Medo do outro (e de si mesmo). Entrevista com Zygmunt Bauman

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20 Outubro 2016

"É uma luz. Única no fim do longo e escuro túnel que estamos atravessando. É uma luz misteriosa e brilhante". Repete duas vezes, em duas frases, quando fala do Papa Francisco e do encontro de Assis, no mês passado.

A entrevista é de David Perillo, diretor da revista Tracce, publicada por L’Osservatore Romano, 14-10-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Noventa e um anos no próximo mês, judeu de origem, polonês de nascimento e cosmopolita por vocação (viveu entre Varsóvia, Londres e Tel Aviv, antes de radicar-se em Leeds, no Reino Unido), Bauman é um dos mais famosos intelectuais - e prolíficos - do mundo. Um homem capaz de fotografar o mundo e seus habitantes, em detalhes, olhar afiado e, ao mesmo tempo, carregado de empatia. Como o que está dirigindo, há algum tempo, ao fenômeno da imigração. Melhor ainda, que dirige aos migrantes, que minam nossas certezas, tornam-se alvo fácil em quem descarregar a insegurança surda, profunda e impossível de travar com as soluções propostas por esta política feita de muros e homens fortes.

Vamos começar a partir daí, então. O que é essa "insegurança existencial"? De onde vem?

Kant, o explorador mais incansável dos mistérios da forma exclusivamente humana de estar no mundo, - a cuja sabedoria, todos nós, de alguma forma, somos devedores, herdeiros excitados ou desesperados -, na Crítica da Razão Prática escreveu a célebre frase: "Duas coisas enchem a mente de maravilha e veneração, sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e mais longamente a reflexão se ocupa delas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim". O "céu estrelado" significa aquilo que está além da capacidade humana, da nossa capacidade de enfrentar; e a "lei moral" indica os dilemas entre os quais os seres humanos estão condenados a escolher. Porém, mais do que um século antes dessas palavras, Blaise Pascal tinha-se aprofundado naquela angustiante e assustadora inadequação: "Quando considero a curta duração da minha vida, absorvida pela eternidade que a precede e por aquela que lhe segue, o pequeno espaço que ocupo e que vejo, mergulhado na imensidão infinita de espaços que ignoro e que me ignoram, assusto-me e surpreendo-me por ver-me aqui, em vez de lá, agora ao invés de então. Quem me colocou? Pela vontade de quem este lugar e este tempo me foram destinados?". Para então chegar à conclusão: "Sendo incapaz de eliminar a morte, a miséria e a ignorância, os homens decidiram, para serem felizes, não pensar sobre essas coisas". O problema é que, à medida que tentamos furiosamente seguir essa decisão, reflexão e pensamento, eles permanecem teimosamente partes inevitáveis de nossa condição. Daí a ''insegurança existencial" esculpida de forma indelével na maneira do homem estar no mundo. Este é o lugar de onde vens e do qual não podes escapar.

O primeiro reflexo dessa insegurança é o "medo do outro". O senhor explicou muito bem por que os “estrangeiros às nossas portas" nos assustam tanto. Mas, não será por que, no fundo, há também o medo de interrogarmo-nos sobre nós mesmos? O outro que bate à minha porta interpela-me inevitavelmente sobre quem sou, que ideia tenho da vida, dos relacionamentos, sobre o que tem valor ou não... Levantar muros é também uma forma de escapar destas perguntas?

A sensação de "insegurança" deriva de uma mistura de incerteza e ignorância: sentimo-nos humilhados, porque inadequados à nossa tarefa, e o resultado é o colapso da estima e da confiança em nós mesmos. É algo que afeta a todos. Agora, "o outro" - especialmente aqueles que classificamos como desconhecidos, estranhos ou estrangeiros - são particularmente fecundos em reforçar uma sensação como essa.

Por quê?

O que transforma estrangeiros em perigos - perigos assustadores, sinistros, exatamente devido à sua repreensível impossibilidade de serem identificados - é a ausência do conhecimento real de suas intenções e do seu código de conduta. Faltam-nos as habilidades necessárias para enfrentá-los adequadamente e responder às suas jogadas. Além disso, há também aquele outro fator crucial que o senhor observava antes. Os estrangeiros – sobretudo os migrantes, os recém-chegados - tendem a questionar o que "nós", os nativos, somos, ao menos no reino das opiniões (ou seja, querem saber no que cremos, mas sobre isso nunca refletimos). Eles nos estimulam, na verdade, quase nos forçam a explicar como perseguimos nossos objetivos de vida. Para dar as razões das convicções e comportamentos que nos parecem óbvios, evidentes, e por isso autoexplicativos. Ao fazer isso, portanto, nos atrapalham. Perturbam nossa paz espiritual e afetam nossa segurança, tão necessária para uma ação decisiva. Quantos de nós gostaríamos de desfrutar de uma tal situação?

Em "Conversazioni su Dio e l’uomo”, o senhor disse que "o momento em que nasce a incerteza é o momento em que nasce a moralidade, e, o eu moral, consciente de caminhar sobre uma corda bamba. Condenando os homens a escolher, (...) Deus os convida a tomar parte na obra da criação". Não é que, diante de problemas tão grandes, revela-se também que temos medo deste "convite"? Em essência, estamos com medo da nossa liberdade? E, se sim, por quê?

