Como Jean Delumeau via o futuro do cristianismo

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Um gargarejo nos salvará? Enxaguar a boca e o nariz por 30 segundos com produtos de uso comum reduz muito a carga viral

    LER MAIS
  • Karl Rahner sobre o que significa amar Jesus

    LER MAIS
  • Nós precisamos repensar radicalmente a forma como vivemos e trabalhamos

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


22 Janeiro 2020

O cristianismo está sem fôlego? “Não acredito na morte do cristianismo, nem na morte da religião”, respondeu-nos Jean Delumeau. O historiador e acadêmico morreu no dia 13 de janeiro de 2020 aos 96 anos.

A entrevista é de Virginie Larousse, publicada por Le Monde des Religions, 25-02-2016. A tradução é de André Langer.

Ele foi um dos maiores historiadores do nosso tempo. Jean Delumeau, especialista do cristianismo no Renascimento, ocupou durante muitos anos a cadeira de História das Mentalidades Religiosas no Ocidente Moderno no Collège de France. Em 2015, aos 93 anos, publicou seu livro-testamento, L'Avenir de Dieu (O futuro de Deus, CNRS Éditions), no qual completou suas fascinantes pesquisas sobre as mentalidades religiosas e explanou sinceramente sobre a fé que tinha. Nessa ocasião, tivemos a oportunidade de entrevistá-lo.

Nascido em 1923, o historiador e acadêmico francês Jean Delumeau é ex-aluno da École Normale Supérieure, professor titular de História, membro da Escola Francesa de Roma e doutor em Letras. Ensinou história na Escola Politécnica, na Universidade de Rennes II, na Escola Prática de Altos Estudos e na Universidade de Paris I. No Collège de France, ocupou de 1975 a 1994 a cadeira de História das Mentalidades Religiosas no Ocidente Moderno.

Eis a entrevista.

Em 1977, você escreveu um livro intitulado O cristianismo vai morrer? (Editora Bertrand, 1978). Qual é hoje a sua resposta a esta pergunta?

Minha resposta seria precisamente a que aparece no final deste livro. Depois de fazer esta pergunta que provocou um debate importante na época, concluí que o cristianismo não está morrendo, mas que precisava de um rejuvenescimento muito significativo. Penso que essa resposta ainda continua válida.

Como você visualiza essa reforma?

O cristianismo, e em particular o catolicismo, precisa se modernizar. Do meu ponto de vista, a medida de modernização mais importante consistiria em reabilitar o lugar das mulheres na Igreja. Os Evangelhos e as Epístolas de maneira alguma justificam o fato de que as mulheres sejam relegadas a segundo plano na liturgia católica e no governo da Igreja. Isso diz respeito principalmente ao catolicismo, mas também a outras crenças.

Em L’Avenir de Dieu (O futuro de Deus), escrevo que o aggiornamento da Igreja só se realiza realmente no dia em que o papa for uma mulher chinesa casada com um homem negro. É preciso levar a sério essa piada. O cristianismo perdeu o mundo do trabalho no século XX em nosso país; hoje está perdendo as mulheres. Só pode entrar na modernidade depois que o estatuto das mulheres for completamente revisado.

Acrescentemos a essa questão a descrição do relato do pecado original, onde a iniciativa do pecado é imputada a Eva. Ora, em nenhum lugar faz-se menção ao pecado original nos Evangelhos. Da mesma forma, a religião judaica nunca concedeu a esse episódio a importância que o cristianismo lhe deu. Eu também recomendo, mas é mais secundário, uma reescrita do Credo, cuja linguagem não fala mais aos nossos contemporâneos – penso nas fórmulas que dizem que Jesus “desceu aos Infernos”, “gerado, não criado”, “ressurreição da carne”... Não poderíamos simplesmente dizer que ele “foi sepultado”? Finalmente, a Igreja Católica deve acabar com o celibato dos padres e oferecer sobre este ponto uma liberdade de escolha.

A ação do Papa Francisco lhe parece adaptada aos desafios do nosso tempo?

Tenho a maior admiração pelo Papa Francisco, que deixou o palácio do século XVI para morar, de maneira mais modesta, na Residência Santa Marta. Ele deu ao catolicismo uma nova direção que me parece irreversível, abandonando o luxo e o orgulho em favor de colocar em prática as virtudes do Evangelho. A religião deve se colocar no nível do maior número de pessoas e tornar-se serva da humanidade. No entanto, para reformar o catolicismo, é necessário mais. Francisco terá tempo suficiente para estabelecer uma nova configuração da Igreja? Será que ele ousará promover mulheres para cargos gerenciais na hierarquia? Espero que sim.

Outra ameaça é a da divisão das Igrejas. O catolicismo não corre o risco de ser dominado pela onda evangélica?

Eu não diria “dominado”. Não sei qual é o futuro do cristianismo. O que posso dizer é o que espero. Penso que todas as denominações religiosas, sejam elas quais forem, convergem na convicção de que, quando deixarmos esta terra, seremos acolhidos no lugar da felicidade definitiva. Conforme os dados, o catolicismo permanece numericamente mais importante do que as outras denominações cristãs, o que faz do cristianismo ser a religião mais praticada no mundo.

O fundamentalismo islâmico pode reduzir o cristianismo a nada?

Esse fanatismo é assustador e me preocupa mais – mesmo que eu não esteja convencido de que será vencido pelas armas. No entanto, duvido que o islã possa derrubar o cristianismo. Parece-me que o cristianismo tem vantagens para amanhã que o islã não possui, e em particular essa fórmula cristã fundamental: “Amai-vos uns aos outros”. No islã, o mandamento do amor diz respeito apenas aos muçulmanos entre si. Acredito que a carta do amor ao próximo tem mais futuro do que a carta bélica do islã fundamentalista.

