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28 Janeiro 2020

"Embora os responsáveis eclesiásticos tenham ficado em silêncio por décadas, agora um processo está lentamente começando a trazer esperança. A atenção foi despertada pelo fato de os relatórios de O'Donohue em 2001 vazarem e serem divulgados. Desde então, e muitas vezes sob o radar das autoridades do Vaticano, são cada vez mais numerosas as vítimas que se colocam online", escreve Doris Reisinger, filósofa alemã, teóloga e autora de vários livros, em artigo publicado por Zeit, 22-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

A violência contra as mulheres há muito tempo está na agenda da Igreja Católica. Mas agora as vítimas se insurgem - e a hierarquia parece aprender com as experiências da crise dos abusos.

Está na hora que venha à tona e se fale sobre a violência sexual contra as mulheres na Igreja. Assim como há dez anos, era hora de falar sobre a violência contra as crianças na Igreja. "O silêncio deve ser quebrado", escreveu o padre jesuíta Klaus Mertes, então diretor do Canisiuskolleg em Berlim, em janeiro de 2010, em uma carta a vários ex-alunos que haviam sofrido abusos em sua escola. A carta está no início da reflexão sobre os milhares de abusos de menores por padres na Alemanha. Quando Mertes escreveu aquela carta, ele não imaginava a extensão do fenômeno dos abusos contra menores na Igreja Católica e quantas vítimas teriam finalmente falado por toda a Alemanha. Mas sabia o que devia fazer naquele momento e, assim, demonstrou uma confiança muito maior em Deus e na Igreja do que aqueles que durante décadas ocultaram os abusos e não quiseram ouvir as vítimas.

Agora, em janeiro de 2020, tenho a impressão de que estamos em uma situação semelhante em relação à maneira de lidar com a violência sexual contra as mulheres na Igreja. Neste mês, recebi vários e-mails de vítimas, mais do que já recebi antes. Quase todos os dias falo ao telefone com mulheres que querem ser ouvidas. Muitas delas não foram levados a sério pela Igreja durante décadas. Parece que as coisas estejam mudando. Várias vítimas relatam que recentemente não só são ouvidas, mas também apoiadas na Ordensobernkonferenz (Conferência das Superioras Maiores). Por exemplo, uma mulher conseguiu obter que o religioso que a havia abusado não fosse mais convidado pelas casas de exercícios espirituais em toda a Alemanha. Parece que alguns responsáveis tenham entendido que a Igreja deve ser defendida dos abusadores, não das vítimas.

Com base nas minhas conversas, sei que existem três grupos de vítimas. Há as mulheres que, como eu, entraram em um convento quando eram muito jovens e sofreram violência sexual. Na maioria dos casos, por parte de um confessor ou diretor espiritual, às vezes até por uma superiora ou mestra de noviças, que tira proveito do fato de que toda a vida dessas mulheres é definida e caracterizada pela congregação. Autores de crimes que geralmente ocupam posições de poder têm um jogo fácil. Por esse motivo, as religiosas agredidas enfrentam particulares dificuldades para se defender e se fazer ouvir. Na maioria dos casos, elas só podem falar sobre suas experiências se tiverem saído da ordem.

Depois, há as mulheres que colocam na dependência de um diretor espiritual e que são levadas por ele a comportamentos de tipo sexual. Essas violências são particularmente pérfidas porque ocorrem em uma relação de direção espiritual em que a mulher se abre com confiança e fala de sua vida íntima. Os autores dos crimes aproveitam-se justamente dessa abertura confiante. Eles fazem sua vítima acreditar que a proximidade corporal seja um aspecto normal de uma relação de direção espiritual, para depois avançar gradualmente mais, até que sejam cometidos crimes inequivocamente de tipo sexual.

Por fim, existe a capacidade de tirar proveito do poder concedido pelo cargo ocupado. As vítimas nessas situações são principalmente mulheres que têm um padre como seu superior e que são levadas por ele a comportamentos de tipo sexual. Geralmente envolve desde a jovem diretora das coroinhas com quem o pároco faz sexo regularmente, até a governanta que o pároco apalpa toda vez que está sob a influência do álcool.

Todas as mulheres abusadas querem basicamente a mesma coisa: que alguém lhes diga oficialmente que tais abusos não deveriam ter ocorrido e que no futuro serão definitivamente impedidos. Pedidos de ressarcimento quase nunca ocorrem de parte das vítimas. Nem mesmo quando sofreram por décadas as consequências dos abusos e, portanto, não puderam se dedicar a nenhuma atividade regular remunerada, o casamento delas terminou ou sofreram por doença mental. Esta também é uma consequência da violência sofrida: as mulheres abusadas internalizaram o fato de que nada valem, de que não têm o direito de reivindicar nada por si mesmas. E isso é ainda mais forte, pois elas foram especificamente levadas a pensar dessa maneira.

“Você não precisa ser grata”, digo a uma mulher ao telefone, “quando alguém na igreja a ouve. Você tem o direito”. Muitas das mulheres vítimas de abuso mantêm contato entre si. Algumas gostariam de se colocar em rede e agir em conjunto com as outras. A situação parece pairar no ar. Talvez a década de 2020 se torne a década das mulheres na Igreja, a década em que finalmente venha à luz a que abusos as mulheres foram e são expostas na própria Igreja.

