O pensamento gramsciano diante da mudança social contemporânea

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27 Fevereiro 2020

“Pensar a mudança social passa pela compreensão do valor central do considerado até agora como marginal: o “proletariado sem consciência” que vive nas periferias urbanas dos países europeus. Nessa plebe precária da periferia está a nova questão meridional”, escreve Eddy Sánchez Iglesias, da Universidade Complutense de Madrid, em artigo publicado por Ctxt, 23-02-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O legado de Antonio Gramsci tem sido reivindicado, a partir de posições políticas heterogêneas, por diversos movimentos de mudança social nas últimas quatro décadas. Nesse contexto, qual seria o núcleo básico que o pensamento desse autor oferece para o debate da mudança na sociedade contemporânea?

Diante da desdobrada afirmação de raiz althusseriana de Gramsci como “teórico da superestrutura”, a questão anterior poderia ser respondida de maneira mais adequada a partir da concepção de Gramsci como “teórico da conjuntura”.

Ao dar importância à análise da conjuntura, entende-se como, apesar de sua dispersa obra e heterogênea recepção, Gramsci oferece uma posição teórica muito coerente, marcada pelo clima social e intelectual do marxismo posterior à Revolução Russa, em que a interpretação da consciência revolucionária ocupa um lugar central.

Essa reivindicação da consciência revolucionária é própria da geração de comunistas que rompem, como Gramsci, com o determinismo predominante no movimento socialista posterior à derrota da Comuna de Paris de 1871. Isso os fazem confrontar com a atitude determinista, inspirada em na visão “etapista” do marxismo da II Internacional, que propunha, como prioridade, alcançar a revolução democrática burguesa como uma etapa anterior ao socialismo, que era visto como resultado natural de uma evolução linear da sociedade europeia.

Assim, frente à fórmula de Berstein de que “o movimento é tudo, o objetivo é nada”, Gramsci, como Lenin e Rosa Luxemburgo, defende a recuperação daquela dimensão do socialismo que havia sido abandonada pela antiga social-democracia: a dimensão emancipadora da subjetividade.

Dessa forma, a análise teórica para Antonio Gramsci é posta a serviço da ação política concreta que permite captar, a cada momento, o problema central e atuar em consequência. Algo que ele mesmo define em termos militares como a necessidade de passar para a “guerra de posições” como uma alternativa à “guerra de movimentos”. Existe, portanto, uma linha de ação principal em cada momento, e essa linha é especificada nos “Cadernos do cárcere” (1929-1937), com a expressão tirada de Lenin: “É preciso acabar com a ideia do assalto para substituí-la pela do assédio”.

O giro político proposto por Gramsci adquire uma dimensão estratégica, produto de uma reflexão teórica marcada pela derrota do biennio rosso e pela chegada ao poder do fascismo. Gramsci se pergunta como é possível que, após a Primeira Guerra Mundial e a falência do Estado liberal, o resultado não tenha sido o triunfo da revolução e do socialismo, mas, ao contrário, a vitória do capitalismo.

Essa tensão causal entre estrutura e superestrutura é melhor resolvida por Gramsci a partir da pesquisa histórica concreta, do que pelo apelo a uma espécie de lógica dialética, resultante da fórmula de entender o econômico como “determinante em última instância”. Dessa forma, junto com a vontade transformadora da subjetividade, Gramsci confronta os postulados economicistas, através de um “historicismo pronunciado”, resultado de uma formação intelectual fortemente influenciada pelo idealismo e liberalismo de esquerda de sua juventude.

Esse idealismo mitigado por seu caráter historicista permite a Gramsci oferecer ao marxismo uma sensibilidade à dimensão cultural, política, religiosa e, em geral, superestruturais da vida social, que permite compreender como os países do capitalismo avançado dispõem de recursos sociais para resistir às tentativas de assalto frontal.

Assim, para Gramsci, o fascismo não é uma anomalia histórica, mas a concretização e continuação do domínio burguês, na Itália, iniciado com o “Risorgimento”. O fascismo é a resposta reacionária com a qual as classes dominantes iniciam o processo de reestruturação autoritária da sociedade italiana, após o fracasso do capitalismo em sua forma original, onde a coerção não é a premissa principal, mas a capacidade dos grupos dominantes de gerar consentimento e persuasão, construindo a hegemonia que permite liderar os grupos aliados e subordinados, com a burguesia construindo um bloco dominante através do discurso nacionalista.

Condenado à prisão pelo regime de Mussolini, os estudos históricos e suas reflexões teóricas perseguem um claro objetivo político, com o qual pretende responder à pergunta: por que a revolução na Itália foi derrotada? Gramsci entende que a derrota é uma consequência do isolamento do proletariado do norte, da falta de apoio de outros setores populares, especialmente os camponeses do sul da Itália. O pensador italiano responsabiliza o Partido Socialista Italiano (PSI), que incorre em uma política de corte elitista, que contemplava apenas a classe operária industrial e os países centrais da Europa (como era o norte da Itália) como os únicos protagonistas da mudança política.

Gramsci conclui o contrário, que a mudança política do momento histórico que lhe toca viver só é possível levando em consideração os atores que a tradição socialista tomava como marginais, como o campesinato, assim como o valor antagonista que adquirem os países semiperiféricos como a Rússia e os coloniais como os asiáticos. Em sua tradução para as condições italianas do momento, Gramsci conclui que a mudança é impossível sem o campesinato e a Itália meridional (a questão meridional), realidades com as quais articular um novo bloco histórico e construir a hegemonia política e cultural das classes subalternas na Itália. É nesse ponto que o pensamento gramsciano se apresenta a nós como sugestivo para nossa conjuntura de mudança contemporânea.

