Órfão da religião, o mundo secularizado agora acredita só em si mesmo. Escritor denuncia os tabus de uma sociedade que vive sem Deus

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28 Setembro 2017

Chega às bancas em 28 de setembro, pela editora Adelphi, "L’innominabile attuale” (O inominável atual) do escritor e editor Roberto Calasso, proprietário e editor da Adelphi.

A reportagem é publicada por Corriere della Sera, 27-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

No curso do século XX foi se cristalizando um processo de grande alcance que atingiu tudo que fica abarcado sob o nome de "religioso". A sociedade secular, sem necessidade de avisos, tornou-se o último quadro de referência para cada significado, como se a sua forma correspondesse à fisiologia de qualquer comunidade e o significado precisasse ser procurado somente dentro da própria sociedade. Essa pode assumir as formas políticas e econômicas mais divergentes, capitalistas ou socialistas, democráticas ou ditatoriais, protecionistas ou liberais, militares ou sectárias. Todas podem ser consideradas, de qualquer forma, como meras variantes de uma única entidade: a própria sociedade. É como se a imaginação tivesse sido amputada, depois de milênios, de sua capacidade de olhar para além da sociedade à procura de algo para dar sentido ao que está acontecendo dentro da sociedade. Trata-se de um passo extremamente audacioso, que implica um formidável alívio psíquico, mas que, no entanto, é sempre de curta duração. Viver "além do bem e do mal" é algo que encontra uma invencível resistência. Produzir – ou, ao menos, favorecer – tal alívio é uma característica decisiva da democracia, embora não consiga mantê-lo.

Em relação a todos os outros regimes, a democracia não é um pensamento específico, mas um conjunto de procedimentos, que se consideram capazes de acolher em si qualquer pensamento, exceto aquele que pretende derrubar a própria democracia. E este é o seu ponto mais vulnerável, como foi demonstrado na Alemanha, em janeiro de 1933. Assim, a sociedade secular provou ser ágil e engenhosa em reabsorver dentro dela, disfarçadas, aquelas mesmas potências que tinha acabado de expulsar. A teologia acabou por se transformar em política, enquanto a própria teologia era relegada para as universidades.

Mas o processo se aplica a todos os níveis: sem o arrepio do numinoso a sociedade secular se recusa a existir, mesmo que o próprio numinoso seja palavra aceita apenas no âmbito acadêmico. Não podendo nomear, de acordo com as regras de um cânone, aquilo que adora, a sociedade parece condenada a uma superstição nova e insinuante: a superstição de si mesma, a mais difícil de perceber e de dissolver. Aconteceu, então, que os piores desastres se manifestam quando as sociedades seculares quiseram se tornar orgânicas, aspiração recorrente de todas as sociedades que desenvolvem o culto de si mesmas. Sempre com as melhores intenções. Sempre para recuperar a perdida unidade e suposta harmonia. Nisso Marx e Rousseau, mas também Hitler e Lenin, e também o produtivista Henri de Saint-Simon encontraram uma fugaz concordância. Orgânico é bom, para todos. Ninguém se atreve a dizer que a lamentada atomização da sociedade também pode ser uma forma de autodefesa contra males mais graves. Em uma sociedade atomizada, é mais fácil se mimetizar. Não se espera que a polícia secreta bata à porta às quatro da manhã.

Tudo isso aconteceu como resultado de uma longa, torturante evolução, que nunca foi interrompida - embora às vezes tenha ficado dissimulada. Se fôssemos estabelecer, com óbvio arbítrio e por puras exigências dramatúrgicas, um ponto inicial de tal processo, nenhuma imagem seria mais adequada que a de Esparta, assim como Jacob Burckhardt a mostrou, condensando o essencial em poucas palavras com a sua habitual sobriedade: "Sobre a terra a potência pode ter uma alta missão; talvez apenas sobre si mesma, sobre um território por ela protegido, possam surgir civilizações de ordem superior. Mas a potência de Esparta parece ter aparecido no mundo, quase que só para si mesma e para sua própria afirmação, e o seu pathos constante foi a escravização dos povos conquistados e a extensão do seu domínio como um fim em si mesmo".

Que estas palavras de Burckhardt tenham uma relevância particular e possam ser aplicadas não apenas a Esparta, mas à história recente e àquilo que está acontecendo hoje, pode ser testemunhado por uma curiosa circunstância editorial. No ano de 1940, a Deutsche Buch-Gemeinschaft publicou em um único volume a Griechische Kulturgeschichte de Burckhardt prefaciando-a com uma nota, assinada pela "A Casa Editora”, que advertia: "O lastro científico, as notas, as referências para as fontes, bem como algumas repetições e detalhes que interessam apenas o estudioso, foram eliminados. Desta forma, a obra ganhou uma maior legibilidade". Agora, chegando à página 50, o leitor pode perceber que um inteiro parágrafo foi excluído - e é justamente aquele que termina com as palavras recém citadas. Mas é o caso de ler também as linhas que o precedem, igualmente excluídas: “Já foi mencionado acima quão cara custasse em geral a fundação de uma cidade. Mas a fundação de Esparta, em especial, foi paga com um preço muito alto pelos povos conquistados. Deu-se a eles a escolha entre todos os tipos de escravidão, extermínio e deportação". E Burckhardt concluía que, embora tal configuração social tivesse uma sua grandeza própria, não havia como não considerá-la "sem qualquer simpatia". Para um editor alemão leal ao regime (e todos na época eram leais ao regime) não era tolerável que determinados fatos fossem nomeados com aquela inflexível precisão e "sem qualquer simpatia", como Burckhardt declarava.

Podemo-nos perguntar se a sociedade secular é uma sociedade que acredita em algo, além de si mesma. Ou se alcançou aquele alto grau de sabedoria em que se renuncia a acreditar, e nos limitamos apenas a observar, a estudar, a compreender, em uma progressão indefinida e imprevisível. Ora, esse estado, que exige sobriedade e concentração, não parece corresponder ao que acontece todo dia na imensa sociedade secular, agora espalhada em todos os continentes e constantemente fustigada por turbulências de várias origens, que lembram aquelas que aconteciam nos tempos das guerras de religião. As quais, no entanto, se fundamentavam justamente nos confrontos de crenças. Exércitos invisíveis de teologias e liturgias combatiam ao lado das armadas terrestres. Hoje, ao contrário, seria impossível perceber aqueles exércitos. Os conflitos da sociedade não têm mais como objeto algo que está fora e acima, mas sim a própria sociedade. Que é, em primeiro lugar, uma vasta superfície sobre a qual intervir, um laboratório onde forças opostas tentam arrancar umas das outras a direção dos experimentos.

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