Jerônimo e a Vulgata resistem aos séculos. Artigo de Gianfranco Ravasi

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29 Setembro 2020

"Com todas as reservas e críticas, muitas vezes compreensíveis considerando os tempos de trabalho e nossa sensibilidade filológica diferente, a Vulgata do santo dálmata não apenas constituiu um monumento literário do latim tardio, mas moldou a linguagem teológica do Ocidente cristão. Na verdade, o sucesso alcançou a obra apenas alguns séculos depois, quando teve o aval prático de são Gregório, o Grande, papa de 590 a 605. A partir daquele momento, a Vulgata foi copiada em milhares de códices, muitas vezes arrastando consigo detritos de todos os tipos (erros dos escribas, mudanças intencionais, variações, contaminação com outras versões e assim por diante). Ao longo de toda a Idade Média, a tradução de Jerônimo brilhou, embora nunca em uma única forma definida", escreve o cardeal Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 27-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Doutores da Igreja. O grande tradutor da Bíblia para o latim morreu em Belém em 30 de setembro de 420. A data será comemorada por uma "Carta Apostólica" do Papa Francisco.

Foi em 30 de setembro de 420 e em Belém, perto da gruta da Natividade de Cristo e da basílica erguida por Helena, mãe de Constantino, que São Jerônimo morreu. Ele tinha pouco mais de 70 anos (nasceu em Estridão, na Dalmácia, em uma data entre 340 e 350). Domenico Zampieri, entre 1611 e 1614, dedicaria às últimas horas desse célebre Doutor da Igreja um imponente retábulo de mais de quatro metros de altura e dois e meio de largura, representando a extrema Comunhão do santo, hoje preservado na Pinacoteca do Vaticano, com outro impressionante painel dedicado a Jerônimo penitente no deserto que Leonardo da Vinci pintou por volta de 1482 e que teve uma história de contornos dignos de livro.

Nós, porém, dezesseis séculos depois daquele dia de outono, que será comemorado por uma Carta Apostólica do Papa Francisco, gostaríamos de voltar a atar o fio da existência atormentada desse personagem de caráter áspero, mas dotado de genialidade única.

Voltemos, portanto, à Quaresma de 375. Enquanto a febre o deixava sonolento, um sonho se desenrolou na mente de Jerônimo, então residente em Antioquia da Síria. Ele se encontrava perante o divino Juiz: “Quando questionado sobre a minha condição, respondi que era cristão. Mas Aquele que presidia aquela reunião, rebateu: Você mente! Você é ciceriano, não cristão!”. “Senhor – respondi – se eu tiver livros mundanos nas mãos, se os ler, será como se tivesse vos renegado!”.

Assim o santo contava, em carta dirigida ao fiel discípulo Eustóquio, a grande virada de sua vida. “Tornei-me, então – narraria em outra carta – discípulo de um irmão judeu convertido para aprender, depois das sutilezas de Quintiliano, os rios de eloquência de Cícero, a gravidade de Frontão e a agradabilidade de Plínio, um novo alfabeto e para praticar a pronunciar sons estridentes e aspirados. Que esforço foi para mim, que dificuldades encontrei, quantas vezes parei e depois, pela vontade de aprender, comecei de novo, só a minha consciência pode testemunhar, que suportou tudo isso, mas também a consciência daqueles quem foram os meus companheiros de vida “.

Assim começava a grande aventura que ficou famosa com o nome de Vulgata, ou seja, a elaboração de uma tradução "popular" da Bíblia em latim. O início aconteceu em Roma, onde Jerônimo residia desde 382; inicialmente tratou-se de uma simples revisão da versão latina do Novo Testamento então já em uso, a chamada Vetus latina, operação realizada a pedido do Papa Dâmaso I, eleito em 366. Com a morte deste último em 384, o inflamado Jerônimo acabou entrando em confronto com seu sucessor, o Papa Sirício, e decidiu dar uma nova guinada em sua existência.

Depois de deixar a capital, mudou-se para a Terra Santa, em Belém, onde seria seguido por aquele grupo de mulheres aristocráticas romanas com quem tinha inaugurado um círculo de estudos bíblicos e espirituais na capital. Estamos em 385-86. Ali, ao lado da gruta onde Jesus nasceu, Jerônimo, além de fundar dois mosteiros, um masculino e outro feminino, se dedicou à tarefa de tradução latina das Escrituras. Em 389-390 trabalhou no Saltério, com base não no original hebraico, mas na versão grega antiga da Bíblia chamada "dos Setenta" (somente mais tarde ele executaria outra do hebraico, mas tal tradução não entraria na Vulgata). Ele depois passou para os outros livros do Antigo Testamento, procedendo de forma desigual, também de acordo com seu temperamento mutável, seus gostos e as circunstâncias.

