A América Latina responde por metade das novas mortes globais da covid-19. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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14 Julho 2020

"Teremos mais casos e mais mortes no segundo semestre de 2020 do que no primeiro semestre, tanto no mundo quanto na ALC e no Brasil. A pandemia e o pandemônio econômico e social continuam assustando o mundo", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 13-07-2020.

Eis o artigo.

“How many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind” - Bob Dylan

A pandemia do novo coronavírus tomou conta do mundo no primeiro semestre, paralisou as atividades econômicas e prossegue avançando no segundo semestre. A 28ª Semana Epidemiológica (05 a 11 de julho) terminou com 12,8 milhões de pessoas infectadas e 567 mil mortes no mundo. No começou do ano o epicentro da covid-19 estava no leste asiático e no fim do primeiro semestre e começo do segundo semestre o epicentro está na América Latina e Caribe (ALC). Em apenas 5 dias foram acrescentados mais de 1 milhão de novos casos.

No dia 29 de fevereiro de 2020 o mundo registrou 86,6 mil casos e 3 mil mortes, sendo que a China concentrava 80 mil casos (92% do total) e 2,9 mil mortes (96% do total). Do país asiático, o coronavírus se espalhou para o mundo. Entre março e abril a Europa e os Estados Unidos (EUA) passaram a concentrar a maior parte das mortes diárias provocadas pela covid-19, mas a partir do mês de maio o destaque coube à ALC, conforme mostra a figura abaixo, do jornal Financial Times, que apresenta a média móvel de 7 dias do número diário de mortes no mundo.

A forma da figura reflete o fato de que o número médio de mortes diárias no mundo era de 393 óbitos entre 15 e 21 de março, passou para 7,5 mil mortes diárias em meados de abril, caiu para 3,8 mil no final de maio e voltou a subir para 4,7 mil na semana de 02 a 08 de julho.

Número médio de mortes diárias no mundo. (Fonte: The FT Analyses of ECDC and Covid Tracking Project)

A Europa e os EUA respondiam por apenas 6% das mortes diárias em 29 de fevereiro, mas deram um salto para cerca de 80% em meados de março e para 90% na primeira quinzena de abril. Mas ambos passaram a ter uma menor participação nos meses seguintes e na semana de 23 a 29 de junho a Europa respondia por 10% e os EUA por 12% das mortes diárias.

O grande destaque nos meses de maio e junho foi a ALC que passou a concentrar mais da metade dos óbitos diários no mês de junho. Entre os dias 02 e 08 de junho, a média diária de mortes foi de 4.700 no mundo e de 2.361 mortes na América Latina (50% do total global). O Brasil, México, Peru e Chile foram os países que tiveram o maior número de mortes diárias na América Latina. Outros países que estão apresentando números crescentes são a Índia, Paquistão e Bangladesh na Ásia, África do Sul, Egito e Nigéria na África e alguns países do Oriente Médio.

A tabela abaixo mostra que entre os 8 países com maior número de casos da covid-19, no dia 11 de julho, 4 são da ALC: Brasil, Peru, Chile e México. O Brasil está em segundo lugar no número acumulado de casos e de mortes. Peru e Chile estão em 5º e 6º lugar e o México no 8º lugar (mas muito próximo de ultrapassar a Espanha). Em número total de mortes o México está em 5º lugar, mas muito próximo de ultrapassar a Itália.

Os 8 países com maior número de casos da covid-19. (Fonte: Worldometer)

A tabela abaixo mostra o número acumulado de casos e de mortes, assim como os coeficientes de incidência e de mortalidade e a taxa de letalidade, para os “continentes”. Nota-se que a ALC possui um coeficiente de incidência de 4,97 mil casos por milhão só perdendo para os EUA e o Canadá. Em termos de coeficiente de mortalidade, a ALC com 214 mortes por milhão fica atrás dos EUA + Canadá e da Europa, mas à frente da Ásia, África e Oceania.

Populações e coeficientes de incidência e de mortalidade da Covid-19, por continentes. (Fonte: Worldometer)

No dia 09 de março escrevi, aqui no EcoDebate, o artigo “A pandemia de Coronavírus e o pandemônio na economia internacional” mostrando a gravidade da situação da emergência sanitária e da emergência econômica. Somente no dia 11 de março a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o alerta do estado de contaminação da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2), para a categoria de pandemia. Muita gente não acreditou na gravidade da situação. Mas 4 meses depois de uma quarentena que parece não ter fim, o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom, disse na semana que passou “o pior ainda está por vir”.

Ou seja, os números estão diminuindo em termos relativos, mas os números absolutos continuam aumentando. Além disto, o lado direito da curva epidemiológica é maior do que o lado esquerdo. Isto quer dizer que teremos mais casos e mais mortes no segundo semestre de 2020 do que no primeiro semestre, tanto no mundo quanto na ALC e no Brasil. A pandemia e o pandemônio econômico e social continuam assustando o mundo.

 

Referências:

ALVES, JED. A pandemia de Coronavírus e o pandemônio na economia internacional, EcoDebate, 09/03/2020.

Financial Times. Coronavirus tracked: the latest figures as countries start to reopen. The FT analyses the scale of outbreaks and the number of deaths around the world.

 

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