“A imaginação é o eixo da realidade”. Entrevista com Juan Arnau

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31 Janeiro 2020

O que é a imaginação? Qual tem sido sua definição e seu peso em diferentes culturas e épocas? A realidade torna a imaginação possível ou é exatamente o oposto? Qual deve ser o papel dessa capacidade de pensamento em uma era dominada pela tecnologia? A mente reside no cérebro?

Essas são algumas das questões abordadas pelo filósofo Juan Arnau (Valência, 1968) em Historia de la imaginación. Del antiguo Egipto al sueño de la Ciencia (editora Espasa), um ensaio que, em pouco mais de 300 páginas, percorre uma infinidade de aproximações a essa faculdade fundamental do pensamento humano, de Heráclito a Carl Jung e dos hieróglifos do Templo de Luxor até o presente dominado pelos algoritmos.

Aristóteles, Averróis, Berkeley, Schopenhauer, Darwin, Nietzsche, órficos, sofistas, gnósticos, sufistas, cabalistas ... Dezenas de pensadores, teorias e mitos preenchem um ensaio filosófico cheio de erudição, mas acessível a todos os tipos de leitores, com um forte componente narrativo que ameniza a leitura.

Astrofísico e filósofo especializado em sânscrito e budismo, Arnau pertence a essa minoria de pensadores ocidentais que continuam olhando o Oriente em busca de respostas para questões fundamentais da vida. É autor de ensaios como o célebre “Manual de filosofia portátil” (Prêmio da Crítica e finalista do Nacional de Ensaio), La invención de la libertad e La fuga de Dios, além de romances protagonizados por grandes filósofos, como El cristal Spinoza, El efecto Berkeley e El sueño de Leibniz.

Arnau começa essa Historia de la imaginación reconhecendo a grande dívida que o pensamento moderno tem com o antigo Egito, nexo entre o Oriente e o Ocidente - da mesma forma que a imaginação, disse, é o nexo entre o material e o imaterial -, e continua a viagem à Grécia, antes de chegar à península Ibérica, onde, na Idade Média, confluíram a mística cristã, a árabe e a judia. Depois, essa história da imaginação se detém no Renascimento e no Romantismo, antes de desembocar no papel da imaginação na ciência moderna e em uma “mecanização” do pensamento iniciada com Darwin e, segundo Arnau, consolidada hoje, apesar das tentativas de pensadores como Jung em recuperar a imaginação perdida.

A entrevista é de Fernando Díaz de Quijano, publicada por El Cultural, 30-01-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que uma história da imaginação?

O estudo da imaginação é o estudo do que projetamos com a mente, algo muito importante em uma tradição de pensamento para a qual dediquei 20 anos da minha vida, o budismo, onde a meditação ocupa um lugar central. A isso se acrescenta quem provavelmente é meu filósofo favorito, George Berkeley, que atribuiu uma importância fundamental à imaginação, e também um texto fundamental de Aristóteles, muito comentado na Idade Média, mas que hoje perdeu a importância que merece: “Da alma” (De anima). Nesse texto, Aristóteles diz de uma maneira muito clara que não é possível pensar sem o que ele chama de fantasmata, que em grego é fantasma, mas também imagens.

Pensamos sempre em imagens. Podemos fazer pensamento abstrato com as matemáticas e algoritmos, mas o pensamento abstrato é um pensamento cego e, em certo sentido automático, um pensamento que as máquinas podem fazer e que, de fato, fazem. Nossa civilização e nosso momento histórico estão nos levando ao domínio e à consolidação desse pensamento abstrato e cego, um pensamento algorítmico que tende à uniformização do pensamento. Este livro é uma reação contra essa tendência.

Disse que o ser humano “projeta o que ainda não é, para passar a ser”. Sem imaginação, não haveria história, estaríamos ainda em um estado primitivo?

Sim. Essa é uma ideia de Michel de Certeau, que argumenta que a literatura, que se nutre da imaginação, é o discurso teórico dos processos históricos. A ficção e a ficção científica projetam narrativas e, em seguida, a história as vai cumprindo.

Dessa maneira, podem ocorrer paradoxos como o que destaca no livro: a imaginação de Einstein foi o que lhe permitiu descobrir a física quântica e, de fato, previu a existência de ondas gravitacionais, que foram constatadas um século depois. Também seu discípulo, Wolfgang Pauli, que teorizou sobre os neutrinos antes de sua existência ser comprovada.

Exato. A imaginação é o eixo da realidade. Essa é a tese principal do livro. A realidade tem três âmbitos: um é o da matéria, é evidente. Outra é o dos significados e valores, que dão sentido às coisas e a nossas vidas, que são imateriais. E o âmbito que liga esses dois polos é a imaginação. Por um lado, é material, porque na imaginação há luz, forma e cor e, ao mesmo tempo, é imaterial. Por isso, pode servir como elo entre os dois mundos e esse é o modo como entendem a mente na Índia. Esta pode se conectar com o corpo e o espírito.

Ao contrário, em nosso mundo moderno, estamos reduzindo tudo ao material. A ciência teme entrar no imaterial e o deixa fora de consideração, especialmente as ciências exatas, as mais influentes. Portanto, este livro é contemporâneo, embora fale de coisas antigas, porque o problema que apresenta é nosso e será herdado por nossos filhos.

Disse que a precariedade imaginativa teve consequências catastróficas. Quais são?

Essa tendência a homogeneizar o pensamento e a que o algoritmo domine o campo do pensamento científico trouxe consequências evidentes, da bomba atômica à robotização de uma geração de jovens que agora não conseguem viver separados das maquininhas e das telas. Psicologicamente, acredito que isso é catastrófico.

Você considera que a ciência, especialmente as neurociências, se tornou o dogma do século XXI, em substituição da religião?

A ciência é um mito a mais, como os mitos contados nesse livro. É importante entender que existem muitas ciências e que, dentro da mesma disciplina científica, podem existir visões completamente divergentes. De fato, dentro das neurociências agora está na moda uma corrente chamada pampsiquismo, que chega a dizer que tudo é a mente. E na física, por exemplo, podemos enfrentar o subjetivismo radical de um físico quântico com o materialismo positivista do século XIX, de um físico experimental e teórico. Existem muitas visões diferentes e os dogmas científicos são constantemente questionados.

Uma tese fica clara: mente e cérebro não são a mesma coisa, embora a neurociência, há muito tempo, tenha dito que sim. Por outro lado, recentemente, foram descobertos neurônios no coração e nos intestinos, sintonizados com as antigas crenças egípcias. Acredita que isso mudará a concepção científica da mente humana?

Isso já está ocorrendo. Antes, a neurociência se centrava apenas no cérebro, e agora há pessoas que estão rompendo esse cerebrocentrismo, estão fora do mainstream, mas trabalham em laboratórios de neurociências de muito prestígio. Sempre existem correntes dominantes na ciência e, quando você sai delas, corre o risco de não ter sua pesquisa publicada, ser deixado um pouco de lado, mas sempre há corajosos que abrem outras correntes que podem acabar sendo dominantes. Isso é o que Thomas Kuhn chamou de revoluções científicas, que jovens pesquisadores costumam protagonizar porque não têm apego aos paradigmas existentes.

Você também se sentiu relegado por ir contra as correntes dominantes da filosofia ocidental?

Não, porque tive muita sorte com os editores e uma trajetória muito transversal. Eu trabalho com a filosofia indiana, que não está no cânone, nem nos programas de filosofia da universidade espanhola, algo lamentável que será corrigido ao longo do tempo. Já existem assuntos de filosofia e filologias chinesas e a sinologia como disciplina científica. Em pouco tempo será a vez da indologia, mas ainda não chegou.

Isso ocorre principalmente porque quando encontramos a América, esquecemos a Índia. É um paradoxo histórico, porque fomos os primeiros a tentar estabelecer uma relação não apenas comercial, mas cultural e política com a Índia e agora, em comparação com a Itália, França, Alemanha e Inglaterra, na Espanha, a porcentagem de indólogos e especialistas em sânscrito é muito baixa.

No primeiro capítulo, aponta a grande dívida que o Ocidente tem com o Egito antigo, pouco reconhecida. O que lhe devemos exatamente?

Eu ia começar o meu livro com a Grécia, mas percebi que a dívida com o Egito antigo é enorme, porque é uma mistura entre o Oriente e o Ocidente, pois geograficamente é ocidental, mas seu modo de pensamento muito oriental. Na literatura greco-latina, há muitas referências às conexões entre o Alto Nilo, a região da Etiópia, com a Índia. De fato, Apolônio de Tiana disse que os brâmanes vêm do Egito. Considerei importante começar com o Egito, porque os gregos admiravam muito sua civilização e, de fato, a grande biblioteca grega e pagã do mundo antigo era a de Alexandria, muito perto do Cairo.

