“Fratelli tutti”, isto é, “todos nus”. O “de amicitia” do Papa Francisco

Foto: Vatican News

06 Outubro 2020

"O primado antropológico da fraternidade, contra as reduções e desfigurações de outras leituras, encontra aqui o seu canto. Aqui se delineia o perfil originário do ser humano e se indica a autoridade suprema na nudez, na marginalidade e na periferia que todos nós somos. Uma irmandade crucificada e ressuscitada, negada e esperada, para ser assumida e construída, para ser reconhecida e ensinada", escreve Andrea Grillo,  teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado por Come Se Non, 05-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Assim que fiquei sabendo o título da nova encíclicade amicitia et fraternitate” do Papa Francisco, por assonância emocional ouvi a música das primeiras palavras ditas por meu filho Giovanni. Estávamos perto de Oristano, em Torregrande, junto com teólogos, para a Conferência da ATI de 2007. Meu filho ainda falava muito pouco, embora soubesse ter longas "conversas", mesmo com estranhos, apenas com gestos das mãos e tons da voz. Mas não daquela vez: estando entre tantos teólogos em trajes de banho, à beira-mar, sob o sol do final de agosto, ele exclamou, articulando bem as palavras e fazendo um gesto com o braço para indicar todo o pessoal: “TODOS NUS". Pois bem, gostaria de ler o significado dessa nova encíclica à luz dessas palavras elementares, procurando uma espécie de "definição" de "Fratelli Tutti" em termos de uma "nudez universal", a ser reconhecida com dificuldade e mantida com cuidado, ao mesmo tempo ato de fé e gesto de inteligência, palavra primordial e bem supremo.

 

A estrutura do texto

 

Se observarmos a estrutura do documento vemos que, após uma introdução marcada pela luz que vem do modelo de São Francisco - que inspirou, além desse texto, o texto da Laudato Si' e o próprio nome do Papa Francisco - o movimento do texto procede de maneira semelhante a Amoris Laetitia. Lê a realidade com suas sombras (cap. 1), se deixa inspirar por um texto bíblico (cap. 2) e depois formula o coração de seu de amicitia et de fraternitate no cap. 3. Disso derivam uma série de consequências importantes que ocupam o restante do texto (capítulos 4-8). Por uma questão de utilidade, vou apresentar aqui a estrutura da Encíclica e, em seguida, realizarei apenas algumas considerações relativas aos dois capítulos centrais (capítulos 2-3). Será uma leitura intencional e necessariamente parcial, remetendo outras considerações necessárias para outros momentos. Aqui está o índice, por si só já significativo:

 

A raiz da fraternidade e da amizade

 

Como eu disse, no centro do documento está uma leitura bíblica e uma meditação que é, ao mesmo tempo, teológica, antropológica e filosófica. Apesar de ter como objetivo uma "palavra compartilhada" e, portanto, não marcada em grau excessivo por uma especificidade confessional, o movimento inspira-se em uma palavra inspirada (a parábola do Bom Samaritano), oferece uma exegese meditada e atualizada e, portanto, não é absolutamente iluminista, ainda que dialoga de forma profunda e inusitada com o universalismo do conceito e com as evidências da experiência. Deve-se dizer, além disso, que a distinção entre "palavra de autoridade" e "evidência de experiência" não é tão drasticamente identificável no capítulo 2 e no capítulo 3. Também no segundo capítulo se reflete em profundidade, enquanto também no terceiro capítulo nos colocamos em escuta.

 

Uma longa e original exegese da parábola

 

A parábola, depois de ser citada na íntegra, é comentada em 5 passagens, a primeira das quais é uma leitura do caminho universalista dentro da tradição bíblica, judaica e cristã. No início, há uma crise dramática: o início da história da fraternidade é o desastre entre Caim e Abel. Por outro lado, mesmo na história civil, temos começos trágicos, como Rômulo e Remo. Os primeiros irmãos não conhecem fraternidade alguma. O aparecimento da relação fraterna como amor, como cuidado do outro, tende portanto a sair dos vínculos, a tornar-se vínculo sem depender dos laços, a ponto de se tornar "regra de ouro" do cuidado mútuo entre os homens: ou seja, faça aos outros o que gostaria que fizessem a você. Portanto, a pobreza, a ferida, a nudez do outro se revelam como o lugar da nossa dignidade. Saber ter compaixão pelo outro significa “sentir com o seu corpo”, sentir-se pobre com ele, ferido com ele, nu com ele. Sua dignidade e nossa dignidade não são inversas, mas diretamente proporcionais. Nós até temos que descobrir que, da parábola, temos em nós o traço de cada um dos personagens:

 

"todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano" (FT 69).

 

E, em seguida, aplicando a parábola como parâmetro de leitura do nosso tempo, acrescenta-se com força:

 

“Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo. Nos momentos de crise, a opção torna-se premente: poderíamos dizer que, neste momento, quem não é salteador e quem não passa ao largo, ou está ferido ou carrega aos ombros algum ferido.”(FT 70).

 

A “não indiferença” é o único berço da fraternidade social e universal. Na parábola, a "não indiferença" surge de um "samaritano" (um homem discriminado e marginalizado) em comparação com um judeu ferido e abandonado. A universalidade da fraternidade se escreve numa proximidade que supera qualquer "comunidade restrita" e que, portanto, delineia uma "sociedade aberta".

