Da obsolescência programada à “reparação programada”

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10 Outubro 2019

Nascida nos Estados Unidos em 1932, em plena crise econômica, a estratégia que consiste em reduzir a vida útil dos objetos pretendia remediar o desemprego em massa. Uma prática hoje denunciada em nome da luta contra o desperdício e a proteção do meio ambiente.

A reportagem é de Alain Beuve-Méry, publicada por Le Monde, 09-10-2019. A tradução é de André Langer.

Os críticos da obsolescência programada acabaram de vencer uma batalha: no dia 26 de setembro passado, durante a discussão do projeto de lei antidesperdício e pela economia circular, o Senado francês aprovou uma emenda que obriga os fabricantes a oferecerem aos consumidores informações “simples” sobre a “reparabilidade” dos equipamentos elétricos e eletrônicos. Este texto deve satisfazer todos aqueles que acreditam que essa tática industrial, que consiste em reduzir deliberadamente a vida útil dos objetos para incentivar o consumo, é o novo mal do século.

Em 1952, o designer Brook Stevens incentivou as empresas de bens consumo duráveis a introduzir “deliberadamente”, nos bons produtos “algo que os tornará antiquados, ultrapassados e obsoletos”.

Quando essa noção de obsolescência programada apareceu pela primeira vez, em 1932, nos Estados Unidos, não teve conotação pejorativa. A expressão nasce, durante a Grande Depressão da década de 1930, pela pluma de um corretor de imóveis de Nova York que desejava reduzir o desemprego em massa: para Bernard London, a obsolescência programada permitiria sair da crise econômica decorrente da quebra da bolsa de Nova York, em outubro de 1929. Em uma obra que as Edições Allia acabaram de republicar, L’Obsolescence Programmée des Objets (48 p., 6,20 euros), ele diz que é necessário impor aos objetos uma data de validade para obrigar os consumidores a renová-los regularmente. “Nosso grande trabalho é acelerar a obsolescência”, acrescentou, dois anos mais tarde, o dono da General Motors, o grande rival de Henry Ford.

Se, no século XIX e início do século XX, a palavra ainda não existia, historiadores e economistas já veem traços dessa estratégia desde que a sociedade industrial vem ganhando força. A ascensão das grandes lojas descritas por Émile Zola em seu romance naturalista O Paraíso das Damas, em 1883, conta a história do nascimento de uma sociedade em que a renovação dos produtos torna-se o alfa e o ômega da economia capitalista.

Uma estratégia abertamente reivindicada quase um século depois pelo designer americano Brook Stevens (1911-1995): em 1952, ele incentivou os responsáveis pelas empresas de bens duráveis, como têxteis, eletrodomésticos ou carros, a introduzir “deliberadamente”, no ano seguinte à comercialização de um bom produto, “algo que tornará esses produtos antiquados, ultrapassados e obsoletos”. “Estamos fazendo isso por uma razão óbvia: ganhar dinheiro”, conclui.

Uma demanda artificial por bens

Na década de 1960, no entanto, esses métodos suscitaram críticas virulentas. Os críticos da “civilização do descartável” questionam o modelo capitalista tal como se desenvolveu nos países ocidentais e denunciam o triunfo da sociedade de consumo. Nos Estados Unidos, o economista John Kenneth Galbraith (1908-2006) e o sociólogo Vance Packard (1914-1996) acusam, assim, os industriais de criar uma demanda artificial por bens. Em Estratégia do Desperdício (Calmann-Lévy, 1962), Vance Packard aponta a abundância de resíduos gerados pela constante renovação dos produtos e identifica três modos de obsolescência programada: a modernização constante dos produtos, a queda de sua qualidade e os danos dos efeitos da moda.

Durante os Trinta Gloriosos, os debates se cristalizam sobre os produtos de consumo de massa, em particular lâmpadas e carros. A ponto de alguns fabricantes adotarem deliberadamente uma abordagem contrária a essa estratégia da obsolescência, destacando, em suas campanhas publicitárias, a durabilidade de seus produtos: em 1962, a Volkswagen ostenta assim os méritos de seu carro icônico, a “Joaninha”, criticando as técnicas de seus concorrentes. “Nós não acreditamos na obsolescência programada e não trocamos um carro pelo simples prazer de trocar”, diz o fabricante.

A crise econômica de 2008 acentua esta ofensiva contra a obsolescência programada. No campo jurídico, a França está hoje na vanguarda dos países europeus: em 2014, a Lei Hamon obrigou os distribuidores a exibir, de maneira legível, informações sobre a disponibilidade das peças de reposição e, desde 2015, um crime que pode ser punido com dois anos de prisão e uma multa de 300 mil euros que reprime “todas as técnicas pelas quais um produtor visa reduzir deliberadamente a vida de um produto, a fim de aumentar a taxa de substituição”.

Em 2017, foram abertas investigações contra a Apple, que é suspeita de reduzir o desempenho de seus modelos de telefones mais antigos, e também contra a Epson, que estaria incitando os usuários a substituir seus cartuchos de impressora enquanto ainda contenham tinta.

Nos últimos anos, não é apenas em nome dos direitos dos consumidores, mas também em nome da proteção ambiental, que a obsolescência programada passou a ser contestada. E alternativas vão surgindo: consumidores estão criando Cafés de Reparação para prolongar a vida útil dos produtos de consumo, e associações voluntárias, como o Alto à Obsolescência Programada (HOP), estão promovendo a ideia de uma “reparação programada”.

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