Quantas classes médias cabem na classe média?

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12 Fevereiro 2020

“É essencial começar a analisar e identificar as disputas e tensões que ocorrem nesse grande grupo social, porque certamente dependerá dela uma boa parte da sustentabilidade de uma proposta política. Seria um grande erro confundir o objetivo, porque certamente satisfazer uma classe média é muito mais fácil do que todas as classes médias que cabem nela”, escreve Alfredo Serrano Mancilla, economista e diretor do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica (CELAG), em artigo publicado por Público, 10-02-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

É cada vez mais comum que tudo o que acontece politicamente seja explicado em torno de uma crescente e onipresente categoria, a “classe média”. Este termo monopoliza a maioria das interpretações possíveis na hora de justificar comportamentos sociológicos e políticos e, é claro, as preferências eleitorais. Certamente, por conforto e simplicidade, não importa o que aconteça, porque tudo conta de maneira argumentativa com a classe média como um fator comum.

Nos últimos anos, ocorreram importantes fenômenos políticos aparentemente inesperados e novos na América Latina: a chegada da Andrés Manuel López Obrador ao governo do México com uma ampla maioria, a vitória eleitoral de Bolsonaro no Brasil, os protestos sociais no Chile e na Colômbia, também a impossibilidade de Lenín Moreno conferir estabilidade ao Equador, o fim de Macri na Argentina pelas mãos da proposta progressista de Alberto e Cristina, a derrota da Frente Ampla no Uruguai e, claro, o golpe de Estado na Bolívia. Todos esses fatos políticos e/ou eleitorais foram recorrentemente explicados e em grande medida pelo mesmo grupo econômico e social, o da classe média.

E se tem tanto poder explicativo, o mais pertinente seria começar se perguntando o que exatamente é a classe média. Para fazer isso, devemos partir de duas premissas básicas que, se não forem consideradas, podem levar a distorcer qualquer interpretação posterior.

A classe média não é um bloco monolítico, nem homogêneo

Segundo a CEPAL, o estrato médio aumentou de 136 milhões para 250 milhões de pessoas, entre 2002 e 2017, na região latino-americana. No entanto, nem todos esses milhões de pessoas são idênticas. Não são em sua capacidade econômica, nem tampouco em sua lógica de aspirações.

A maioria das organizações internacionais, nas últimas décadas, já subclassificaram essa categoria ampla. Às vezes, usam termos como “média-baixa” e “média-alta”, e até parece que uma nova categoria é a da “quase classe média”, batizada pelo Banco Mundial para denominar aqueles que estão um pouco acima da linha da pobreza, mas que são suscetíveis a voltar, a qualquer momento, a ser pobres.

No entanto, essa desagregação também não é suficiente para capturar a grande heterogeneidade existente entre esses 250 milhões de pessoas que vivem muito diversamente na América Latina. Nessa categoria, existem dinâmicas completamente opostas. Por exemplo, não é a mesma coisa aquela família que, após anos, passa a ter níveis (de educação, trabalho, saúde, propriedade, renda) de classe média do que outra que sempre esteve naquele nível. Como diria Alvaro García Linera, não tem nada a ver a classe média de origem popular na Bolívia - que, segundo a pesquisa do CELAG, é aquela com a qual um terço da população se identifica - com a classe média tradicional (que é média, não por densidade, mas porque se encontrava entre uma classe baixa massiva e outra classe, alta e muito reduzida). Também não faria sentido equiparar a classe média recém-chegada com aquela que foi alta, mas acabou se tornando classe média por várias razões econômicas, sociais e políticas.

Por isso, é impossível tratar um grupo tão diverso em sua capacidade econômica, em seus níveis educacionais, em seus hábitos culturais, e mais ainda se temos essa pretensão em relação a sua lógica motivacional. Embora seja verdade que exista um “comportamento imitador” do cidadão que ascende e melhora, não é verdade que as aspirações sejam as mesmas da outra parte da classe média que deseja ser alta, e com aquela outra que tem uma tradição histórica de pertencer a esse grupo social, com usos e costumes arraigados, sólidos, que fazem com que a subjetividade se diferencie dos cidadãos que ainda estão nessa fase da mobilidade social e sempre com uma sensação de trânsito, de “querer se tornar”.

A segunda premissa é que a classe média não pode ser um conceito importado de outros lugares.

Não se pode transferir, sem considerar o contexto histórico, a concepção de classe média europeia para o Equador, Argentina, Bolívia, nem para o México e nem para o Chile. Qualquer “epistemicídio”, como diria Boaventura de Sousa, para substituir uma episteme externa por sua própria, geralmente causa muito dano em qualquer análise. E com a classe média é isso que acontece constantemente. É comum supor que os comportamentos da classe média sejam semelhantes em todos os lugares, como se não houvesse histórico específico de um país e, muito pior, como se a distribuição de renda fosse a mesma em cada lugar.

Por exemplo, não podemos comparar de maneira alguma aquela distribuição em um país cuja classe média é massiva com outro em que sua classe média é uma pequena porção entre dois “corcundas”: um gigante formado pela classe baixa e o outro, a classe alta, muito pequena. A subjetividade de um e de outro não poderia ser a mesma. Existe sempre um “relativismo” na construção da subjetividade dessa classe média, com base em como você se observa em relação ao outro, aos de baixo e aos de cima. Inclusive estatisticamente, a mesma classe média identificada com indicadores “objetivos”, como renda e consumo, também possui um componente relativista que é determinante.

Portanto, por uma razão ou outra, é necessário que, quando nos referirmos ao desafio de se sintonizar com a “classe média”, entendamos que não existe uma única classe média, mas que são muitas variedades nesse grande grupo tão complexo. Há uma classe média que acaba de chegar e que, além disso, faz isso por vias muito diferentes. Há uma classe média de toda uma vida. Há uma classe média que é mais alta que média. Há uma classe média que sempre corre o risco de deixar essa condição. Existe uma classe média no econômico, que, por sua vez, se distingue de acordo com sua capacidade econômica, seja baseada em renda, herança, consumo ou endividamento.

Contudo, nem todas as variáveis diferenciadoras vêm do econômico, porque também há classe média no cultural, no simbólico, no poder político, e também sem descuidar do componente “país” ou, às vezes, o regional. A classe média de Guayaquil não é a mesma que a de Quito, nem a boliviana de El Alto é a de Santa Cruz. Em resumo, diante de uma variedade de “classes médias”, é preciso considerar a multiplicidade das lógicas motivacionais e dos sentidos comuns.

É por isso que devemos “cuidar” da maneira que queremos atraí-la e incorporá-la ao projeto político progressista, porque nem sempre existe uma maneira única para isso. É preciso muito mais bisturi do que pincel grosso. Além disso, é essencial começar a analisar e identificar as disputas e tensões que ocorrem nesse grande grupo social, porque certamente dependerá dela uma boa parte da sustentabilidade de uma proposta política. Seria um grande erro confundir o objetivo, porque certamente satisfazer uma classe média é muito mais fácil do que todas as classes médias que cabem nela.

 

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