Albert Camus e Simone Weil

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14 Março 2020

Simone Weil e Albert Camus se depararam com duas tarefas inexcusáveis em todo ser humano consciente de sua tarefa moral: a de lutar contra a força, a miséria e a desgraça, e a de exercer uma minuciosa atividade crítica e de denúncia da injustiça e irracionalidade, apelando sem trégua ao necessário exercício do pensar”, escreve Carmen Herrando, doutora em Filosofia, professora da Universidade San Jorge, Zaragoza, Espanha, em artigo publicado por Heraldo, 09-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Há sessenta anos, Albert Camus morria em um acidente de carro. Muito se especulou sobre a sua morte, na companhia de Michel Gallimard e sua esposa, em 4 de janeiro de 1960, perto de Villeblevin, na Borgonha francesa. Camus, cuja avó era menorquina, havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura três anos antes, em 1957, “por sua importante produção literária, que com uma seriedade clarividente ilumina os problemas da consciência humana em nossa época”.

Contudo, antes de ir à Suécia para receber o prêmio, passou uma tarde na casa dos pais de Simone Weil, para quem rogou que o permitissem passar um tempo no quarto da filósofa, como alguém que vai a uma capela para meditar e encomendar um momento vital importante. Foi um grande admirador de Simone Weil e publicou várias de suas obras na coleção Espoir, da editora Gallimard.

Em 1948, pouco depois do surgimento de seu romance A Peste, ficou impressionado com o Prelúdio para uma declaração dos deveres com o ser humano, que ele mesmo publicaria, em 1949, com o título LEnracinement (Lançar raízes ou Raízes do existir). Era o livro que a pensadora deixou inacabado, em 1943, ao morrer prematuramente, em Londres, aos 34 anos. Camus descreveu o texto como um “tratado de civilização” porque encontrou nele um pensamento voltado a resgatar a civilização europeia de seu desabamento.

Embora muito diferentes nos aspectos apreciados de fora, Simone Weil e Albert Camus se unem pelas questões que animam a vida a partir de seu âmago mais profundo. Suas existências se caracterizaram pela intensidade da tensão que preside qualquer vida humana sabedora de seu arcabouço moral.

Simone Weil se entregava com afinco a qualquer causa em que estivessem envolvidos seres em desgraça, e Camus era um homem consciente da importância de resolver os problemas humanos a partir da responsabilidade de quem não conta com outra ajuda a não ser dos laços de solidariedade entre as pessoas.

Não obstante, em ambos existe uma polaridade cujo pano de fundo é o desejo do absoluto, e ambos foram movidos por preocupações semelhantes. Se Weil oscilava entre a gravidade e a graça, a desventura e a alegria interior, a necessidade e o bem, Camus se moveu entre a rebeldia e o absurdo, entre a aridez da condição humana e sua emancipação por meio da justiça e a verdade, e por uma grande responsabilidade diante das exigências de seus semelhantes, como se vê nas obras como Os Justos ou na adaptação teatral que ele fez de Os Demônios, de Dostoievski.

Sua obra se torna um modelo de ética sem o amparo do sobrenatural, que, apesar de tudo, abriga uma esperança de fundo nesta vertente da condição humana com a qual parecia não contar. Mas, ele a aspirava, como pode ser notado em sua admiração por Simone Weil ou no fato de que, entre sua bagagem, naquele carro onde morreria no ato, havia um exemplar de O homem e o divino, de María Zambrano; ou como deixam entrever as páginas de seus Carnets, escritos entre maio de 1935 e alguns dias antes de sua morte.

De qualquer forma, Simone Weil e Albert Camus se depararam com duas tarefas inexcusáveis em todo ser humano consciente de sua tarefa moral: a de lutar contra a força, a miséria e a desgraça, e a de exercer uma minuciosa atividade crítica e de denúncia da injustiça e irracionalidade, apelando sem trégua ao necessário exercício do pensar.

Os dois combateram o desenraizamento para se encarregar daquelas que Weil denominava “necessidades da alma”, e que Camus tornou tão suas, compreendendo o impulso espiritual que a Europa tanto necessitava e que hoje, com o século XXI já avançado, não deixamos de precisar para evitar novas formas de tirania mais sutis, mas não menos graves.

Provavelmente, ambos veriam em nosso mundo de hoje submissões que nos intimidam e submetem demais; e as denunciariam com uma contundência da qual nos sentimos incapazes porque questões ideológicas de pouco fundamento e chamativo raquitismo nos paralisam. Mas não podemos contar com eles para denunciá-las. Nós é que devemos agir.

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