Novo humanismo: as religiosas como um recurso para uma revolução cultural. Artigo de Grazia Loparco

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08 Mai 2015

A institucionalização do processo de desumanização ligado ao progresso marcadamente masculino, como uma erosão do humano, poderia ser reequilibrada com a busca de vias de civilização verdadeiramente humanas. Tratar-se-ia de uma revolução cultural, não de uma revolução de mulheres, para fazer emergir o humano na sua totalidade. É ir novamente ao encontro da concepção cristã original da mulher, que os homens conseguiram sufocar longamente e que, ao contrário, pode renovar a sociedade e a Igreja.

A opinião é da historiadora italiana Grazia Loparco, irmã das Filhas de Maria Auxiliadora e professora da Pontifícia Faculdade de Ciências da Educação Auxilium. O artigo foi publicado no jornal L'Osservatore Romano, 07-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A propósito das religiosas, a leitura de algumas páginas um pouco amareladas podem reservar algumas surpresas. Inspiramo-nos no jesuíta Marcello de Carvalho Azevedo. Ele examinou os motivos pelos quais as mulheres na Igreja se reconheceram, por princípio, iguais aos homens, segundo o Evangelho, mas o contato do cristianismo com as culturas as fez perder a liberdade e a flexibilidade, ancorado-se em atitudes antifeministas.

O jesuíta lamentava a desproporção entre o potencial do contingente numérico das religiosas em relação aos religiosos e a realidade da sua contribuição eclesial. A lista das causas faz refletir: opção vocacional pouco clara; neutralização de valores e qualidades naturais das religiosas, por circunstâncias estruturais da vida religiosa feminina, com o efeito de truncar o desenvolvimento pessoal; pouca educação cultural de muitas; falta de um programa de formação profissional e de preparação para exercer funções de modo adequado, com consequências negativas para as pessoas e para a missão; falta de preocupação para dar um fundamento sólido para a vida religiosa, sem se limitar a aspectos espirituais, morais, consuetudinários; visão individualista da perfeição e da salvação que leva a atitudes pietistas ou quietistas, ou, ao contrário, a conflitos e dicotomias; acentuada falta de informação sobre o mundo, sobre as suas transformações e problemas que incidem sobre a vida religiosa, até acreditando viver à parte.

Alguns indícios revelam como constante a masculinização da vida religiosa feminina: fundamentos em que prevalece a influência masculina, pela qual a concepção da vida religiosa é muito condicionada; codificação e elaboração legislativas como simples transposições de um modelo masculino, sem integrações e destaques femininos; orientações espirituais, retiros, cursos e estudos com forte preponderância masculina, acolhida acriticamente; forte influência sobre as decisões e a administração dos bens, especialmente nas congregações de dois ramos, com a reprodução de critérios, investimentos, modos de proceder; aspectos da vida cotidiana, do corte assexuado do hábito aos costumes comunitários em que se sacrificam valores femininos em nome de asceses concebidas de modo masculino; dócil submissão aos ditames de qualquer proveniência (diretor espiritual, superior, bispo), não tanto pelo valor das motivações, mas pelo próprio fato de ser um homem (a mesma coisa dita por uma mulher tem menos valor). O erro está no assujeitamento das religiosas, não, obviamente, na colaboração.

O costume que institucionaliza a subordinação e a passividade das religiosas se traduz em alguns indicadores: aceitação acrítica da hegemonia masculina; sutil desprezo pelas mulheres e pelas religiosas, em particular, encarregando para a sua formação pessoas de menor valor, estimando que, para elas, tudo vai bem; atitude paternalista ou pseudoafetuosa traduzida em atenções, diminutivos, frases prontas ou, ao contrário, exigências e poses duras e autoritárias, formas refinadas de humilhação; convicção do permanente infantilismo das religiosas, incapazes de decidir, administrar, desempenhar uma tarefa relevante; falta de reconhecimento do seu modo de ver os problemas, origem da ausência de participação das mulheres nas esferas de decisão eclesiásticas para todo o povo de Deus e, mais ainda, no plano concreto da vida religiosa; ou na admissão da sua presença apenas em ocupações práticas e de natureza doméstica; fruição dos serviços das religiosas, também para a obra pastoral, como mão de obra gratuita ou barata, sem garantias para a velhice e sem que esse problema sequer seja mencionado; concepção persistente de uma clausura que dá aos conventos a triste imagem de concretização da marginalização das mulheres por parte da Igreja.

O relator também indica sinais promissores de mudança: evolução da mentalidade social em relação às mulheres; conscientização gradual também das religiosas; desenvolvimento cultural e profissional de muitas delas; evolução teórica na Igreja, especialmente depois do Concílio Vaticano II; evolução prática e inevitável da Igreja diante da crescente carência de agentes, razão pela qual as mulheres e especialmente as religiosas são encarregadas como substitutas.

