O Papa Francisco e a sociedade moderna. Artigo de Eugenio Scalfari

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03 Agosto 2020

Conversei com Bergoglio sobre as mudanças climáticas: "A Igreja deve tratar disso e educar para o respeito pelo meio ambiente".

O relato é do jornalista italiano Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica, em artigo editorial publicado por La Repubblica, 01-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo o veterano jornalista, "O Papa e eu estamos convencidos de que não pode haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de explicar o que foi realizado. Foi o que Francisco me disse e esse é o tema que mais lhe interessa nesta fase. "Lembramos - o Papa me disse - daqueles lugares tão cheios de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia do rio Congo com os grandes aquíferos. A importância de lugares como esses para todo o planeta e para o futuro da humanidade é imensa. Na realidade, os oceanos e os rios também estão mudando. Os técnicos tratam disso, mas a política está envolvida com outros problemas. Cabe à Igreja grande parte desse trabalho. Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nessa educação".

"A Igreja opera melhor na modernidade religiosa"opina o jornalista italiano. "A modernidade laica deveria tentar igualá-la".

 

Eis o texto.

 

Jorge Mario Bergoglio, que é nosso Papa desde 13 de março de 2013 e representa um pilar não apenas da Igreja Católica, da Igreja Cristã, de todas as igrejas e religiões do mundo, descobriu nos últimos meses o problema do clima da Terra. O Sol - nossa estrela - está envelhecendo. A velhice – nos explicam os estudiosos da área - é bastante avançada. É claro que levará milênios para ver um sol sombrio e não mais brilhante como ainda é, apesar de seu envelhecimento já ter começado há algum tempo. Mas o clima já passou por mudanças significativas. Esse aspecto da situação influenciou amplamente o nosso Papa Francisco e, obviamente, não diz respeito ao meteorologista que nos convida a sair com um guarda-chuva ou com um chapéu de palha para nos protege do clima de um dia qualquer: a mudança tem um valor bem diferente, afeta o futuro de nossa estrela e os planetas que giram em torno dela, começando pela Terra, pela Lua e pelas estrelas que nos cercam e iluminam nosso céu.

Eu nunca falei sobre esses problemas com o Papa Francisco até agora. Somos realmente amigos e nos tornamos amigos desde os primeiros meses de seu pontificado. Eu escrevi no Espresso, logo que a nomeação aconteceu, que era a primeira vez de um pontificado de um Papa latino-americano. Ele respondeu com uma carta que adiava, mas previa um nosso encontro em um dos próximos meses. Aconteceu em setembro daquele mesmo ano e terminou com o começo de uma amizade que para minha sorte ainda dura: nos encontramos na última quinta-feira e passamos quase uma hora trocando notícias e avaliações sobre o que está acontecendo atualmente. A crise climática é o tema que neste momento preocupa o mundo inteiro, apesar das doenças que nos assolam e que têm alguma relação também com o clima.

Não via Sua Santidade há mais de um ano, embora tenhamos trocado numerosas cartas. Bergoglio tem oitenta e três anos, eu tenho noventa e seis e me encaminho para os noventa e sete. Mas, precisamente na quinta-feira, nos encontramos novamente em Santa Marta, no Vaticano. Não conseguimos deixar de nos abraçar física e mentalmente.

O tema era justamente o do clima, mas dito dessa maneira pareceria quase uma bobagem. Claro que não é nada disso. Ainda me lembro que o Papa Francisco, quando eleito, imediatamente teve o sentimento de sua tarefa religiosa: a sociedade europeia e mundial havia mudado profundamente, a modernidade havia invertido a cultura europeia, americana e oriental e, portanto, a Igreja também tinha que se adaptar a essas mudanças para poder continuar sua obra com eficácia. O Papa Francisco me informou sobre essa necessidade que o Concílio Vaticano II havia indicado e que ainda não havia sido atendida. O novo Pontífice deveria, portanto, tratar disso e ele me falou e de alguma forma me perguntou a respeito nesses primeiros encontros.

Decidimos juntos onde a modernidade começava para nós: o Iluminismo e tudo o que veio nos séculos seguintes. Esses foram os principais conteúdos de nossos argumentos que Sua Santidade abordou com grande interesse: papas que não tiveram essa função eu não conheço, a Igreja naturalmente se atualizou, mas quase sempre isso aconteceu como resultado da sociedade secular e mesmo antes da sociedade medieval, de Jesus Cristo em diante. Os deuses do passado eram de outro estampo, a Igreja tem dois mil anos de existência e as mudanças dentro dela ocorreram três ou quatro vezes, não mais que isso.

Aquela de Francisco é uma novidade à qual outra agora está se sobrepondo: o Sol se vai, mas a profunda modificação de nossa estrela e o céu que nos cobre é decisiva e é disso que se fala: o impacto e as mudanças climáticas repercutem sobre todos aqueles que vivem de forma pobre em todos os cantos do globo.

Nosso dever de usar com responsabilidade os bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por todas as pessoas e todos os seres vivos. Estamos convencidos de que não pode haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de explicar o que foi realizado. Foi o que Francisco me disse e esse é o tema que mais lhe interessa nesta fase. "Lembramos - o Papa me disse - daqueles lugares tão cheios de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia do rio Congo com os grandes aquíferos. A importância de lugares como esses para todo o planeta e para o futuro da humanidade é imensa. Na realidade, os oceanos e os rios também estão mudando. Os técnicos tratam disso, mas a política está envolvida com outros problemas. Cabe à Igreja grande parte desse trabalho. Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nessa educação".

Francisco escreveu um livro sobre esses problemas e o concluiu com esta frase: a Casa Comum de todos nós é saqueada, devastada, humilhada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Cuidem bem da Mãe Terra. Este é o tema e, sobre isso, mais uma vez o abracei e prometi que faria, de minha parte, o possível para ajudá-lo em seu empenho.

 


 

Conte e socialismo liberal

A política italiana trata desses problemas? Não me parece, talvez Conte se preocupe. Salvini, Meloni, Renzi, os Cinco Estrelas: alguns desses grupos são até mesmo contra o tema do sol e da terra; outros nem mesmo se importam. Até algum tempo atrás, parecia-me que Giuseppe Conte, primeiro-ministro, estava muito envolvido e isso me pareceu uma das razões para apoiá-lo. Livre e socialista: essa era a tarefa que parecia ter assumido, uma centro-esquerda que poderia oscilar entre aqueles dois valores abraçando-os ambos ou favorecendo pelo menos um sem esquecer o outro.

Nas últimas semanas, no entanto, Conte perdeu muito de sua eficácia ou pelo menos é assim que me parece. Ele usa muito pouco as personalidades importantes de nosso quadro político que poderiam apoiá-lo com considerável eficácia: Conte avança tateando; esperávamos mais e melhor. Uma personalidade que está retornando à linha de frente é a de Paolo Gentiloni, se Conte com Gentiloni, Fassino, Franceschini, Zingaretti, criasse um grupo de alianças e consensos acredito que o país se beneficiaria. A Igreja opera melhor na modernidade religiosa. A modernidade laica deveria tentar igualá-la. Conseguirá?

 

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