Para os católicos, usar máscara é expressão da verdadeira liberdade

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26 Junho 2020

"Parábolas como as do Bom Samaritano ou do Filho Pródigo, que versam sobre escolhas importantes feitas pelos protagonistas respectivos das narrativas, são imagens poderosas do que significa liberdade para Jesus. Pensado dessa forma, o simples ato de usar uma máscara em público pode ser um ato profundo de liberdade orientado no sentido do bem alheio. Com esse tipo de visão evangélica, aquilo que parece um fardo pode se transformar em oportunidade para uma bênção", escreve Mike Jordan Laskey, gerente sênior de comunicações da Conferência Jesuíta em Washington, D.C., autor do livro The Ministry of Peace and Justice (Liturgical Press, 2016), que vive com a família em Maryland, EUA, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 25-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Eis uma palavra que surge sempre quando a conversa se volta para o uso (ou não) de máscaras, ou quando se fala da reabertura de restaurantes e lojas, ou ainda da volta das celebrações religiosas: liberdade.

Em maio, o jornal USA Today contabilizou mais de 1.300 ações, estaduais e federais, movidas em resposta à pandemia, a maioria contestando as ordens de confinamento social e de fechamento dos estabelecimentos. Muitos dos que resistem às medidas restritivas, que pretendem retardar a disseminação do coronavírus, levantam objeção contra aquilo que consideram medidas exageradas do governo, que estariam causando uma redução injusta das liberdades essenciais. Essas objeções persistem mesmo quando, ainda que lentamente, o país volta a reabrir o comércio e a indústria.

Como católico comprometido com o bem comum, esses argumentos me enlouquecem. Para mim, é bem simples: ficar em casa o máximo possível, usar máscara e praticar o distanciamento social para proteger a vida daqueles que estão mais vulneráveis ao vírus. Continuemos fazendo isso até que haja uma vacina. Mas temos aqui a oportunidade de a Igreja promover uma catequese um tanto quanto necessária em torno do conceito de liberdade no contexto católico. (No YouTube, o padre franciscano Casey Cole postou um vídeo fantástico sobre esse tema.).

A seguir, apresento três pontos que têm origem no pensamento católico sobre o que a verdadeira liberdade acarreta.

Liberdade não é fazer o que queremos.

O Catecismo da Igreja Católica tem uma seção incrível sobre a liberdade humana, acredite se quiser: “Quanto mais o homem fizer o bem, mais livre se torna”, lê-se no parágrafo 1733. “Não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da justiça”.

A palavra “justiça”, no final dessa passagem, chama a minha atenção. Justiça tem a ver com relações firmes, positivas entre pessoas e comunidades. Ou, como o filósofo e teólogo Cornel West diz: “Justiça é como o amor se apresenta em público”.

As escolhas que demonstram um amor pelo outro – especialmente os mais vulneráveis – são exemplos da verdadeira liberdade. E, por outro lado, as escolhas que se originam de um desejo de fazer o que quero, quando quero, sem considerar como as minhas decisões podem afetar o outro, não são formas como a liberdade se apresenta. Como diz o parágrafo 1738 do Catecismo: “A liberdade exercita-se nas relações entre seres humanos”.

Parábolas como as do Bom Samaritano ou do Filho Pródigo, que versam sobre escolhas importantes feitas pelos protagonistas respectivos das narrativas, são imagens poderosas do que significa liberdade para Jesus. Pensado dessa forma, o simples ato de usar uma máscara em público pode ser um ato profundo de liberdade orientado no sentido do bem alheio. Com esse tipo de visão evangélica, aquilo que parece um fardo pode se transformar em oportunidade para uma bênção.

Essa definição de liberdade não combina com a compreensão americana em geral. E isso é fascinante.

A visão católica de liberdade é contracultural em uma sociedade individualista, consumista. E frequentemente parece que cedemos ao conceito dos que defendem que a liberdade é a liberdade de fazer o que queremos. Penso que devemos ter orgulho da nossa visão e proclamá-la com mais ousadia. Eis um convite fascinante: Deus nos presenteou com este belo presente de liberdade e nós temos o privilégio de usá-lo para fazer um mundo melhor. É um convite exigente, sim, mas é aquele tipo de exigência que torna a vida significativa. Sempre me alegro quando leio esta citação de David Foster Wallace a respeito da liberdade, a qual captura tão bem a visão católica do conceito (apesar de vir de um autor não católico):

“O chamado mundo real dos homens, do dinheiro do e poder cantarolam alegremente em uma poça de medo, raiva, frustração, de desejo e adoração de si mesmos. A nossa cultura atual aproveitou-se dessas forças de um modo a produzir uma riqueza, um conforto e uma liberdade pessoal extraordinários. É a liberdade de todos a sermos senhores dos nossos minúsculos reinos do tamanho de um crânio, sozinhos no centro de toda a criação. Esse tipo de liberdade tem muito a ser louvado. Mas, é claro, há vários tipos diferentes de liberdade, e daquele tipo que é o mais precioso você não ouvirá muita coisa ser dita nesse mundo de desejo e realização (…) O tipo realmente importante de liberdade envolve atenção, consciência e disciplina, e ser capaz de verdadeiramente cuidar do outro e a se sacrificar por ele, repetidas vezes, de inúmeras formas, insignificantes e pouco atrativas, todos os dias.”

Não parece fácil, mas parece algo para o qual vale a pena dedicar a minha vida.

A graça de Cristo pode nos ajudar a crescer em liberdade, especialmente em tempos difíceis.

Uma mensagem final, extraída da seção do catecismo sobre a liberdade, parece oportuna:

“(…) quanto mais dóceis formos aos impulsos da graça, tanto mais crescem a nossa liberdade interior e a nossa segurança nas provações, como também perante as pressões e constrangimentos do mundo exterior” (parágrafo 1742).

Sem dúvida, os tempos atuais são de pressões e constrangimentos. Além de nos isolar, eles são frustrantes, confusos, tristes, perigosos e extenuantes. Compreendo a tentação a largarmos tudo e buscar reaver algum senso de normalidade, jogar no lixo as máscaras e simplesmente nos sentar em um restaurante, afinal de contas. Porém somos chamados a perseverar no exercício da verdadeira liberdade, imbuídos pela graça abundante de Deus.

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