Durante muito tempo, a situação não parecia tão extensa. A marginalização das mulheres na Igreja não é um descuido, é algo desejado. É claro que existem abusos contra as mulheres também nas igrejas evangélicas e reformadas. Mas na Igreja Católica Romana e também na Igreja Ortodoxa a situação é diferente. Aqui, as mulheres são explicitamente impedidas de acessar os ministérios mais altos por causa de sua feminilidade. Por outro lado, as mulheres praticamente assumem para si a realização de tarefas no âmbito social e de todos os serviços mal remunerados ou não remunerados. A falta de igualdade de gênero entra em jogo de maneira particularmente drástica no relacionamento entre as mulheres a serviço dos párocos e os párocos. As primeiras costumam trabalhar por um salário mísero e certamente se encaminham para uma velhice de pobreza, enquanto os padres a quem prestam serviço não precisam enfrentar nenhuma preocupação quanto ao dinheiro. Não surpreende que ali onde reina tamanho desequilíbrio de poder possam facilmente aparecer outras formas de violência.

Sem a plena igualdade dos direitos das mulheres nas Igrejas, a violência contra as mulheres nunca terminará. Por esse motivo, é realmente um prazer que, ao lado de Maria 2.0, agora até as grandes associações católicas femininas peçam a equiparação dos direitos das mulheres na Igreja Católica, incluindo o acesso a todos os ministérios. Quando a religiosa Maura O'Donohue enviou ao Vaticano no início dos anos 1990, seus levantamentos sobre a pesada violência sexual contra mulheres religiosas em 23 países, nada aconteceu durante anos. No entanto, ela descrevia quase sem exceção casos extremos, incluindo relatos chocantes sobre padres que violentaram freiras e depois as forçaram a abortar. Algumas freiras morreram por causa de abortos realizados de maneira não profissional.

Também na década de 1990, os três psiquiatras John Chibnall, Paul Duckro e Ann Wolf fizeram um levantamento em St. Louis, Missouri, entre religiosas estadunidenses sobre violência sexual. Uma religiosa em cada três entrevistadas admitiu ter sofrido violência sexual no convento. Os pesquisadores haviam previamente prometido não emitir nenhum comunicado de imprensa sobre seus resultados. Portanto, foram publicados apenas em duas revistas religiosas. Também na Alemanha, as vítimas tentaram conseguir serem ouvidas, mas com pouco sucesso, mesmo em casos de figuras importantes como a um bispo auxiliar de Mainz que, a uma mulher para qual fazia a direção espiritual, ofereceu "atenção corporal" (aquela foi a tomada de posição da diocese na época). A mulher falou de coerção sexual. Mas nem para a diocese nem para o Vaticano aquilo pareceu uma razão para abrir um processo contra o bispo auxiliar. Que, depois de renunciar ao cargo de bispo auxiliar em 2003, ainda conseguiu desempenhar sua atividade pastoral.

Mas, embora os responsáveis eclesiásticos tenham ficado em silêncio por décadas, agora um processo está lentamente começando a trazer esperança. A atenção foi despertada pelo fato de os relatórios de O'Donohue em 2001 vazarem e serem divulgados. Desde então, e muitas vezes sob o radar das autoridades do Vaticano, são cada vez mais numerosas as vítimas que se colocam online. O esquema é sempre o mesmo: assim que uma vítima em algum lugar do mundo se manifesta publicamente com nome e rosto, outras vítimas se ligam a ela; também se somam operadores das mídias, pesquisadores e, não últimos, inclusive encarregados eclesiásticos. Esse processo vem ocorrendo há alguns anos em diferentes áreas linguísticas, muitas vezes separadas entre si.

Na Índia, as religiosas se solidarizam com uma freira que afirma ter sido estuprada por um bispo. Na França, se colocam em rede mulheres que foram abusadas pelo fundador da Communauté Saint-Jean. Independente das fronteiras de línguas ou nações, vítimas como a teóloga Rocio Figueroa, que ensina na Nova Zelândia, não têm mais medo de falar diante das câmeras ou em eventos eclesiais no Vaticano.

É digno de nota o fato de a Igreja parecer se abrir para esse tema. Há um ano, o L'Osservatore Romano escreveu pela primeira vez sobre abusos sexuais de mulheres religiosas por padres. Quando uma pergunta a esse respeito foi feita ao Papa Francisco durante uma conferência de imprensa, ele - diferentemente de seus antecessores - admitiu o problema com franqueza, até falou sobre escravidão sexual e disse que a Igreja tinha que fazer mais contra essa realidade. O papa depois reforçou essa declaração com palavras fortes, a última vez em seu discurso de Ano Novo, no qual definiu a violência contra as mulheres de "profanação a Deus".

Mesmo que isso não seja imediatamente evidente, o que o papa faz sobre esse assunto, com sua retórica, produz abertura. Tornou-se possível na Igreja falar e investigar sobre a violência contra as mulheres na própria Igreja. Por exemplo, em setembro, Makamatine Lembo, membro da Comissão Pontifícia de Defesa dos Menores, apresentou a primeira dissertação sobre o assunto na Pontifícia Universidade Gregoriana. Enquanto isso, as grandes organizações religiosas internacionais exortam suas irmãs a se manifestarem se forem vítimas de violência sexual.

 

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