É uma velha e longa história... Talvez até mesmo uma constante, visto que as rebeliões contra a liberdade, afinal, se repetem com surpreendente regularidade; parece impossível, mas toda intrépida luta contra a escravidão, a opressão e a restrição da liberdade, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, empurram o pêndulo das disposições e paixões para uma virada de 180 graus, aumentando o número daqueles que estão dispostos a aceitar – até mesmo a querer - o advento de nova "repressão". Assim, as portas fechadas tendem a aumentar. Este fenômeno foi descrito, em detalhes, por Erich Fromm, em seu clássico Fuga da Liberdade. Hoje - pelo menos aqui no Ocidente, e entre as gerações felizes por nunca terem provado, em primeira pessoa, das delícias de uma vida sob o peso do despotismo e da tirania - estamos vivendo um outro giro semelhante do pêndulo, desencadeado pelos mesmos fatores do passado. O fato é que a liberdade só pode vir casada com o peso e o risco da responsabilidade. Para um número crescente de pessoas incitadas, convencidas e instigadas por um número crescente de aspirantes (e frequentemente bem sucedidos) caçadores de voto, como os vários Trump, Marianne Le Pen, Orban ou Fico, parece um bom negócio trocar o direito de escolher, ligado à responsabilidade, pesado demais para ficar muito tempo sobre os ombros de um indivíduo, por cortes na ordem das liberdades pessoais. Quanto mais fracos os ombros de cada indivíduo, mais pesadas são as responsabilidades descarregadas sobre ele, com fenômenos como a privatização e a mercantilização das funções sociais, patrocinadas pelo Estado e reforçadas pelo mercado. O resultado que podemos esperar é o crescimento de uma multidão de "homens e mulheres fortes", que vislumbram a oportunidade de ganhos eleitorais, e não esperam outra coisa senão ceder a essa tentação.

É um grande risco...

A verdade é que cresce, sempre mais, o número de pessoas expostas, todos os dias, aos riscos, às armadilhas e às emboscadas de uma vida vivida sob as regras do mercado, cuja nostalgia do "Paraíso perdido" coincide com o libertar-se de ter que escolher; mais precisamente, com o cancelamento do dever de cuidar e de contribuir para o bem-estar do mundo, e pela hospitalidade dos seres humanos que aqui vivem. Mas, o sonho de seguir o exemplo de Pôncio Pilatos, e lavar as mãos na batalha entre o bem e o mal, moral e indiferença, verdade e falsidade, significa renunciar a dignidade humana. Ou seja (como nos foi ensinado por Kant e por Pico della Mirandola), renunciar exatamente àquele preciso "convite de Deus", dirigido exclusivamente à espécie humana, de participar na conclusão do ato da criação. E que, afinal das contas, é o motivo pelo qual foi dado aos homens a razão, a sociabilidade e a liberdade de escolha.

O que pode superar o medo?

Certamente, não objetivos a curto prazo, cortes e soluções instantâneas. Neste ponto, fiquei impressionado com a intervenção do Papa Francisco ao Prêmio Carlos Magno. Depois de destacar o aumento, a assimilação e a prática diária da "cultura do diálogo", como a estrada mestra para a coexistência pacífica entre os homens - e, ao mesmo tempo, para um gradual, mas constante desvanecimento dos medos recíprocos - salientou a necessidade de introduzir a arte do diálogo em todos os níveis de ensino. Claro, a educação é uma estratégia oposta às campanhas una tantum; é programada para ter efeitos duradouros e, de preferência, irreversíveis, precisa de tempo - talvez até um tempo que se estenda a mais gerações; ela exige paciência e firme determinação, capacidade de resistir ao impacto congelante dos tropeço, erros e falhas ocasionais, inevitáveis. Além disso, deve-se notar que, numa época como a nossa, marcada pelo acesso universal aos meios de informação e, por uma maciça e onipresente pressão de publicidade e "relações públicas", a educação já não é mais(como tinha sempre sido) uma atividade limitada à escola; por mais que os programas escolares possam ser bem elaborados, não são mais os únicos a incidir na formação da mentalidade e do caráter. Que tenham sucesso sobre a superabundância dos concorrentes, está bem longe de ser óbvio.

O senhor fez alusão até mesmo ao Papa. Nos últimos tempos o senhor falou dele, muitas vezes, com admiração. O Papa disse que, para abordar a questão da migração "devemos estudar e aplicar sua análise" e "esperar que a sua palavra se encarne em nossas ações". Por quê? O que o senhor pensa dele?

Penso que Francisco é o dom mais precioso que a Igreja Cristã ofereceu ao nosso conturbado mundo, perdido em seus caminhos, confuso, sem bússola e agora à deriva. Ele deu vigor à esperança, já murcha, de um mundo alternativo e melhor, feito para atender às necessidades e sonhos do homem. Creio que seja a única figura pública em cena movido por este desejo e capaz de persegui-lo. Sua voz vai muito além do círculo incestuoso das elites políticas: alcança as massas que os gestores dos alto-falantes não conseguem, ou não se preocupam em atingir, aquelas deixadas sozinhas à procura de uma maneira de sair da atual incerteza.

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