Assim, por exemplo, ele traduziu o livro de Judith com relutância em uma única noite, Tobias em um único dia, usando um texto aramaico que não chegou até nós. Ele rejeitou os outros livros deuterocanônicos (Sirácida, Sabedoria, Baruc, Macabeus) porque eles não foram escritos em hebraico e, portanto, não foram aceitos pelo Cânon judaico. Em apenas três dias ele traduziu o Cântico dos Cânticos, Eclesiastes e Provérbios. No ano de 406, Jerônimo chegou ao fim de sua empreitada e daquele momento em diante ele passou a se dedicar, até à morte, sobretudo à atividade de exegeta (aliás, atividade já praticada antes), de teólogo e incansável polemista.

Com todas as reservas e críticas, muitas vezes compreensíveis considerando os tempos de trabalho e nossa sensibilidade filológica diferente, a Vulgata do santo dálmata não apenas constituiu um monumento literário do latim tardio, mas moldou a linguagem teológica do Ocidente cristão. Na verdade, o sucesso alcançou a obra apenas alguns séculos depois, quando teve o aval prático de são Gregório, o Grande, papa de 590 a 605. A partir daquele momento, a Vulgata foi copiada em milhares de códices, muitas vezes arrastando consigo detritos de todos os tipos (erros dos escribas, mudanças intencionais, variações, contaminação com outras versões e assim por diante). Ao longo de toda a Idade Média, a tradução de Jerônimo brilhou, embora nunca em uma única forma definida.

Na manhã de 8 de abril de 1546, na quarta sessão do Concílio de Trento, finalmente ocorreu a "canonização" da empreitada de Jerônimo (veja-se, no entanto, que talvez para todo o Novo Testamento – certamente para os Evangelhos – o santo nunca fez uma nova versão, mas apenas revisou a antiga tradução latina preexistente). A declaração conciliar era "pesada" no seu teor: os Padres Sinodais, de fato, advertiam que "se alguém não tivesse acolhido como sagrados e canônicos os mesmos livros sagrados íntegros com todas as suas partes, assim como na Igreja Católica se costuma ler e são encontrados na antiga Vulgata latina, e se tivesse consciente e coerentemente desprezado a tradução acima mencionada, seria um caso de anátema”. Claro que no meio tempo houve a polêmica com a Reforma, mas foi o próprio Concílio, na tarde do mesmo dia, que especificou que a "autenticidade" da Vulgata dizia respeito "às lições públicas, às disputas, à pregação e à explicação".

Portanto, não se tratava de uma autenticidade crítico-literária e estritamente dogmática em todas as suas partes, mas de uma norma de ordem jurídica, disciplinar e pastoral. Demorou, no entanto, um século e meio de estudos e tentativas para chegar em 1592 à edição definitiva do texto eclesial oficial da Vulgata, aquela que mais tarde seria chamada de "Bíblia Sisto-Clementina" do nome dos dois papas (Sisto V e Clemente VIII) que deu o selo de aprovação final. A edição crítica no sentido moderno, por outro lado, seria montada por meio de várias experiências no século passado. Naquele período – com Paulo VI e com o Concílio Vaticano II – foi promovida também uma Nova Vulgata, ou seja, uma revisão do texto jeronimiano levando em conta as necessidades da moderna crítica textual e da exegese, revisão aprovada por João Paulo II em 1979, porém destinada a um baixo impacto eclesial.

De fato, novas versões em várias línguas há muito haviam entrado em vigor de acordo com os critérios exegéticos atuais. Mas a experiência de São Jerônimo há dezesseis séculos ainda exerce hoje não apenas um indubitável fascínio literário, mas de alguma forma condiciona o pensamento e o vocabulário teológico. Georges Mounin ironizava definindo cada boa tradução como uma belle infidèle, na esteira do grande Cervantes, convencido de que cada versão era como o triste reverso de uma bela tapeçaria. Os problemas levantados pela tradução de um texto não são, de fato, apenas linguístico-literários, mas hermenêuticos, especialmente quando há uma Escritura "sagrada" envolvida. Porém Jerônimo continua, ainda hoje, justamente neste sentido, um emblema de mérito e de método, com o seu rigor e a sua liberdade, com o seu conhecimento e a sua criatividade.

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