Camus, comunidade e coronavírus: O que aprendemos na autoquarentena

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25 Março 2020

"Como Camus nos lembra, uma peste apresenta uma crise existencial para cada um de nós. Mas também apresenta uma oportunidade para aprender de novo, ou pela primeira vez, que nossos destinos estão inextricavelmente entrelaçados e que é precisamente essa realidade que nos chama a existir, que nos chama para fora das trevas e para a luz", escreve Matt Malone, S.J., diretor da revista jesuíta America, em artigo publicado por America, 18-03-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

Eu escrevo essa coluna desde a minha cama em Nova Iorque, no sétimo dia da minha autoquarentena. No último mês eu tive a honra de liderar a peregrinação da America Media à Terra Santa junto com o padre James Martin.

Foram 10 dias de plena graça, nos quais incluíram-se passagens pela Galileia, Nazaré, Jerusalém e Belém. A última excursão, o lugar da natividade de nosso Senhor, é a razão para o meu isolamento. As autoridades palestinas colocaram Belém sob lockdown no dia posterior à nossa visita. Longe de ser uma abundância de precaução – para usar o agora ubíquo clichê –, os quatro membros da America que fizeram a peregrinação estão agora em autoquarentena.

Essa é uma coisa estranha: eu me retirei da comunidade pelo bem da comunidade. Isso parece contra-intuitivo, se não absurdo, ao menos no sentido filosófico. Então eu decidi nessa semana consultar o mestre do absurdo, Albert Camus, e sua novela de 1947, A Peste, na qual descreve um surto de pestilência mortal na Argélia francesa.

Camus mostra como as diversas pessoas da cidade reagem em meio ao crescimento da ameaça, descrevendo suas trajetórias de vaga indiferença à crise existencial enquanto a peste clama mais e mais de seus vizinhos.

Padre Paneloux, o jesuíta na novela, não se sai bem, ao menos não no início. O padre é muito bem respeitado, mas as questões de vida e morte progridem do conceitual para a realidade terrificante, sua filosofia reflexiva e seus chavões piedosos ajudam cada vez menos.

Paneloux é um homem do ensino, um acadêmico”, diz o personagem com pensamento mais científico, doutor Rieux. “Mas todo padre do país que visita seus paroquianos e escuta um homem tossindo em seu leito de morte faz como eu. Ele tenta relevar o sofrimento humano antes de apontar sua bondade”.

Esse é um ponto justo. Eu escutei variações disso antes, frequentemente em conexão com padres e jesuítas, em particular. Às vezes, desfrutamos do luxo de estarmos afastados – pairando acima do real como formas platônicas não instanciadas.

Por outro lado, padres e religiosos são frequentemente aqueles que mais profundamente estão entrincheirados na realidade. Os incontáveis homens e mulheres que formam os braços estendidos e as mãos amigas da Igreja não precisam ser lembrados de que ninguém é poupado das devastações da vida. Piquem-nos e sangraremos. Até o padre Paneloux descobre isso no final.

Como Camus nos lembra, uma peste apresenta uma crise existencial para cada um de nós. Mas também apresenta uma oportunidade para aprender de novo, ou pela primeira vez, que nossos destinos estão inextricavelmente entrelaçados e que é precisamente essa realidade que nos chama a existir, que nos chama para fora das trevas e para a luz.

Uma peste apresenta uma crise existencial para cada um de nós. Mas também apresenta uma oportunidade de aprender de novo, que nossos destinos estão inextricavelmente entrelaçados e é precisamente essa realidade que nos chama a existir.

“O que é verdade para todos os males do mundo também é verdade para a peste”, escreveu Camus. “Ela ajuda os homens a se elevarem acima de si mesmos”.

A propósito, devo dizer que estou bem, assim como meus colegas. Até o momento em que este artigo foi escrito, ninguém que nos acompanhou na peregrinação à Terra Santa desenvolveu sintomas. Deo Gratias.

A seguinte mensagem foi enviada a nossos leitores das plataformas digitais da America Media, em 12 de março de 2020. Nós a reproduzimos aqui, para lhes informar:

“Devido à emergência de saúde pública, a sede da America Media em Nova Iorque fechará às 17h, sexta-feira, 13 de março, e permanecerá fechada no futuro próximo. Todos os funcionários da America Media trabalharão em casa.

Não haverá interrupção na produção e distribuição da edição impressa da América. Os leitores e assinantes devem esperar receber suas edições impressas de acordo com a programação usual. A cobertura digital também não será afetada.

Quatro anos atrás, America Media mudou todo o fluxo de trabalho para o digital e produção de processo. Isso permite ao editor e a todo staff prepararem a revista e enviá-la à gráfica remotamente.

Como continuamos nosso trabalho, também rezamos pela saúde e bem-estar de todos os nossos cidadãos e pessoal ao redor do mundo que foram afetadas por essa crise.

Por 111 anos – passando por duas Guerras Mundiais, a Grande Depressão e o 11 de setembroAmerica Magazine tem sido testemunha da nossa vida nacional. Nossa experiência nos ensinou isto: nós podemos contar com a bondade essencial, a caridade e a coragem do povo estadunidense para enfrentar esse momento perigoso.

Acima de tudo, nós temos fé naquele que nos guia em nossa peregrinação na Terra; naquele que São Paulo falou em sua Carta aos Filipenses: 'Tudo posso naquele que me fortalece'".

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