? Como é acumulado ou esbanjado em um contexto sociocultural onde o capital (em sentido amplo) se torna cada vez mais simbólico e menos concreto?

O aroma do tempo se centrava na hipercinesia cotidiana do mundo moderno como a privação de qualquer estado de ânimo contemplativo ou predisposição para “demorar”. Quando as lembranças se tornam informação e o tempo mercadoria, o que surge é um espaço de relação sem memória e, portanto, a-histórico. O tempo não depende mais do destino, mas de seu desenho. O desaparecimento... está iluminado por essa mesma necessidade de “estabilizar” a vida, por esse anseio de a ancorar às coisas entendidas como “instrumentos”.

Uma das primeiras citações de O desaparecimento dos rituais pertence a Hannah Arendt de A condição humana: “A durabilidade das coisas as torna independentes da existência do homem”. A ritualidade permite que as coisas se tornem “antigas” através do uso, algo que não tem nada a ver com a obsolescência programada de hoje, e que remete, ao contrário, à forma como esse uso permite valorizar a função do instrumento através das épocas. Para Han, a partir do momento em que o econômico colonizou o estético, o ser humano foi obrigado a perceber de maneira “serial” e, portanto, privado do conceito de “duração” inerente ao deleite.

A repetição associada ao ritual pode funcionar como terapia de alívio para uma época onde a duração foi arrasada e os acontecimentos não conhecem nem princípio, nem final, impulsionados por uma lógica de consumo regrada pela dinâmica da novidade e a renovação permanente. Os rituais estabilizam a atenção, nos afastam dessa projeção selvagem para o futuro e nos permitem estacionarmos no presente.

O segundo convidado de Han é Søren Kierkegaard de A repetição: “Só se cansa do novo, mas não do antigo”. A compulsão pela novidade que domina a fábrica de gostos e tendências contemporâneas nos injetou algoritmicamente uma fobia à repetição. O frenesi de consumo de séries de TV é apenas um dos numerosos sinais que confirmam essa tendência à novidade permanente, essa fome pela queima de novidades que elimina qualquer possibilidade de revisão ou retorno.

Se, como já foi dito mais de uma vez, a verdadeira leitura é a releitura, o sufocamento por novidades que caracteriza o espectador de plataformas confirma o que Han anuncia como o fim dos “ritos de encerramento”. A febre pelo novo sepulta o passado como eixo histórico e nos deixa liberados para a aprendizagem vitalícia (isso não significa a superabundância de mestrados e pós-graduações que os claustros universitários semeiam?) e para uma continuidade de fases onde a narração não importa mais porque nada se conclui ou “encerra”.

A nostalgia pela tradição torna Han um filósofo reacionário? Caso se considere que Martin Heidegger foi, desde suas mais precoces obras, um de seus faróis intelectuais, a pergunta pode se tornar espinhosa. O que Han identifica como “a pressão para ser autêntico” exercida pela economia algorítmica sobre os cidadãos do mundo tem mais de uma conexão com o complicado enigma que Heidegger expôs em relação ao esquecido e à recuperação do “Ser”. A introspecção narcisista que Han identifica como o mandato invisível, mas persistente a se afundar na própria psicologia ressoa sobre essa questão.

A introspeção narcisista volta, também, um pouco mais no tempo, até Hegel. Em Hegel e o poder, um ensaio sobre a amabilidade, Han afirma que a sociedade do século XVIII ainda era definida por formas sociais de interação. A obra de Hegel define um indivíduo que se realiza encontrando seu lugar no seio da comunidade, integrando-se a esse todo “orgânico” que é o Estado, espécie de função totalizadora que dá espessura e sentido à vida individual.

Mas quando o ânimo de realização individual no seio da comunidade é substituído por um mandato de rendimento pessoal que conduz à autoexploração, o desvio introspectivo isola a pessoa e a submete a uma ginástica disciplinar física e mental de características psicóticas. Essa “psicopolítica” – que segundo Han substituiu há tempo a “biopolítica” de Michel Foucault, mudando disciplina social por autoexigência – é uma máquina que trabalha para reunir emoções “positivas” (comprar, consumir, acumular) em conflito com a negatividade que sustenta o sistema filosófico hegeliano.

O autor de Fenomenologia do Espírito (1807) havia decretado a “Natureza” como “presa nas repetições”. Do mesmo modo, supunha que a definitiva expressão do poder se dava onde o dominado se submetia por vontade própria ao desejo do dominador, espécie de jogo erótico-político entre senhor e escravo que marcou a forma como se pensava o poder até a irrupção materialista de Marx.

Han retoma Hegel para pensar as formas como o “belo” pode aparecer na cascata de emoções que nos afoga cotidianamente. Hegel propunha a construção de um “estado de ânimo” baseado na “interiorização”, porque o exterior só adquire significado quando é posto em relação com a alma humana. Os pequenos rituais da vida cotidiana (os que perdemos, os que temos, os que ainda podemos recuperar) parecem ser, para Byung-Chul Han, precisamente isso: estruturas mínimas de poder individual capazes de reunir o “muito” no “um”.

 

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