Em que a mensagem cristã permanece atual em uma sociedade secularizada?

Esta é uma pergunta muito interessante. A mais bela contribuição do cristianismo reside precisamente nesta frase, “Amai-vos uns aos outros”. Este mandamento de Jesus foi concretizado de várias maneiras, tanto em obras de caridade quanto em produção artística e literária. Certamente, eu tomaria cuidado para não afirmar que todas as obras cristãs foram colocadas sob o signo da caridade. Mas a essência do cristianismo encontra-se nesta frase de Jesus.

A história recente da humanidade, em particular desde a Revolução Francesa para o Ocidente, foi marcada por revoluções técnicas extremamente rápidas. Se elas foram salutares em certos aspectos, provocaram o triunfo de um capitalismo que esmagou uma grande parte da humanidade. A salvação material e espiritual da humanidade, na minha opinião, só pode vir de uma profunda mudança na condição em que bilhões de homens ainda vivem. O cristianismo concebe os homens como iguais diante de Deus. Não é o dinheiro que decidirá nosso lugar no paraíso.

Acredito que a mensagem do amor pelo outro, com as consequências que dela podemos extrair no nível social, é portador de caminhos para o futuro que podem permitir que a humanidade escape dessa tirania do dinheiro e do poder em que nos afundamos.

A chamada espiritualidade laica não poderia responder à busca de significado que atormenta nossos contemporâneos?

Penso que todas as espiritualidades se encontram pelo alto. Mas nem todas colocam o acento na mesma coisa. Não podemos conceber um futuro melhor para a humanidade sem uma boa dose de espiritualidade destacando a doação mútua e o amor uns pelos outros.

Você é daqueles que pensam que estamos testemunhando atualmente um retorno do religioso, ou daqueles que acreditam que esse retorno é ilusório e constitui uma espécie de estremecimento final da religião?

Para dizer a verdade, não me sinto com alma de profeta. Qual será o futuro da humanidade, eu não sei. No entanto, não penso que estamos caminhando para uma sociedade sem Deus, mesmo que se possa ter uma impressão disso no Ocidente. Não imagino que a humanidade fique sem a convicção de que existe um além após a morte. Não acredito na morte do cristianismo, nem na morte da religião.

Existe uma maneira “contemporânea” de crer em Deus, e em que ela se distinguiria da maneira dos tempos antigos, mais supersticiosa?

Eu escrevi três livros sobre a história do paraíso. No último volume, observo que, mesmo para aqueles que hoje se chamam cristãos, tornou-se muito difícil representar o paraíso. A arte do passado retratava paraísos magníficos. Hoje, temos dificuldades para decorar as igrejas, por isso o recurso à arte abstrata. Estou convencido de que existe uma maneira contemporânea de crer em Deus, mas que não há mais uma maneira contemporânea de representar o destino dos eleitos, o paraíso. Portanto, provavelmente estamos muito mais preocupados com isso do que as pessoas do século XV.

Apesar da modernidade e dos progressos da ciência, ainda estamos plenamente conscientes do imenso desconhecido que nos cerca. Sabemos infinitamente mais que nossos ancestrais e, no entanto, estamos cercados de mistérios por toda parte – incluindo nosso próprio mistério. Da minha parte, acredito no futuro do homem em um paraíso, mas deixo ao Senhor o cuidado de organizar esse paraíso como ele quiser...

Você trabalhou muito sobre as noções de medo e felicidade na história. Você diria que o homem do século XXI é mais atormentado, menos feliz que o homem do século XV?

Cada século é tentado a pensar que é pior do que aqueles que o precederam. Quando conhecemos a devastação que a bomba atômica pode provocar, só podemos ficar sem palavras. É certo que nunca antes pesaram sobre a humanidade ameaças tão grandes quanto as que conhecemos hoje. No entanto, continuamos a viver, o que significa que conseguimos criar na terra condições de felicidade que não existiam antes. O melhor e o pior coexistem.

Ao longo das vicissitudes da vida, sua fé cristã sempre permaneceu intacta?

Fui criado na fé católica por pais praticantes. Minha fé mudou muito. Sinto-me muito de acordo com esta frase da poetisa e cantora Mannick: “Das respostas a perguntas, eu sobretudo desaprendi”. Não acredito mais no paraíso terrestre, nem em um pecado original, como imaginou São Paulo, ou seja, que teria condenado a humanidade ao inferno se não fosse salvo pela redenção; mesmo Jesus nunca falou do purgatório.

Durante vários anos da minha vida, ensinei catecismo para crianças, inclusive quando estava no Collège de France. Tentei não enganá-las sobre o que eu acreditava. Além disso, tive a sorte de, ao longo da minha vida, estar ao lado de cristãos de primeira linha, a começar por colegas de classe. Os santos existem; eu conheci alguns.

O que você acha do nosso tempo?

O mundo está mudando a uma velocidade tal que muitas pessoas não sabem mais onde estão. Devo dizer que sou um pouco assim? Como historiador, estou convencido de que nunca houve um período da história da humanidade comparável ao que vivemos, com tais avanços científicos e técnicos. Vivemos diariamente em uma situação de permanente transformação que não sabemos aonde isso nos levará. Olhando para o curso da minha vida, penso que tive muita sorte em comparação com as gerações mais jovens. Isso vai acabar em catástrofe? Eu não sei. O pior é possível. O melhor também.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Como Jean Delumeau via o futuro do cristianismo - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV