Aprofundar as fontes. Abolir a lei do celibato ou abolir o sacerdócio?

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21 Fevereiro 2020

"Em plena harmonia com Häring e Haag, Pikaza acredita, portanto, que esse sistema eclesial de tipo patriarcal, fundado em uma hierarquia de homens celibatários 'seja agora inútil: está vazio de água, resulta antievangélico; cumpriu uma função, mas deu o seu melhor e tornou-se um fóssil; não alimenta mais a fé e a contemplação dos crentes, nem serve para animar a vida das comunidades; sobreviverá por inércia por um período não muito longo e, no final, entrará em colapso sozinho, exceto se mudar e se renovar a partir do Evangelho'", escreve Elio Rindone, ensaísta e estudioso de teologia, em artigo publicado por Adista.it, 06-02-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os fatos são conhecidos: uma feroz polêmica estourou no início do novo ano porque o cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, publicou um livro, também assinado pelo Papa Emérito Bento XVI (que depois pediu para remover seu nome da capa), para evitar com uma manobra preventiva a possibilidade de o Papa Francisco abrir a possibilidade de ordenar como sacerdotes, em casos muito excepcionais, homens casados ​​destinados a comunidades periféricas que não são facilmente alcançáveis ​​por um padre regularmente ordenado.

Que ainda hoje não se possa tratar com serenidade uma questão como a do celibato dos padres, que há muito tempo já foi resolvida em outras igrejas cristãs, parece francamente inacreditável: não se sabe se rir ou chorar. Como é possível que a tentativa de Bergoglio de trazer pequenas inovações encontre uma oposição tão forte de uma parte não desprezível do mundo católico? Tanto mais que o papa afirmou repetidamente que não deseja introduzir a facultatividade do celibato como regra geral: em janeiro de 2019, por exemplo, durante a conferência de imprensa no voo de retorno do Panamá, ele lembrou "uma frase de São Paulo VI: ‘Prefiro dar a vida antes de mudar a lei do celibato’. [...] Pessoalmente, acho que o celibato é um dom para a Igreja e não concordo em permitir o celibato opcional”. As possíveis mudanças de que estamos falando, portanto, parecem ser de pouca relevância, enquanto hoje seriam bem outras as questões a serem enfrentadas: isto é, seria preciso pensar não em tornar facultativo o celibato ou admitir mulheres ao sacerdócio, mas em abolir o próprio sacerdócio!

Certamente, essa afirmação pode aparecer em contraste não apenas com a tradição eclesiástica, mas com o próprio evangelho. No entanto, esse não é o caso: aliás, é precisamente por fidelidade ao evangelho e à tradição mais antiga que o sacerdócio deveria ser abolido. Embora possa parecer uma boutade, essa é uma tese compartilhada por muitos estudiosos católicos, que argumentam que - admitido e não concedido que as palavras que os Evangelhos atribuem a Jesus foram efetivamente pronunciadas por ele - dos relatos do Evangelho não resulta absolutamente a intenção de Jesus de instituir uma ordem sacerdotal.

Portanto, vou me limitar a citar dois ou três autores cujos escritos datam de algumas décadas atrás. Em 1997, Herbert Haag (1915-2001), famoso biblicista e ex-professor da Universidade de Tübingen, destacava - no livreto Da Gesù al sacerdozio, publicado na Itália, em 2001, pela Claudiana, do qual são tiradas as seguintes citações - que o convite dirigido aos apóstolos [“Este é o meu corpo, que é dado por vós; façam isso em memória de mim" (Lucas 22,19)] ou as palavras dirigidas aos discípulos ["Se perdoarem os pecados de alguém, estarão perdoados; se não os perdoarem, não estarão perdoados" (João 20:23)] não são suficientes para afirmar que Jesus tenha instituído a ordem sacerdotal, porque se trataria de tarefas confiadas a toda a comunidade de crentes. De fato, sabemos que nem Jesus nem os apóstolos eram sacerdotes e é consenso que na Igreja primitiva "a celebração da Eucaristia era de exclusiva competência da comunidade. Aqueles que presidiam a Eucaristia, com o acordo da comunidade, não eram ‘ordenados’. Eles eram simples membros da comunidade. Hoje nós os definiríamos como laicos, homens, mas também mulheres, geralmente casados, mas também não casados" (Haag, p. 23).

A tudo isso, devemos acrescentar que a impressão obtida nos evangelhos é que Jesus não tinha uma boa opinião dos sacerdotes de seu tempo. Na parábola do samaritano que ajuda o homem deixado desfalecido pelos bandidos, por exemplo, ele não perde a oportunidade de notar - seria excessivo falar de uma certa perfídia anticlerical? - que, em vez disso, "descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo” (Lucas 10,31).

