O patriarca maronita mostra o caminho para salvar o Líbano, mas Aoun prefere o Hezbollah

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24 Julho 2020

Tornar o Líbano um país neutro nos conflitos árabe-islâmicos, como o patriarca propõe, não é uma prioridade, informam do Palácio presidencial. O que isso significa? Para entender isso, é necessário reconstruir um pouco a história e ver se a crise que está destruindo o Líbano é uma crise econômica ou política.

O comentário é de Riccardo Cristiano, jornalista e fundador da Associação de Jornalistas Amigos do Padre Dall’Oglio, em artigo publicado por Formiche, 23-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Fratura explícita entre o presidente libanês Michel Aoun, maronita, e o patriarca maronita, Beshara Rahi. Do palácio presidencial libanês, eles afirmaram que a proposta do patriarca de fazer do Líbano um país neutro nos conflitos árabe-islâmicos não é uma prioridade. O que isso significa? Para entender corretamente, é preciso sair da metáfora, reconstruir um pouco a história e ver se a crise que está destruindo o Líbano é uma crise econômica ou política. Mas, para fazer isso, também se deve explicar quem são os protagonistas do confronto.

Quando o novo patriarca da Igreja maronita foi eleito, sua primeira visita ao exterior foi ao Vaticano, para confirmar sua lealdade ao bispo de Roma, a segunda a Paris, onde foi recebido com honras reservadas aos chefes de Estado. Esse protocolo antigo diz duas coisas: a Igreja maronita se considera um bastião do catolicismo oriental, fechou sua pouco conhecida página anterior. A segunda coisa que esse protocolo diz é que, para Paris, justamente a Igreja maronita encarna o Líbano, que o colonialismo francês queria um "estado dos cristãos" principalmente católico e fiéis ao poder mandatário.

Mapa do Líbano (Foto: Wikimedia Commons CC)

A história depois tomou outro rumo, e os cristãos e muçulmanos libaneses foram capazes de fazer do Líbano um país "neutro". Neutro no sentido de que o Líbano é um país árabe, mas não pan-árabe, neutro no embate entre Oriente e Ocidente, no qual não acredita. A neutralidade é a alma ativa e propositiva do Líbano, aquilo que João Paulo II soube definir "uma mensagem". Essa mensagem não é "afago", é um trabalho constante contra o choque de civilizações que fez do Líbano a caixa-forte árabe quando egípcios e sírios deram à luz a República Árabe Unida, na qual o Líbano não entrou, nem mesmo em sua economia planejada e estatista, mas preservou sua economia social, empreendedora e plural. Os capitais árabes acreditaram naquela escolha: a República Árabe Unida terminou de forma rápida e ruim para todos, começando com os proponentes, ao contrário do Líbano que se tornou a Suíça do Oriente Médio. Suíça porque neutro, mas as forças identitárias, contrárias à grande visão da neutralidade, o imaginaram como Suíça porque era um país cantonizado: de um lado, os cristãos pró-ocidentais, do outro, os sunitas e assim por diante.

Essa imersão nos conflitos entre potências levou à devastadora guerra civil. A direita cristã estava de fato em luta com o próprio mapa promíscuo de Beirute. O Líbano, no entanto, fortalecido por sua ideia de neutralidade ativa entre as opostas forças árabes e potências neocoloniais, soube se recuperar exatamente nesse sentido: os acordos de paz explicitaram exatamente isso, inventando um Parlamento que garantia a todos, dando assentos iguais a muçulmanos e cristãos , enquanto a empresa colonial visava a hegemonia cristã. Foi o renascimento do Líbano.

Desde então, uma força, a única que restou em armas no Líbano, o Hezbollah, liderou o controle composto que quer chamar novamente o Líbano para sua neutralidade ativa, mediana e pacificadora, fazendo do Líbano o posto avançado do design khomeinista nas costas do Mediterrâneo. A guerra síria, com a intervenção direta do Hezbollah ao lado de Assad, minou a neutralidade libanesa. Enquanto o governo reafirmava oficialmente sua neutralidade diante do conflito sírio, o Hezbollah, intervindo nele, arrastava todo o país, sendo seu braço político de fato um ator muito importante do governo libanês.

