E a Bíblia se fez história

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27 Novembro 2019

"Para acreditar em toda essa arquitetura narrativa histórica, literária, temática e espiritual, é necessário ter a latitudo cordis de Salomão (1 Reis 3,9): Calasso ama essa versão da Vulgata do dom divino feito a esse rei sábio, um "coração tão vasto quanto a areia que está na praia do mar”. O fato é que, como Carlo Ossola escrevia em seu profundo ensaio Dopo la gloria (ed. Treccani), a Bíblia continua sendo "um marco maravilhoso e uma pedra ‘de tropeço’ no cinza sonolento do nosso tempo", escreve Gianfranco Ravasi, cardeal italiano e prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 24-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Il libro di tutti i libri
Roberto Calasso
Adelphi, Milan,
p. 555, 28 €

Roberto Calasso. O autor desmembra as Escrituras e as reconstrói de acordo com uma nova trama que começa da época considerada historicamente mais sólida: aquela de Saul e Samuel. O latim tem em seu arsenal linguístico uma palavra sugestiva, textus: na realidade, é um particípio passivo do verbo texere, “trançar, criar uma trama”, e tem como significado primário a referência ao “tecido”, mas por metáfora também ao que em italiano (e português) é o “texto”, circundado por um “contexto” e eventualmente antecipado, seguido ou deformado por um “pretexto” e de um "paratexto". Pois bem, os "textos" que fundamentam a civilização de um povo, de sua religião ou cultura são precisamente "tecidos" dos quais se pode extrair fios e tecê-los em uma nova trama, mesmo com o risco de desfiar o original. Curiosamente, Cervantes já estava convencido, por exemplo, que operar uma tradução é como contemplar uma tapeçaria pelo avesso, com fios caídos, cores desbotadas e cenas descoradas.

No entanto, essas operações "textuais" são legítimas, especialmente nos arquétipos literários. Vamos pensar sobre o que Borges elaborou puxando fios dos poemas homéricos ou da Bíblia. Mas isso ainda acontece em nossos dias em níveis menores: por exemplo, temos uma Odisseia que Daniel Mendelsohn, professor do norte-americano Bard College, bordou analisando fios e filamentos homéricos (a obra foi recentemente traduzida pela Einaudi). Uma operação semelhante é realizada por um mestre desse tipo de "re-tecelagem", Roberto Calasso, que - depois de se consagrar principalmente (mas não apenas) a "textos" do antigo Extremo Oriente - abordou agora "o livro de todos os livros" (copyright de Goethe), que justamente se chama de Bíblia, no molde do equivalente grego para indicar os "livros". E fez isso escolhendo entre o denso entrelaçamento policromo dos fios textuais originais: nas páginas bíblicas existe, de fato, o fio histórico, aquele teológico, o narrativa, o épico, o poético, o topográfico, o antropológico, o retórico, o psicológico e assim por diante numa impressionante lista de gêneros literários. Aquele por ele privilegiado é especificamente o narrativo histórico, estrutural com a mesma qualidade das Sagradas Escrituras que não são coletâneas de teses abstratas que decolam do horizonte terrestre em direção ao paraíso da abstração e da especulação sistemática, como será registrado no delta ilimitado dos tratados teológicos.

Calasso escreve: “A Bíblia libera uma tensão romanceada muito alta. Eleito é quem faz avançar as histórias e a história”. Mas há também a retomada dos fios temáticos e simbólicos, como a criação, a Torá, a idolatria, o culto ritual e profético, o templo erguido e destruído, o messianismo e muito mais. Prescinde-se, no entanto, do discurso requintadamente teológico da "inspiração", isto é, do cruzamento entre a Palavra transcendente e palavras históricas, a “pretensão” radical inerente às Sagradas Escrituras. Os relatos sagrados prosseguem sob a mão (ou a voz) de múltiplos autores, que tornam o "texto" policromo, a ponto de, ao lado de um Qohelet frio e cortante, existir um animado e apaixonado Cântico dos cânticos, "uma farpa cravada em uma camada geológica quimicamente estranha", como suspeita Calasso que, no final, reconhece que "o principal autor da Bíblia poderia ser considerado o desconhecido Redator final, primeiro responsável de todas as inúmeras ocasiões de desconcerto que a Bíblia só pode provocar em qualquer um".

Para expressá-lo segundo categorias teológico-exegéticas, uma leitura coerente na incoerência das tradições, dos autores, dos enxertos e das reedições que constituem "o livro de todos os livros" é aquela sugerida pelo Cânone codificado no final como selo hermenêutico da Sinagoga e da Igreja.