Assim como Gramsci e os revolucionários de sua geração, caberia perguntar-se, hoje: quais são os atores que irrompem como condição necessária para a mudança socialista nas sociedades contemporâneas?

No marco da crise iniciada em 2008, a mudança política deve ser entendida não como uma resposta à crise do fordismo e da social-democracia, mas, ao contrário, como uma alternativa à crise do pós-fordismo e do neoliberalismo.

O triunfo de Boris Johnson e do Brexit na Grã-Bretanha, juntamente com a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, fazem parte da reação das classes dominantes do centro capitalista frente às consequências indesejadas da globalização que elas mesmas impulsionaram.

A visão de “longo prazo” com a qual Wallerstein propõe situar a análise da crise da globalização implica um processo de mudança tecnológica acelerado que condiciona substancialmente a expansão das forças produtivas e a forma que as mesmas adotem no futuro, que, por sua vez, significa que, em situação de crise, as mudanças na divisão internacional do trabalho se intensificam. Esse processo revela a dupla realidade que os novos sujeitos de mudança apresentam, derivados do papel geopolítico desempenhado pela periferia no sistema mundo e o surgimento do novo assalariado urbano.

Desse ponto de vista político, a possibilidade de mudança política passa pela compreensão de como as transformações nas bases materiais de nossas sociedades são uma consequência da formação de um novo modelo social e econômico marcado pelo capitalismo flexível como realidade dominante. Na Europa meridional da especialização flexível, seus países passam a ser a fábrica de bens de consumo de massa de alcance médio e baixo para o consumidor europeu e as zonas de turismo de massa, que fazem do sul da Europa um “enclave de lazer” a serviço das regiões ricas da Europa.

Esse processo supõe uma redistribuição geográfica dos centros de trabalho em função da etapa do processo produtivo que realizam, base para o surgimento de uma nova questão meridional em escala europeia, cujos efeitos segregadores são chaves para a compreensão da crise da Europa atual.

Multiplica-se, assim, uma economia de serviços atrasados à produção que, escalonadamente, realizam tarefas cada vez menos qualificadas e que se distribuem pelos grandes corredores industriais das coroas metropolitanas e, do outro lado de suas fronteiras, despovoando as zonas rurais do interior, com efeitos que configuram a nova lógica espacial do capitalismo flexível, convertendo as periferias urbanas nas protagonistas da nova geografia do mal-estar nas sociedades meridionais europeias.

O modelo de desemprego-precariedade-flexibilidade está na base da aparição e consolidação de uma nova classe trabalhadora de serviços, com características diferentes da classe operária industrial ou da conformada pelos trabalhadores de serviços públicos e camadas profissionais urbanas. Estamos diante de algo novo, o “proletariado sem consciência”, o novo assalariado urbano que pode acabar se tornando um ator fundamental do conflito social futuro.

O contexto em que se constrói a obra teórica de Antonio Gramsci é o da crise da primeira globalização, de fins do século XIX. Tal crise é sancionada com o nascimento dos imperialismos que se dirimem na I Guerra Mundial. O custo para o capitalismo desse período é a Revolução Socialista na Rússia e o crash econômico de 1929, com uma crise que dá origem ao surgimento do fascismo, sob o qual emerge o primeiro projeto continental europeu triunfante do século XX.

Para Gramsci, a reconstrução de um projeto socialista naquele contexto requeria formas e sujeitos novos, situando essa nova referência ali onde antes se havia negado todo potencial de mudança, ou seja, no desarticulado campesinato do Mezzogiorno italiano.

Como resposta à derrota do biennio rosso, Gramsci percebe na questão meridional o “nó” fundamental para a mudança na Itália, para a qual, já no marco dos Cadernos do Cárcere, o líder italiano desenvolve conceitos-chave de seu pensamento, especialmente o de bloco histórico e hegemonia.

Antonio Gramsci é o primeiro no Ocidente que se esforça para compreender filosoficamente o significado histórico mundial da revolução que irrompe no Oriente, em um país atrasado como a Rússia, e se converte em um crítico implacável do PSI, com o qual rompe por sua incapacidade de entender o papel do campesinato e o significado da questão meridional como questão nacional.

A experiência política de Gramsci e sua elaboração teórica nos previnem do mecanicismo ainda latente na esquerda contemporânea, que continua vinculando mudança à excepcionalidade, crise econômica à crise política terminal. No entanto, e após um intenso ciclo de mobilizações, a crise da segunda globalização trouxe os novos fascismos que avançam na Europa com a reconstrução de projetos reacionários na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos e a resposta pró-imperialista de setores importantes das camadas médias na América Latina. Projetos sustentados não apenas nas classes dominantes, mas que também contam com o apoio de importantes setores populares.

A transmissão das relações de exploração contemporâneas sugere um padrão geográfico e espacial que tem como eixo o conceito de periferia, cuja dimensão social tem como referência o novo assalariado urbano resultante do processo de transformação do trabalho no marco do capitalismo flexível. Pensar a mudança social passa pela compreensão do valor central do considerado até agora como marginal: o “proletariado sem consciência” que vive nas periferias urbanas dos países europeus. Nessa plebe precária da periferia está a nova questão meridional.

No entanto, o peso social dessa nova classe trabalhadora não corresponde ao seu peso político e cultural, o que a torna um setor subvalorizado e nada representado no marco político europeu. Uma esquerda que, caso não reaja, pode ser responsável por provocar uma neutralização decepcionante de um setor popular, que ficará à disposição de sucumbir a demagogos fascistas de última geração.

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