Dedica várias páginas a Averróis, Moisés de Leão e outros filósofos andaluzes e sefarditas que não são reivindicados como figuras importantes na história cultural espanhola. Considera isso um erro?

Naquela época, não existia Espanha, mas há muitos pensadores sufistas, muçulmanos, cabalistas, místicos cristãos que viviam na península e devemos considerá-los nossos concidadãos historicamente. Foram muito importantes para a história da imaginação, como Averróis, que reivindicou o conceito aristotélico de imaginação e o colocou na vanguarda do conhecimento. Além disso, há um período da cabala muito importante que conectou pensadores de Castela, Zaragoza e Girona. Agora que existe uma distância tão grande entre Castela e Catalunha, vale lembrar que houve um tempo com laços espirituais muito profundos entre os dois territórios.

Em seu livro, também destaca Schopenhauer, um dos grandes filósofos ocidentais do século XIX que não perdeu de vista o Oriente.

Sim, e esse olhar para o Oriente foi posteriormente transmitido a Nietzsche. Schopenhauer foi um homem de extraordinário talento literário e filosófico. Caiu em suas mãos uma tradução latina dos upanisad [livros sagrados hindus] e ficou fascinado. De fato, em várias ocasiões, disse que o livro salvou sua vida. Logo se interessou também por budismo e, embora não chegou a entender em profundidade, nem esse e nem o hinduísmo, percebeu neles uma espécie de renovação espiritual, porque viu que o Ocidente estava se afastando dos grandes temas.

Quando a filosofia se reduz à filosofia analítica e se ocupa da linguagem técnica, torna-se um tipo de filosofia que quer se parecer com as matemáticas, mas não ajuda a viver e não serve para nada. Bom, sim, para ganhar um lugar na universidade e ganhar a vida, mas acaba secando o espírito.

Toma Darwin como um exemplo da visão mecanicista do mundo. Acredita que com ele começa esse modo de entender o pensamento e a ciência no Ocidente?

Darwin é um homem que lidou com uma quantidade tão grande de informações que se mecanizou em certo sentido. Conto sua vida como alegoria do destino do ocidente. Foi um gênio que tomou uma direção do pensamento e foi ressecando sua alma, deixando de lado aspectos fundamentais da vida, como a consciência. Gerou um modelo que teve um sucesso muito notável no pensamento moderno. Sem dúvida, as pessoas que mais influenciaram a ciência e o pensamento ocidental moderno são Newton, Kant e Darwin.

Depois, Jung devolve um pouco a relevância à imaginação, coloca o inconsciente de volta no primeiro plano do pensamento.

Existe um livro muito bonito de correspondência entre Pauli e Jung, no qual vemos que os sonhos têm um papel fundamental nas teorias da física quântica, algo que no campo da filosofia newtoniana seria uma heresia. Contudo, essas pessoas eram tão geniais que se atreviam a dizer isso. Pauli sonhava com teorias que mais tarde desenvolvia e tentava aplicá-las a situações relacionadas às partículas elementares e ao sistema quântico.

Para uma pessoa que estudou muito sobre a mente, a alma e o imaterial, devo lhe perguntar sobre suas crenças acerca da existência da alma. Acredita que existe?

Isso daria uma entrevista inteira. É claro que temos uma vida mental e estamos projetando imagens constantemente, acordados ou adormecidos. Jung falava sobre o suicídio da alma na época moderna. A alma é uma palavra como qualquer outra que designa uma série de experiências, imaginações, devaneios e inclinações. Os budistas têm muito claro que as pessoas vêm ao mundo com uma mala kármica, com uma série de inclinações e desejos, que é o que a ciência moderna chama de código genético. Essas inclinações, o que Aristóteles chama de alma, agora são chamadas de maneira diferente, mas seguem aí.

Acredita que a vida mental ou a alma podem transcender o corpo e a morte? Acredita na sua imortalidade?

O conjunto de inclinações e desejos que chamamos de alma está sempre se transformando. O problema é que confundimos o conceito de alma com o de indivíduo, porque ao final o que preocupa a todos é se eu – aí está o eu – vou sobreviver. Não sei o que acontece com o “eu”, tenho minhas ideias e suspeitas sobre isso que não vou deixar explícitas, mas a questão fundamental acaba sendo o “eu”, porque depois de toda uma vida vivendo com ele, cuidamos dele e nos aterroriza nos desprendermos dele. É razoável pensar que essa transformação da alma que ocorre na vida possa continuar após a morte, outra coisa é que o “eu” se conserve.

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