Nós e o vírus. Entrevista com Franco Ferrarotti

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08 Abril 2020

"Festejar escrevendo, que é a melhor maneira de reviver e lutar contra a morte". Franco Ferrarotti, pai da sociologia moderna na Itália, completou 94 anos em 7 de abril, de uma vida que o viu ir a todo lugar e fazer quase tudo: crescer na pobreza, estudar com Nicola Abbagnano, brigar com Benedetto Croce, traduzir para a Einaudi, fundar revistas e coleções editoriais, viajar pelo mundo em nome de Adriano Olivetti, ensinar nos Estados Unidos, ser eleito para o Parlamento e receber o título de cavaleiro da Grande Cruz, a mais alta honraria republicana. Uma vida que a editora Marietti 1820 reuniu em seis volumes e 5 mil páginas.

A entrevista com Franco Ferrarotti é de Giuseppe Salvaggiulo, publicada por La Stampa, 07-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Como está passando a quarentena?

Entre os meus 30 mil livros, com poucas concessões à comunicação eletrônica.

Não lhe agrada?

É muito rápida, autorreferencial e não reflexiva.

Especialmente nestes últimos dias, nos faz sentir menos sozinhos, não é?

Hoje duas lógicas competem pela lealdade dos seres humanos: a da leitura e a do audiovisual. Silêncio e concentração contra síntese e gratificação emocional.

Quem está ganhando?

O audiovisual, que estimula o hemisfério materno do cérebro com imagens pré-cozidas.

Mas as redes sociais introduziram a autoprodução do audiovisual.

Espontaneidade não significa autenticidade. O acesso desemboca no excesso. Somos inundados de imagens, mas o que resta da fotografia se a diversão fagocita o documento?

Você tinha 14 anos em 1940. O que pensa das comparações bélicas que se escutam hoje?

Eu estava em plena adolescência, mas a adolescência ainda não havia sido inventada. Uma analogia é o senso da penúria. Que é privação, mas facilita a concentração no essencial.

O que você diria para um adolescente de 2020?

Para apreciar o quanto o mundo da abundância cria de sugestões e necessidades induzidas. Os jovens estão desconcentrados. Eles em dificuldades para perceber a vocação. Assim, se dissemina ansiedade desmotivada e desconforto indefinível.

Bilhões de pessoas trancadas disciplinadamente em casa: o que isso significa?

Que a ordem social é muito mais fácil do que os revolucionários pensavam.

O que é o surto do vírus em nossas sociedades?

Um golpe no delírio da onipotência técnica. A técnica é importante, mas é perfeição desprovida de objetivo.

A quarentena nos dá um objetivo?

Embora seja um sociólogo, sei que os indivíduos não são um puro epifenômeno. Eles têm uma dose de imprevisibilidade, que investigam filosofia, literatura, religiões. E uma incrível capacidade de resistência. Eu digo isso tendo passado pela guerra.

É uma crise de civilização?

Não tenho uma visão catastrófica. As crises são sangrentas, mas a emergência literalmente traz à tona os verdadeiros problemas. Somos como o viajante de Marco Aurélio que esqueceu o objetivo da viagem.

Como seremos depois?

Os sobreviventes, embora atingidos pela felicidade que se envergonha na presença de quem derrama lágrimas, serão não apenas sobreviventes, mas testemunhas.

Qual será a palavra-chave?

Aprender a conviver com o vírus, enquanto permanecer um hóspede misterioso e incômodo. Arriscar morrer de vírus ou morrer de fome? Não, recuso o dilema.

Uma sociedade urbanizada acostumada a multidões suportará o distanciamento social?

Eu falaria de uma nova socialidade que deriva da socialização a uma relativa distância. Os povos do Mediterrâneo têm o contato físico como estilo de vida. Nós inventamos isso. Teremos que nos olhar nos olhos sem nos tocar, nos abraçar de longe. E talvez escrever textos que não pareçam memorandos empresariais.

A ciência está substituindo a política?

Cuidado com essa dispensa de responsabilidade. A própria ciência não quer ter uma responsabilidade política. Os técnicos não podem substituir a política, que não pode se esconder atrás das avaliações dos técnicos.

O que você diria aos cientistas onipresentes na TV?

Benedetto Croce dizia que a sociologia é uma ciência enferma. Mas toda ciência deve sê-lo, para não se tornar dogma. Também a ciência médica não é um dogma.

Quais são as virtudes políticas em uma crise?

Bom senso e prudência, não prevaricação e propaganda. Fácil de dizer: fique em casa. A vida em casa, para quem a tem, pode se tornar um inferno se você tiver que fazer reserva para ir ao banheiro.

Como está sua amada sociologia?

Em crise, porque esqueceu sua base filosófica original. É uma pré-sociologia. Os bons sociólogos, na melhor das hipóteses, são jornalistas investigativos. Com todo o respeito.

Por que você se apaixonou pela sociologia?

Abbagnano com doçura fraterna me dizia: a sociologia nunca existirá. Gostei dela porque é híbrida, mestiça, desde o nome meio grego meio latino. Capaz de levar o senso comum ao nível científico.

O que significa completar 94 anos?

A longevidade não é um dom de Deus, como a Bíblia diz, mas é terrível porque os amigos já não estão mais aqui.

De quem mais sente falta, entre os tantos?

Cesare Pavese, para compartilhar uma caminhada silenciosa.

Que viagem do passado você gostaria de fazer novamente?

Já dei quatro vezes a volta ao mundo, demorando-me principalmente nos cantos mais escuros e desconhecidos. Mas o lugar onde eu gostaria de voltar é o Golfo do México. Abrir a janela em pleno inverno e sentir um sopro de gélido vento marinho no meu rosto.

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