E não é só isso. Várias vezes os evangelistas lhe atribuem previsões desfavoráveis ​​para o Templo de Jerusalém, centro do culto de que os sacerdotes tinham direito exclusivo: “Aqui não ficará pedra sobre pedra; serão todas derrubadas" (Marcos 13,2). As relações, para usar um eufemismo, já não eram idílicas, mas ouvir a acusação de que o Templo foi transformado em um "covil de ladrões" (Marcos 11,17) excede todo limite aceitável pela classe sacerdotal e, portanto, não causa surpresa que na fila da frente, entre os inimigos de Jesus, estejam justamente os sacerdotes mais influentes, como Marcos recorda no versículo sucessivo: "E os escribas e príncipes dos sacerdotes, tendo ouvido isto, buscavam ocasião para o matar". E serão precisamente esses sacerdotes, insistem os evangelistas, a se mobilizar para bloquear a tentativa da autoridade romana de salvar Jesus da sentença de morte: "os principais dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que Pilatos, ao contrário, soltasse Barrabás” (Marcos 15,11). De acordo com os Evangelhos, portanto, "hoje é opinio communis que a responsabilidade pela morte de Jesus deva ser atribuída aos sacerdotes do templo" (Haag, p. 70).

E a situação não melhora após a morte de Jesus. De fato, de acordo com os Atos dos Apóstolos, os sucessos dos discípulos irritam os principais sacerdotes, a ponto de tentarem, decapitando-o, impedir a propagação do movimento: “Então o sumo sacerdote e todos os seus companheiros, membros do partido dos saduceus, ficaram cheios de inveja. Por isso, mandaram prender os apóstolos, colocando-os numa prisão pública." (5,17-18), e até "queriam matá-los" (5,33).

Por várias razões, portanto, parece improvável que o mestre de Nazaré desejasse instituir uma ordem sacerdotal e que tal intenção tenha se materializado durante a última ceia. De fato, o clero não acompanhou toda a história do cristianismo: certamente tem uma duração de muitos séculos, mas é desconhecido para a Igreja nos primeiros séculos. Este é um fato que cria alguns problemas para os defensores da tradição. De fato, "se Jesus, como se afirma, instituiu o sacerdócio da nova aliança, deve-se perguntar por que não se encontra registro disso nos primeiros quatrocentos anos da história da Igreja". A explicação é simples, continua nosso autor: no que se refere à instituição por parte de Jesus "do sacramento da ordenação sacerdotal, a demonstração é totalmente impossível" (Haag, p. 23).

De fato, quando as comunidades que se reportam a Jesus, começam a se estruturar, escolhem anciãos, homens e mulheres que atingiram uma certa maturidade, como guias no caminho da fé, e depois as comunidades que se encontram em um mesmo território escolherão entre esses anciãos, um επ? σκοπος, ou seja, um "supervisor", um "coordenador". É do termo grego πρεσβ? Τερος, que significa precisamente “mais ancião”, que deriva “padre”, que na linguagem atual se tornou equivalente a “sacerdote”.

Na realidade, o presbítero-padre é um membro da comunidade, não é separado dela e não é o mediador habilitado a colocar em relação os simples fiéis com uma divindade distante e inacessível. Em poucas palavras, a separação entre sacerdotes e laicos não tem fundamento: todos os crentes constituem o λα? Σ, o povo de Deus. Mas se dos evangelhos não resulta que Jesus imaginasse uma figura de sacerdote como a que conhecemos, ou seja, separada do povo e detentor de funções sagradas, como se originou a concepção tradicional do padre católico, quase um segundo Cristo? Não há dúvida que teve um papel especial uma escrita por longo tempo atribuída a São Paulo, mas na realidade composta décadas após sua morte por um autor anônimo, ou seja, a Carta aos Hebreus. Esse é, de fato, o único documento do Novo Testamento que atribui a Jesus os títulos de ερε?ς e ?ρχιερε?ς (isto é, sacerdote e sumo sacerdote). E o fato de que esse seja o único texto de todo o Novo Testamento que relê a figura de Jesus nessa perspectiva não deveria constituir um problema? Mas tem mais.

O versículo frequentemente citado, também nos textos pontificais, para definir o papel dos sacerdotes cristãos e justificar sua separação dos simples fiéis é o seguinte: "Porque todo o sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados" (5,1). É uma pena, no entanto, que essa passagem não fale absolutamente dos sacerdotes cristãos! Aliás, observa Haag, "por duas razões, a citação desse texto é arbitrária. Em primeiro lugar, fala-se aqui do sumo sacerdote de Israel; em segundo lugar, não há outros escritos do Novo Testamento que se oponha tão fortemente à concepção de um sacerdócio cristão quanto a carta aos Hebreus" (Haag, p. 57).

De fato, segundo o anônimo autor da Carta, Jesus "Ao contrário dos outros sumos sacerdotes, não tem necessidade de oferecer sacrifícios dia após dia, primeiro por seus próprios pecados e, depois, pelos pecados do povo. E ele fez isso de uma vez por todas quando a si mesmo se ofereceu." (7,27) Disto deduz-se que "dando a si mesmo, Jesus completou sua obra. Isso significa que no futuro não poderá mais haver nenhum sacrifício nem sacerdócio" (Haag, p. 83). De fato, a Carta nunca fala, em relação à comunidade cristã, de sacerdotes, mas usa um termo profano para indicar os “guias” a serem seguidos no caminho da fé: "Lembrem-se a seus líderes (hegoumenoi), que lhes falaram a palavra de Deus" (13,7).