Muitos cristãos participaram naquele conflito ao lado do Hezbollah e se começou a falar de uma aliança das minorias. Isso significa que os sunitas, a maioria do Islã árabe, seriam naturalmente e ontologicamente incapazes de respeitar os outros, as minorias. A minoria do Islã, o xiismo, que é a religião do estado no Irã, aliado com as outras minorias, especialmente os cristãos, criaria a alternativa a essa "eterna ditadura".

Essa visão transforma os conflitos em conflitos religiosos, encolhe o indivíduo em sua comunidade de pertencimento e, de fato, coloca os cristãos contra os sunitas, condenando-os a serem inimigos de seus irmãos e compatriotas. A outra visão, por outro lado, torna os cristãos indivíduos que, juntos, se propõem como honestos intermediários, mediadores neutros e, portanto, credíveis, em um conflito que se quer fazer parecer religioso, mas que, ao contrário, é de poder e pode permitir que todos, resolvidas as disputas políticas, possam viver junto.

O presidente libanês, ex-general Michel Aoun, assumiu a ideia da aliança das minorias e foi imposto pelo Hezbollah como Presidente da República. Após uma paralisia de anos, sua eleição selou o fim da neutralidade libanesa, dizendo que os cristãos estavam com o Hezbollah e suas empreitadas militares. Para permitir que o aliado sírio sobreviva economicamente às devastadoras consequências do conflito, o Hezbollah envolveu o Líbano em uma série de "transações transfronteiriças" que levaram recursos, produtos e bens para a Síria e fizeram do Líbano um ponto de passagem para produções ilegais da Síria. Tudo isso, junto com a má gestão econômica do país, levou o Líbano a declarar moratória. Um exemplo dessa gestão inconsequente é a catástrofe energética: o Líbano renunciou a dons enormes para equipar-se com uma central elétrica para adquirir sua energia de navios fretados, cuja conta desde 2006 determinou um passivo de 50 bilhões de dólares. O consenso sobre essa escolha foi quase total. Quantas usinas poderiam ter sido construídas?

Mapa do Oriente Médio (Foto:Wikimedia Commons CC)

Agora, o Líbano está em moratória, mas sua moratória é principalmente política. O pequeno Líbano é um país enorme, se for a casa do pensamento livre, do empreendedorismo livre e do encontro entre o Oriente e o Ocidente. Se não for isso, torna-se uma extensão do porto sírio de Latakia, um porto sem comércios ou a plataforma para lançar campanhas militares e hegemônicas para terceiros.

O desespero econômico em que o país mergulhou, onde a lira local despencou de uma taxa de câmbio fixa com o dólar de 1500 para a atual que supera as 10 mil liras libanesas, convenceu o patriarca Beshara Rahi de que estava na hora dele apresentar o problema: casando a posição que foi dos presidentes maronitas que tornaram o Líbano secular e inter-religioso, ele propôs refazer um país neutro. Essa neutralidade propositiva o tornaria uma nova força motriz regional e mediterrânea de negociação e entendimento, um lugar de sobrevivência para o futuro árabe e de entendimento entre muçulmanos, libertando xiitas e sunitas da militarização que os ofende.

O apoio do Vaticano foi indicado pelo patriarca como um possível aval para um selo na sede da ONU. Mas tudo isso marcaria a inversão da presidência de Aoun, que fez do pequeno Líbano um aspirante a precursor da nova aliança das minorias contra o mundo sunita. É por isso que fontes no palácio presidencial libanês definiram a proposta do patriarca como uma "não prioridade". Tese difícil de argumentar. Sem uma reviravolta política, não há solução econômica para o Líbano. Mas o Hezbollah tem outro plano: aguardar novembro, confiar na derrota de Trump e esperar que o novo curso americano os aceite no novo diálogo com o Irã. Aoun também parece concordar dessa vez. Mas muitos prefeitos que nestas últimas horas estão assinando petições para tornar novamente o Líbano um país de neutralidade ativa, dizem que, embora com um atraso culposo, o patriarca deu novamente vida à sua Igreja.

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