Nas últimas linhas desse segundo capítulo, o universalismo da fraternidade encontra uma âncora teológica na identificação de Cristo com os pobres, com os sedentos, com os enfermos e com o reconhecimento, para cada cristão, que pode encontrar nos outros “a sua própria carne". É por isso que se extrai uma conclusão singularmente franca, em termos de uma "autocrítica" da tradição, muito semelhante às passagens paralelas de Amoris Laetitia (AL 35-37) e com isso se conclui o capítulo 2:

 

"Às vezes deixa-me triste o fato de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência. Hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, não temos desculpas. Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos.”(FT 86 )

 

Pensamento e práticas da fraternidade

 

Depois dessa rica exegese da parábola do Evangelho de Lucas, a "teoria" da fraternidade é esboçada no cap. 3, o mais amplo e complexo do texto, do qual gostaria de mencionar apenas os pontos mais decisivos:

 

a) As primeiras palavras do capítulo giram em torno de três termos: dom, amor e "sair de si". O homem não encontra a si mesmo se não se doar, se não amar e se não sair de si mesmo. As fontes são o magistério da Igreja (Vaticano II e papas), o personalismo (Marcel) e Tomás. Rahner também é citado, curiosamente de um texto de meditações sobre o Ano litúrgico!

 

b) Esta primeira aquisição dialoga com a “autoconsciência moderna” da sociedade liberal. Em particular com os três princípios da Revolução Francesa: “liberté, égalité, fraternitè”. O mundo moderno tem realmente conseguido realizar grandes conquistas em termos de liberdade e igualdade, mas parece quase impotente sobre a fraternidade. Um texto é aqui decisivo:

 

A fraternidade não é resultado apenas de situações onde se respeitam as liberdades individuais, nem mesmo da prática duma certa equidade. Embora sejam condições que a tornam possível, não bastam para que surja como resultado necessário a fraternidade.” (FT 103)

 

c) A liberdade e a igualdade são necessárias, mas não são suficientes. Essa é a virtude e o vício do mundo moderno: ter desenvolvido muito a liberdade e a igualdade, mas ter muita dificuldade para compreender a lógica da fraternidade, sem a qual não há nem verdadeira liberdade nem verdadeira igualdade. A primeira é orientada para o individualismo, a segunda para a homologação e associação.

 

d) Trata-se, portanto, de "dar raiz" à liberdade e à igualdade, que não estão no início, mas sim nas consequências de uma "amizade social" e de uma "fraternidade universal". Poder-se-ia dizer que Francisco não desiste de habitar o mundo moderno. Mas ele quer enxertar a liberdade e a igualdade na fraternidade, e não vice-versa. Isso fica especialmente evidente se pensarmos na força com que se pretende pensar a sociedade a partir da “liberdade econômica”. Ignorar a fraternidade do horizonte originário altera inevitavelmente tanto a liberdade como a igualdade, e as corrompe. A solidez do sujeito está na solidariedade: cuidar do outro e a garantia de si mesmo. Desde que o si mesmo possa se trocar com o outro, colocar-se no seu lugar, reconhecer-se sendo reconhecido. Com base nesse ato de reconhecimento, todos têm uma dignidade originária e inalienável:

 

Assim, como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pelo simples fato de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, de por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento. " (FT 121)

 

Essa leitura, fundada na dignidade originária de cada homem e mulher, não é uma fantasia, mas uma profecia e um desafio que impulsiona a novos sonhos e novos projetos:

se se aceita o grande princípio dos direitos que brotam do simples fato de possuir a inalienável dignidade humana, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente”. (FT 127)

 

O homem: lobo, pai, patrão, irmão

 

Vou parar por aqui. O coração da mensagem da FT está contido aqui. Poderíamos dizer que se concretiza em uma antropologia, iluminada pela autoridade da fé (e das crenças) e pela experiência dos sinais dos tempos. Uma antropologia que mantém a bíblia e o jornal na mesinha de cabeceira. E que assume as angústias de um mundo profundamente transformado por novas formas de compreender e tratar os homens que se concentram em quatro fórmulas:

 

- homo homini lupus: a estranheza de cada um diante do outro
- homo homini pater-mater / filius-filia: a predeterminação e a genealogia da liberdade
- homo homini dominus-domina / servus-serva: a produção e a desigualdade do sistema
- homo homini frater-soror: a fragilidade reconhecida de uma comunhão recebida e que deve ser cuidada

 

Conhecemos a desordem da floresta selvagem de um homem animal sem respeito (e, diferentemente do lobo, sem natureza); a ordem de uma paternidade/filiação que blinda identidade e sociedade; o poder do domínio do homem sobre o homem, que sacrifica tudo à produção; a reconhecida nudez do irmão e do cosmos, aberta à (e pela) dignidade de todos. Os homens são também animais, são pais e mães, filhos e filhas, são patrões e servos, mas acima de tudo são e devem ser reconhecidos como irmãos e irmãs. O primado antropológico da fraternidade, contra as reduções e desfigurações de outras leituras, encontra aqui o seu canto. Aqui se delineia o perfil originário do ser humano e se indica a autoridade suprema na nudez, na marginalidade e na periferia que todos nós somos. Uma irmandade crucificada e ressuscitada, negada e esperada, para ser assumida e construída, para ser reconhecida e ensinada.

 

O Papa Francisco - sob o sol de Roma, Lampedusa, Abu Dhabi - diante do difícil e duro espetáculo de uma fraternidade negada e esvaziada por lobos, pais-patrões e filhos-servos, com o gesto de seu braço indica toda a humanidade, sem qualquer distinção, e pontua bem as palavras para dizer: "todos nus", "irmãos todos". Palavra primordial e, ao mesmo tempo, cidade ideal.

 

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