Se assim estão as coisas, é correto questionar-se, junto coma Haag: "o atual modelo de sacerdócio ainda tem futuro?". Nosso autor responde citando as palavras do teólogo alemão Bernhard Häring (1912-1998), considerado por muitos o maior moralista católico do século XX que, após reiterar que "a Igreja dos três primeiros séculos não conhecia [...] nem o termo ‘clero’ nem a estrutura correspondente a ele", mostra-se seguro em dizer que o clero está destinado a desaparecer: "Não é necessário ser profetas ou videntes para dizer que a igreja adotará essa possibilidade [de confiar aos ‘anciãos’ a presidência das celebrações eucarísticas]. O que não se pode saber, por outro lado, é quanto dano a Igreja causará a si mesma e a seu mandato antes que as mais altas instâncias eclesiásticas dirigentes tomem ato disso" (Haag, p. 60-61).

Alguns anos depois, Xabier Pikaza, ex-professor da Universidade da Conferência Episcopal Espanhola e da Pontifícia Universidade de Salamanca, chega às mesmas conclusões que Häring e Haag no livro Sistema, Liberdade, Igreja. Instituições do Novo Testamento (em tradução livre), publicado na Itália pela Borla em 2002. Comentando, por exemplo, o Evangelho de Marcos 3, 34-35 – “Então olhou para os que estavam assentados ao seu redor, [Jesus] disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Porque quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe’” -, o teólogo espanhol destaca que um grupo de homens e mulheres se reuniu em volta de Jesus e quer fazer a vontade de Deus em um clima de fraternidades, livres do peso opressor das autoridades tradicionais: "Os seguidores de Jesus são uma família alargada e compartilham vida, esperança e comunhão pessoal: cem mães/filhos, irmãos/irmãs" (Pikaza, p. 173). Estranhamente, Marco não fala de "pais", e isso é sintomático para uma sociedade na qual, como geralmente naquelas antigas, a autoridade patriarcal era incontestável: a Igreja atual, quando exalta a paternidade espiritual de seus sacerdotes, não parece renegar aquela alegre comunidade paritária?

Basta reler, de fato, a bela parábola do semeador (Marcos 4,13-20) para perceber que Jesus confiou sua mensagem não a especialistas, mas a todos aqueles que querem recebê-lo com espírito aberto e disponível. Portanto, nada de escribas ou sacerdotes "que administram a Palavra do alto, porque [esta] pertence a todos. [...] A Palavra é o princípio da comunhão universal, e todos podem entendê-la, recebê-la, compartilhá-la livremente, sem intermediários sagrados" (Pikaza, p. 161-162). Uma sociedade que questiona radicalmente as hierarquias constituídas, que não se comporta "de acordo com a tradição dos antigos" (Marcos 7,5), rebaixada a repositório de doutrinas opináveis, que segue Jesus mesmo quando suas críticas às autoridades religiosas se tornam cada vez mais explícitas: trata-se de um projeto revolucionário! A ruptura com a religiosidade oficial é absoluta, tanto que Marcos ("destruirei este templo" 14,58) atribui a Jesus, que chegou ao fim de sua ventura, a ideia de que a religião centrada no culto do templo não possa ser reformada, mas deva ser simplesmente eliminada: a "mensagem do Reino implicava a recusa da autoridade sagrada do templo: a comunidade sacrificial, dirigida como teocracia ou governo de Deus graças aos sacerdotes, chegou ao seu fim. [...] Pela vontade de Deus, para que a salvação se abra aos pobres, esse sistema sagrado centrado no templo deve terminar [...]: deve ser destruído" (Pikaza, p. 216-217).

Em plena harmonia com Häring e Haag, Pikaza acredita, portanto, que esse sistema eclesial de tipo patriarcal, fundado em uma hierarquia de homens celibatários "seja agora inútil: está vazio de água, resulta antievangélico; cumpriu uma função, mas deu o seu melhor e tornou-se um fóssil; não alimenta mais a fé e a contemplação dos crentes, nem serve para animar a vida das comunidades; sobreviverá por inércia por um período não muito longo e, no final, entrará em colapso sozinho, exceto se mudar e se renovar a partir do Evangelho" (Pikaza, p. 470, nota 1).

Para concluir: é evidente que o Papa Francisco não pode nem ele deseja fazer nada daquilo sugerido pelos estudiosos católicos acima mencionados, mas precisamente isso deveria ser feito para ser fiéis ao projeto de Jesus, para quem Deus é um pai a quem os filhos podem se dirigir diretamente, sem a necessidade de sacerdotes-mediadores. De pessoas maduras, indicadas pela comunidade por serem capazes de guiar outras pessoas na experiência da fé, certamente há necessidade, de acordo com a ótica do evangelho; seria decididamente melhor ficar sem mediadores e administradores do sagrado.

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