Além disso, é dominante a tradição rabínica judaica no palimpsesto dessas páginas. Segurando entre as mãos os fios escolhidos, sobretudo narrativos, com seleções e omissões conscientes (Ezequiel é privilegiado sobre os outros profetas), Calasso começa a retecê-los de acordo com uma nova trama que parte, com Saul e Samuel, daquela época monárquica considerada como a primeira matriz historiográfica dotada de certa solidez, mesmo que essa não seja mais a tese predominante entre os estudiosos atuais.

Aliás, esse não é o objetivo principal pretendido pelo autor. De fato, ele apela apenas à academia exegética da primeira metade do século passado (Dhorme, Lods, Gressmann, Sellin, Cassuto, Von Rad, De Vaux, Ginzberg e assim por diante). Não é à toa que sua nova tecelagem, de fascinante ditado, que leva em conta a lição narratológica de Robert Alter, recompõe a história bíblica de acordo com uma nova trama original. Nela, os quadros podem ser reconstruídos ora em flashbacks, ora em uma chave impressionista, ou contando com o florescimento dos temas, frequentemente contaminando-os com as tradições judaicas posteriores com suas pirotecnias alegóricas (Calasso sabe encontrar até os escritos mais remotos, como, por exemplo, o Sifte Kohen, o livro dos "lábios do sacerdote").

Aliás, sua história - que já é meio midrash, ou seja, narrativa exemplar - torna-se, por vezes, mashal, parábola: mesmo aqui bastará citar apenas um exemplo, o delicioso exemplo da rainha de Sabá e a poupa com a carta de Salomão presa à asa. Ou se recorre às Escrituras de outras civilizações que foram a alma de tantas leituras anteriores de Calasso: sempre exemplificando, os profetas bíblicos estão conectados aos videntes védicos e Elias é assimilado "aos Saptarshi que vigiavam a Ásia do alto da Ursa Maior”. Mas, obviamente, nesse tear não pode falar a inserção de novelos saídos dos laboratórios da nossa modernidade. Geralmente são lentes hermenêuticas que às vezes podem resultar deformantes ou opacas, mas em alguns casos são capazes de desvendar cantos ocultos, perspectivas inéditas ou curiosidades inesperadas.

A lista seria longa e revela a opulência da erudição do autor: a prova de Abraão com o sacrifício de Isaac não pode deixar de ser acompanhada também por Kierkegaard, e Moisés deve ser abordado por um exagerado e até prolífero Freud (quarenta páginas!); Pascal e Simone Weil devem necessariamente aparecer, como Zweig, Buber e até Léon Bloy, enquanto a rainha Atalia reivindicava Racine e assim por diante, em um caleidoscópio de referências. E, naturalmente, não pode faltar Kafka com tantas pinceladas, entre as quais evocamos apenas uma de suas conexões com uma comédia ídiche de Moshe Richter, onde é lançada uma ponte ousada entre o Egito da opressão judaica pelo faraó e a metrópole moderna: “Que diferença existe entre Piton e Ramsés e Brooklin e Nova York? Lá nos alimentavam com palha e tijolos, e aqui nos dão para comer máquinas e ferros de passar”.

São tantas surpresas que essa “Bíblia segundo Calasso” revela, destinada a desembocar em suas doze etapas narrativas em direção à grande tela do Messias da qual se marca a subestimação, apesar da ênfase religiosa que a acompanhou: “Ninguém sabe dizer muito mais do que o nome. Mas todo mundo sabe que existe. Quando o Messias chegar, provavelmente passará despercebido ...”. E, no entanto, a posterior fé judaica está convencida sobre um seu ato que Deus lhe confiou: "Tu que reviverás os mortos". Essa promessa também se aplica para o renascimento do templo destruído de Sião e para uma Jerusalém surgida na terra dos estrangeiros jebuseus, de modo que "não pode ser senão a sede de uma sociedade mista, onde se misturam os proprietários atuais e passados".

Para acreditar em toda essa arquitetura narrativa histórica, literária, temática e espiritual, é necessário ter a latitudo cordis de Salomão (1 Reis 3,9): Calasso ama essa versão da Vulgata do dom divino feito a esse rei sábio, um "coração tão vasto quanto a areia que está na praia do mar”. O fato é que, como Carlo Ossola escrevia em seu profundo ensaio Dopo la gloria (ed. Treccani), a Bíblia continua sendo "um marco maravilhoso e uma pedra ‘de tropeço’ no cinza sonolento do nosso tempo".

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