''Não se esqueçam de quem é Assad''. Entrevista com Paolo Dall'Oglio

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02 Agosto 2013

Depois de mais de 30 anos passados na Síria, o padre jesuíta denuncia a hipocrisia do Ocidente. E lança a sua proposta de um Ramadã de conciliação.

A reportagem é de Alberto Bobbio, publicada no sítio da revista Famiglia Cristiana, 26-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele viveu 30 anos na Síria e, há um ano, foi expulso pelo regime de Bashar al-Assad. O padre Paolo Dall'Oglio, jesuíta, passou a vida buscando a reconciliação entre os muçulmanos, e não só entre eles e os cristãos. Sobre a questão síria, ele tem ideias claras, que desmascaram muitas hipocrisias ocidentais. As suas palavras geralmente provocam discussões. Como as da entrevista que ele concedeu à Famiglia Cristiana.

Eis a entrevista.

Em um momento em que muitos, a fim de evitar uma escalada do conflito, são contrários a armar os rebeldes, o senhor fala de hipocrisia. Por quê?

O regime de Bashar al-Assad possui um dos arsenais mais importantes do Oriente Médio e fez uso maciço dele contra a população síria. A resposta foi a radicalização da resistência, e não se pôde, nem se soube, evitar a participação de grupos islamitas radicais e muitas vezes clandestinos, não controláveis pela população insurgente e, não raramente, infiltrados pelos serviços secretos do regime. Diante do coerente apoio da Rússia e do Irã (incluindo o braço armado do exército do Hezbollah xiita libanês), registrou-se a paralisia da fileira ocidental e se tende a descrever o movimento revolucionário como exclusivamente islamita radical e terrorista. A hipocrisia está no fato de que poucos querem recordar que o regime de Damasco foi, nos últimos anos, um dos promotores e instrumentalizadores desse extremismo terrorista clandestino.

O senhor não teme que, ao contrário, se possa reforçar organizações jihadistas? É verdade, como muitos defendem, que eles já impõem a lei islâmica em áreas sob o seu controle?

A grande maioria dos muçulmanos sírios insurgentes pertence à área moderada do islamismo. Certamente, onde as populações são fortemente permeadas pelo islamismo salafita e onde o desejo de vingança é forte agora, registram-se casos de aplicação ao pé da letra da legislação islâmica e também, infelizmente, de crimes. Estou convencido de que o alto nível cultural da população e a profunda tradição de tolerância e boa vizinhança logo terão razão diante dos desvios extremistas, uma vez obtida a liberdade.

Esclareçamos a distinção entre o senhor e aqueles que defendem que o regime de Bashar al-Assad ainda é secular e, portanto, preferível para os cristãos.

A questão da solidariedade de muitos cristãos para com o regime em nome de uma certa associação de minorias contra as reivindicações da maioria sunita é algo bem conhecido. Mas nunca faltaram os cristãos que consideraram essa atitude como suicida a longo prazo. A ditadura secular nasce, no fundo, como desconfiança na população islâmica. Em suma, a questão não é a da forma de Estado, mas sim a de saber qual é o Estado que melhor nega o desejo de emancipação dos muçulmanos. A meu ver, essas atitudes têm pouco a ver com o Evangelho. Muitos cristãos orientais pensam como eu e não escondem isso. Alguns desapareceram nos cárceres de Assad por causa disso.

Por que os cristãos deveriam desejar ativamente um Ramadã de reconciliação entre sunitas e xiitas?

A ideia de dedicar o mês do Ramadã à harmonia entre os muçulmanos, de participar de uma forma ou de outra desse tempo forte muçulmano, nasceu em maio passado em um grupo de cristãos que, na França, junto com amigos sírios, rezaram e se interrogaram sobre como construir uma alternativa à violência em curso. Não se trata de condenar os partidários sírios armados, mas sim de participar da pacificação do mundo muçulmano que, por causa da polarização entre xiitas e sunitas, encontra-se em uma condição de guerra civil, mais ou menos de baixa intensidade. Se superássemos essa contraposição entre os muçulmanos, seria muito mais fácil obter a vitória da democracia, sem repercussões sobre os direitos civis das minorias.

Falemos dos Hezbollah libaneses. É estranho que os críticos dos fundamentalistas islâmicos nunca os citem. Eles intervieram na Síria por serem força confessional ou de redenção árabe?

No castelo ideológico e propagandístico do regime sírio, a questão da resistência ao Estado sionista é central, porque justifica o autoritarismo como necessário para combater a manipulação conspirativa do sionismo internacional e dos seus aliados. O Partido de Deus, o Hezbollah libanês de obediência iraniana é a ala religiosa xiita dessa resistência anti-israelense. Mas Israel deixou claro que a questão síria não diz respeito a ele e que ele não tem nenhum motivo para facilitar uma mudança de regime em Damasco. No Ocidente, tende-se a considerar que, no fundo, o islamismo xiita é uma força de contenção do islamismo sunita majoritário. Essa forma de pensar é simplesmente uma loucura. Deve-se contrapor a ela, aliando-nos aos sunitas e aos xiitas menos sectários, o esforço do diálogo para a construção da justiça e da reconciliação na única Umma muçulmana.

O que se pode prever depois do conflito? Uma Síria federal?

A questão da eventual divisão da Síria em uma base confessional é velha. As populações responderam a favor da Síria una e indivisível em uma base árabe nacionalista. Hoje, essa posição está em crise, seja por causa da progressiva criação de um cantão curdo no nordeste sírio, seja pela progressiva polarização alauíta no oeste e no leste da Síria costeira, separada por massacres, expulsões de populações sunitas e o recuo para a costa por parte das xiitas. Nesse quadro conflituoso, os cristãos são triturados e empurrados para o exílio ou a pegar em armas a fio de regime onde encontram-se em associação com os alauítas nos mesmos vales. No entanto, continua sendo verdade que a pacificação da Síria, mas também do Iraque e, em perspectiva, do Irã, do Paquistão, da Turquia não poderá ser obtida senão no quadro de uma redefinição democrática federal. Os democráticos árabes odeiam a palavra "federal" que é sentida como equivalente à divisão colonial do Oriente Médio em favor de Israel. Por isso, difunde-se a expressão "Síria unitária ou unificada", para dizer o desejo popular de superação das contraposições sectárias. Porém, é claro para a maioria que, mesmo com a ajuda de um tribunal internacional que lance uma verdadeira luz sobre os crimes do regime e sobre os dos grupos extremistas islâmicos, a reconciliação dos sírios se fará no âmbito de um processo constitucional consensual e pluralista, assim como no plano territorial. Isso será impossível sem um eficaz envolvimento das forças da ONU e da Liga Árabe, além de uma negociação política resolutiva entre a Rússia e os Estados Unidos, e entre o Irã e a Turquia. Para isso, é preciso esperar contra toda a esperança que Genebra 2 não fracasse.

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