O vírus da desigualdade

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29 Abril 2020

"Mas um acontecimento como o do Covid-19, enquanto ameaça à humanidade em seu todo, pode conduzir a uma reflexão fundamental sobre aquilo que verdadeiramente importa na vida humana, sobre os verdadeiros valores que devem orientar nossas vidas. É uma oportunidade extraordinária para tomarmos consciência de nossa fragilidade fundamental, por um lado e, por outro, de nossa grandeza enquanto seres vocacionados à fraternidade, à justiça e ao amor", escreve Manfredo Araújo de Oliveira, doutor em Filosofia pela Universität München Ludwig Maximilian de Munique, Alemanha, e professor da Universidade Federal do Ceará – UFC.

Eis o artigo.

O filósofo alemão Hegel fez, em sua Filosofia do Direito (& 185), um diagnóstico surpreendente da situação da sociedade moderna. Por um lado, louva esta sociedade por ter feito da liberdade o princípio de estruturação da vida social o que levou a conquistas notáveis do direito civil; mas esta sociedade tinha outro lado: ela nos apresenta o espetáculo terrível da produção simultânea de luxo e de miséria social. Certamente, este tipo de diagnóstico exprime também adequadamente nossa situação atual e é um processo que se vem aprofundando como nos mostrou, em trabalho recente, o professor de ciências sociais (Unisinos) Carlos Eduardo Santos Pinho. Em 2015, Dilma Rousseff, quem sabe num esforço desesperado para conquistar aprovação de empresários e banqueiros, nomeou Ministro da Fazenda o economista Joaquim Levy, de orientação liberal, que implementou uma política financeira de contração e cortou gastos públicos. Isto teve consequências graves na produção industrial, na retração do investimento em infraestrutura, no corte das políticas sociais, no endividamento das famílias e no crescimento do desemprego.

Em seguida, o governo Temer acelerou o processo com um programa de austeridade que por sua vez vem sendo aprofundado pelo atual governo. Além dos problemas da Reforma da Previdência, há um esforço grande para aprovar, através de medidas provisórias, uma espécie de nova reforma trabalhista com o objetivo claro de aprofundar o que é a meta das reformas pró-mercado: desregulação, redução de direitos, terceirização nas atividades fim e meio, redução do custo da mão de obra e fim da estabilidade dos servidores públicos. (Cf. o Programa Verde e Amarelo). O número de brasileiros que esperam pelo Bolsa Família já chega a 3,5 milhões de pessoas e isto tem gerado um colapso na rede de assistência social dos pequenos e médios municípios.

O Brasil enfrenta o novo coronavírus numa situação de muita debilidade depois de 2 aos de recessão, quatro de austeridade fiscal e de crescimento insignificante. Entre 2009 e 2020 o SUS perdeu 34.540 leitos e contabilizou em 2019 perdas de 10 bilhões de reais em 2 anos como consequência da Lei do Teto de Gastos. A única questão neste sistema hegemônico no mundo é a da eficiência na acumulação de riqueza o que tem produzido o espetáculo tremendo de milhões de pessoas em condições de fome e miséria ao mesmo tempo em que o desenvolvimento tecnológico se faz cada vez mais capaz de produzir em abundância os bens necessários à vida. Na atual crise são justamente os mais pobres os mais vulneráveis e esse fato é uma oportunidade para se compreender a natureza do sistema que nos marca e suas consequências desastrosas.

Talvez seja ainda cedo para afirmar que nessa crise paradigmas foram quebrados, mas podemos experimentar certos paradoxos que abrem perspectivas de transformação dos modelos de configuração de nossas vidas. O primeiro e fundamental é o da absolutização do mercado como mecanismo básico de regulação do sistema econômico. Suas regras são consideradas como um mecanismo semelhante às leis da natureza, algo objetivo que o ser humano não tem condições de modificar. Por isto se situam fora do campo das interrogações éticas. Cria-se, assim, uma dicotomia radical entre economia e ética. Uma das consequências mais graves deste sistema é a crise ecológica.