A passagem do desprezo secular à valorização conjuntural nem sempre é impulsionada pela concepção evangélica de igualdade; ao contrário, é um remanejamento atualizado da hegemonia masculina.

Ela se manifesta quando se obrigam as irmãs à suplência na paróquia (catequese, práticas burocráticas, cuidado e assim por diante); nas manipulações de grupos de trabalho, em que os homens pensam, e as mulheres tiram as consequências práticas, arriscando mais; na disputa da prioridade entre a inserção na Igreja local e a disponibilidade das religiosas para toda a Igreja (nas congregações internacionais); no estilo laudatório da natureza particular das mulheres, pela qual elas teriam continuado a aceitar que os homens se encarregassem de levar adiante os negócios sozinhos.

O padre Carvalho espera que, também em nível canônico, deixe-se espaço para a expressão carismática de cada instituto, evitando a homogeneização; pensar os institutos religiosos como órgãos especializados em diversos campos é diminuí-los ao agir, enquanto o ser é a sua maior contribuição para a Igreja. Enfatizar o processo legislativo faz com que se perca a inspiração original.

Além das dioceses, interessadas na ação, a Congregação para os Religiosos também pode condicionar a vida daquelas que se limitam a executar as suas disposições. Dado que, por sua natureza, a Congregação lida com aspectos funcionais, jurídicos, legais e operacionais, essas prioridades diminuiriam a tarefa própria de cada instituto de buscar e definir o próprio carisma.

A renovação das religiosas está ligada à sua evolução como mulheres na Igreja e no mundo. Surge daí o repensamento sobre a vida comunitária: que pessoas adultas não sejam tratadas como menores; atenção à centralização da autoridade e, por outro lado, a uma democratização disfuncional da obediência. Em diversas congregações, operam-se mudanças radicais em coisas superficiais, enquanto, para os princípios, se continua com aqueles válidos para outros tempos e culturas; daí, patologias anacrônicas.

Sobre as vocações, o jesuíta observa que, especialmente nos ambientes urbanos, as jovens assumem autonomia e uma certa independência econômica da família; a universidade as habilita à análise da realidade, tornando-as exigentes e críticas, abertas e desinibidas diante de colegas e autoridades. Esse tipo de jovens dificilmente se encontraria bem em ambientes onde se pretende perpetuar a figura superada da mulher. Às vezes, os institutos favorecem a imigração religiosa de jovens de outros contextos culturais, para sustentar obras que deveriam ser fechadas. É o primado da obra sobre a pessoa. Em países em desenvolvimento, pode verificar-se uma busca de vocações em ambientes simples, recrutando moças dóceis e inexperientes com o pretexto da promoção. Em alguns casos, ao contrário, recusam-se as jovens, para permanecerem tranquilas, dirigindo-se ao declínio por uma espécie de contracepção vocacional.

Uma perspectiva propositiva brota do aprofundamento ontológico-teológico sobre o masculino-feminino. Para implementar a igualdade e a libertação da mulher da subordinação, é indispensável uma concomitante libertação do homem da sua pretensão de dominação e hegemonia. O empenho comum requer colaboração, sem ceder a reivindicações que denotam a fragilidade de certos feminismos.

A vida religiosa feminina precisa se conscientizar da dignidade feminina para projetá-la para perspectivas novas na missão e em auxílio de outras mulheres. Não se trata de masculinizar as mulheres, mas de colaborar. Ao contrário da apriorística dicotomia entre tarefas confiadas a homens e a mulheres, as responsabilidades deveriam ser abordadas de acordo com a própria índole.

A institucionalização do processo de desumanização ligado ao progresso marcadamente masculino, como uma erosão do humano, poderia ser reequilibrada com a busca de vias de civilização verdadeiramente humanas. Tratar-se-ia de uma revolução cultural, não de uma revolução de mulheres, para fazer emergir o humano na sua totalidade. É ir novamente ao encontro da concepção cristã original da mulher, que os homens conseguiram sufocar longamente e que, ao contrário, pode renovar a sociedade e a Igreja.

Essas reflexões, oferecidas à assembleia de cerca de 500 superiores gerais (UISG), em 1975, felizmente são datadas em muitos aspectos, mas, em outros, não, especialmente quando se pensa na internacionalização das congregações nas últimas décadas.

Aquilo que é evidente em alguns contextos, infelizmente, ainda é atual em outros, especialmente naqueles onde são mais numerosas as vocações e menos enraizadas as ideias de igualdade entre homens e mulheres. Depois de 40 anos, ainda há algo para se pensar.

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