A irrupção comunitária. Artigo de José de Souza Martins

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14 Abril 2020

"O vírus não reconhece a legitimidade das classificações, barreiras sociais e hierarquias fundadas em doutrinas econômicas como as da escola de Chicago. As que formam a mente dominante num mundo só para os prósperos; não para o próximo. A mentalidade por trás dessa interpretação antissocial de economia tem como referência uma concepção coisificadora da condição humana", escreve José de Souza Martins, sociólogo, pesquisador Emérito do CNPq e da Faculdade de Filosofia da USP, membro da Academia Paulista de Letras e autor de Moleque de Fábrica (Ateliê Editorial).

O artigo foi enviado pelo autor.

 

Eis o artigo.

Mais rápidas do que outras iniciativas, para contornar socialmente a disseminação e os danos da Covid-19, tem sido as iniciativas comunitárias. Comunidade é um dos conceitos científicos banalizados nos últimos anos, no Brasil. Mas, o fato de que muitos grupos vicinais e empresas estejam dando às suas ações humanitárias o nome de ações de comunidade não deve ser menosprezado.

Comunidade e sociedade são dois tipos de organização e de conduta sociais. Em meados dos anos 1950, sobretudo por influência americana, houve uma tendência no sentido de depreciar o modo comunitário de vida e valorizar o modo societário, o decorrente da urbanização, da individualização da conduta e da secularização das concepções sociais. A comunitária seria um tipo atrasado de sociabilidade.

Os estudos de comunidade, que os antropólogos americanos realizaram e difundiram na América Latina, não obstante a subjacente depreciação ideológica do comunitário, possibilitaram descobertas importantes sobre a realidade social.

Ricas e significativas concepções comunitárias sobre a reciprocidade, a ajuda mútua, o parentesco, os critérios de distância social, o saudável e o doentio, a medicina popular, a religião e a morte e até o dinheiro, foram identificadas e descritas cientificamente. Caso da concepção moral do “bem limitado”, a de que tudo existe em quantidade finita, o que pede parcimônia no uso e gasto. Daí técnicas de economia popular, de honra, de pudor, de herança, e cuidado com o ambiente e a natureza. Um mundo silencioso e incongruente com as fantasias da sociedade que se diz capitalista, mas que, para os pobres é apenas dinheirista

Os valores comunitários, identificados equivocadamente como elementos da cultura rural, migraram para as cidades e em seus subterrâneos se revigoraram. As eficazes reações comunitárias à pandemia atual, na invenção de redes de ajuda mútua e de apoio, são heranças de um enorme patrimônio cultural e moral, que daí procede. Resistem à destrutiva ignorância do senso comum pós-moderno e consumista.

Aqui tudo tende a ser reduzido ao anticomunitário ter ou não ter. Disseminou-se o rótulo de exclusão social para indicar que só estão incluídos e são “normais” os integrados na sociedade de consumo, da compra e da venda. Tudo tem preço, até a alma e a salvação. Há religiões especializadas nisso.

O governo, nascido dessa mentalidade, nem sabe onde estão e quem são os que carecem de socorro. Os que agora se tornaram objeto de interesse do Estado só porque, pobres e esquecidos, são uma aterradora ameaça ao futuro do capitalismo consumista e à sobrevivência dos que o representam e dele se beneficiam. O vírus subversivo tornou-os democraticamente iguais aos mais ricos do país.

O vírus não reconhece a legitimidade das classificações, barreiras sociais e hierarquias fundadas em doutrinas econômicas como as da escola de Chicago. As que formam a mente dominante num mundo só para os prósperos; não para o próximo.

A mentalidade por trás dessa interpretação antissocial de economia tem como referência uma concepção coisificadora da condição humana. Não reconhece as tradições que fazem do homem um ser propriamente humano. Nem a contradição que move o capitalismo para cima e para o abismo ao mesmo tempo. A Bolsa diz que tudo vai bem e, de repente, o vírus sem remédio diz que tudo vai mal. Não há economista que cure isso.

Joaquim Falcão, em artigo recente, foi incisivo em mostrar que o governo de Jair Bolsonaro, no que respeita à pandemia, não tem a mínima ideia do que é a população que perturba suas certezas descoladas da realidade e do bom senso. O autor chamou a atenção para o caráter comunitário das reações que suprem as melancólicas relutâncias do governo.

Um sociólogo alemão do século XIX, Ferdinand Tönnies, autor de um livro que tem justamente o título de Comunidade e Sociedade, muito antes de uma corrente da sociologia, equivocadamente, polarizar os conceitos e os empobrecer, já havia sublinhado que a comunidade é o substrato persistente da sociabilidade humana e que o societário lhe é sobreposição inautêntica e frágil. São as estruturas sociais profundas da comunidade que servem como referência regeneradora e até inovadora de sociabilidade onde a anomia e as rupturas comprometem as ações autoprotetivas da sociedade. Como agora, no caso da pandemia.

Sectário e desinformado, o governo limitou os recursos de bolsas de estudo e pesquisa para as Ciências Sociais. Justamente as que podem realizar investigações científicas sobre as situações em que a sociedade espontaneamente e eficazmente cria, em regime de urgência, a estratégia social de compreensão da doença e de seu tratamento na perspectiva revolucionária da comunidade.

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