O Covid-19 pode trazer de positivo para a sociedade? Por todas essas razões, a crise atual abre possibilidades para uma verdadeira “transição ecológica”. Por exemplo, a crise poderá ter efeitos benéficos sobre o aquecimento global e consequentemente sobre a saúde pública. Na China, as mortes associadas à poluição do ar são estimadas em um ou dois milhões de pessoas a cada ano e a poluição diminuiu em 20% a 30% durante a crise. Estas coisas nos levam a refletir seriamente sobre o mundo que construímos abrindo perspectivas de estruturação de uma economia sustentável que respeite e cuide da comunidade dos seres vivos e melhore a qualidade da vida humana.

Sairemos desta pandemia pessoas melhores? Não se pode ter certeza disto, pois, levando em consideração que somos seres livres, sabemos que não temos condições de saber de antemão como as pessoas vão orientar suas vidas no futuro, que elementos sociais, políticos, econômicos e culturais serão condicionantes das decisões humanas no futuro. Mas um acontecimento como o do Covid-19, enquanto ameaça à humanidade em seu todo, pode conduzir a uma reflexão fundamental sobre aquilo que verdadeiramente importa na vida humana, sobre os verdadeiros valores que devem orientar nossas vidas. É uma oportunidade extraordinária para tomarmos consciência de nossa fragilidade fundamental, por um lado e, por outro, de nossa grandeza enquanto seres vocacionados à fraternidade, à justiça e ao amor. É uma ocasião que nos oferece a grande chance de reconhecer a dignidade de cada ser, de sua alteridade e, de forma muito especial, da dignidade de todo ser humano o que nos deve conduzir à busca de mecanismos para efetivar o reconhecimento universal do valor intrínseco de cada ser, superando toda forma de violência e discriminação, portanto, de refletir sobre a forma de configurar nossas vidas em nível individual e coletivo.

Tudo isso é certamente é uma boa oportunidade para nos lembrarmos de que, antes do Covid-19, a humanidade já estava ameaçada em sua sobrevivência. O Covid-19 visualizou o que muitos não conseguem enxergar ou até tentam negar. Já se sabia que a universalização dos padrões de crescimento e de consumo do mundo rico conduziria a um apocalipse social e ecológico. A imposição pura e simples do ser humano sobre a natureza, em sua fúria de apropriação, conduz, em última instância, à destruição de toda vida no planeta. Somos convidados a pensar num mundo que seja capaz de superar todo tipo de humilhação do ser humano tanto da fome e da miséria quanto do que hoje se chama de “questões da identidade”, ou seja, por exemplo, o fato de ser negro, índio, mulher, drogado, homossexual etc. Por trás destas questões, há posturas que negam a dignidade inviolável do ser humano.

Experimentamos na crise o espetáculo terrível de um retorno explícito a um nacionalismo extremado de defesa única dos próprios interesses nacionais a tal ponto de se querer, com dinheiro, garantir para o próprio país, com exclusão dos outros, os meios necessários para o cuidado dos doentes. Perde-se com isto uma oportunidade importante para se dar conta de que um mundo globalizado (e a crise também é globalizada) exige que as grandes questões que dizem respeito a todos sejam pensadas em perspectiva global.

Há, contudo, alguns testemunhos que vão na direção oposta a este nacionalismo exacerbado. Primeiro uma carta assinada por 165 personalidades globais que pedem uma ação imediata e conjunta ao G20 e um apoio bilionário aos países mais frágeis. Afirma-se nesta carta que todos os sistemas de saúde, mesmo os mais sofisticados e bem financiados, estão fraquejando sob a pressão do vírus. Depois, o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, apontou em sua mensagem de páscoa à nação, o que para ele é a questão central da crise: A crise não é uma guerra, é antes um teste de nossa natureza humana. Aqui a solidariedade se revela não simplesmente como um convite, mas como uma obrigação, tese retomada pelo Papa Francisco em sua mensagem pascal ao mundo.

A crise constitui, portanto, uma grande oportunidade de sairmos dela mais humanos uma vez que nos leva a refletir seriamente sobre o mundo que construímos abrindo perspectivas de estruturação de uma economia sustentável que respeite e cuide dos seres vivos e melhore a qualidade da vida humana. Certamente nosso mundo será melhor se combatermos não só o coronavírus, mas o vírus da desigualdade que continua a fazer milhões de vítimas.

 

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