O enorme triunfo dos ricos, ilustrado por novos dados impressionantes

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11 Dezembro 2019

O triunfo dos ricos, uma das histórias definidoras do nosso tempo, é geralmente descrito como o reflexo de dois fatores. O primeiro, é claro, é a explosão de renda entre os que mais ganham, na qual uma ínfima minoria sugou uma parcela crescente dos ganhos das últimas décadas de crescimento econômico.

O segundo fator – que será fundamental para a corrida presidencial de 2020 – tem sido o declínio oculto da progressividade do código tributário no topo, no qual os mais ricos dessas mesmas décadas viram suas taxas efetivas de impostos caírem constantemente.

A reportagem é de Greg Sargent, publicada por The Washington Post, 12-12-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Coloque esses dois fatores juntos, e eles contarão uma história sobre a crescente desigualdade dos EUA que, de certa forma, é ainda mais dramática do que cada um por si só.

Uma nova análise preparada a meu pedido por Gabriel Zucman – o economista e “detetive da riqueza” francês que ficou famoso por rastrear a riqueza oculta dos super-ricos – ilustra essa dupla história de uma forma muito convincente e inovadora.

A principal conclusão: entre os 50% da parte de baixo, a renda anual média real, mesmo após os impostos e as transferências, subiu escassos 8.000 dólares desde 1970, passando de pouco mais de 19.000 dólares para pouco mais de 27.000 dólares em 2018.

Pelo contrário, entre o 1% da parte de cima, a renda média, mesmo após os impostos e as transferências, triplicou desde 1970, aumentando em mais de 800.000 dólares, de pouco mais de 300.000 dólares para mais de 1 milhão de dólares em 2018.

Entre o 0,1% de cima, a renda média, após os impostos e as transferências, aumentou cinco vezes, de pouco mais de 1 milhão de dólares em 1970 para mais de 5 milhões de dólares em 2018. E entre os 0,01% de cima, ela aumentou quase sete vezes, de pouco mais de 3,5 milhões de dólares para mais de 24 milhões de dólares.

Estou enfatizando a frase “após os impostos e as transferências”, porque esse é o cerne da nova análise de Zucman. A ideia é mostrar o impacto combinado entre a explosão da renda antes dos impostos na parte de cima e o declínio da taxa efetiva de impostos pagos por esses mesmos ganhadores – em um único resultado.

A progressividade em declínio do código tributário é o assunto de “The Triumph of Injustice” [O triunfo da injustiça], um novo e ótimo livro de Zucman e Emmanuel Saez, seu colega economista de Berkeley. Ele registra o lento estrangulamento dessa progressividade na parte de cima.

Como eles demonstram, a taxa efetiva de impostos (federal, estadual, municipal e outros impostos) pagos pelos que mais ganham diminuiu constantemente desde os anos 1950 e 1960, quando o código tributário era realmente bastante progressivo, a tal ponto que os grupos de renda mais alta pagam pouco mais, em termos percentuais, do que a parte de baixo.

De fato, em 2018, os 400 que mais ganham pagaram pela primeira vez uma taxa geral de imposto efetiva mais baixa do que os estadunidenses da classe trabalhadora. Existem muitas razões para esse declínio radical da progressividade, incluindo a elisão fiscal nacional e internacional, a redução dos impostos imobiliários e corporativos, e o repetido redimensionamento das principais taxas marginais.

Eu pedi que Zucman calculasse os totais médios em valores brutos em dólares que cada grupo de renda levou para casa ao longo das décadas – após impostos e transferências. Isso inclui impostos federais, estaduais e de folha de pagamento de vários tipos, e gastos do governo com programas de transferência, incluindo Seguro Social, Medicare, Medicaid e benefícios por incapacidade e para os veteranos, entre outras coisas.

Zucman consegue fazer isso porque ele e Saez criaram um banco de dados para fazer os cálculos do novo livro, e esse banco de dados inclui todas as informações de renda, impostos e transferência de todos os níveis do governo quanto eles foram capazes de reunir.

Aqui estão os resultados de Zucman:

Fonte: Gabriel Zucman e Emmanuel Saez (Gabriel Zucman/Greg Sargent)

Como observado, a renda real após impostos e transferências subiu um pouco entre os 50% da parte de baixo, enquanto saltou a um nível extraordinário entre os grupos com as rendas mais altas.

Enquanto isso, entre os estadunidenses de classe média na seção de 50% a 90% da escala de renda (às vezes chamada de “40 médios”), a renda média passou de pouco mais de 44.000 dólares em 1970 para pouco mais de 75.000 dólares em 2018.

“Após as transferências do governo, a renda da classe trabalhadora e média cresceu um pouco mais rápido do que antes, mas mesmo assim a sua taxa de crescimento da renda foi muito baixa”, disse-me Zucman. “Para a classe trabalhadora, sua renda após impostos e transferências mal aumentou.”

E, entre os 10% a 1% do grupo de cima, a renda média passou de pouco mais de 90.000 dólares em 1970 para mais de 185.000 dólares em 2018. Para esse grupo, a renda dobrou – eles mostraram ganhos reais. Mas a parte de cima decididamente não mostrou, e os ganhos dos “40 médios” foram comparativamente modestos.

Aqui está outro modo de ver o que aconteceu na virada de cada década:

Fonte: Gabriel Zucman e Emmanuel Saez (Gabriel Zucman/Greg Sargent)

Tudo isso oferece outra maneira de encarar um fenômeno que o filósofo político Samuel Moyn chamou de “vitória dos ricos”.

Esses dados ajudam a desmerecer argumentos frequentes contra o fato de tornar o código tributário muito mais progressivo. Leon Cooperman, financiador de hedge, escreveu recentemente uma carta chorosa para a senadora Elizabeth Warren (democrata de Massachusetts) – demonstrando o que Paul Krugman descreveu como um curioso filão bilionário de “autocomiseração” – argumentando que os super-ricos já pagam muito e que o atual código tributário é mais progressivo do que se pensa, depois de levar em consideração as transferências.

É verdade que os ricos costumam pagar muito. Mas o fato de que a renda, depois dos impostos, saltou para a estratosfera na parte de cima, mesmo que as taxas de imposto efetivas tenham caído drasticamente, mostra que a atual lei fiscal dos ricos não constitui, por si só, qualquer tipo de argumento significativo sobre a justiça da atual distribuição após os impostos.

Além disso, o exposto acima também mostra como o impacto dos programas de transferência tem sido limitado sobre a crescente desigualdade ao longo das décadas.

“As pessoas têm essa ideia de que a redistribuição do governo provocou parte do aumento da desigualdade, mas essencialmente não se trata disso”, disse-me Zucman.

Por fim, a análise de Zucman poderia dar sustentação aos argumentos progressistas para uma profunda revisão econômica estrutural. Até mesmo o plano de Joe Biden, que aumentaria as taxas de imposto sobre as empresas e retornaria as taxas de imposto de renda marginal da parte de cima para onde elas estavam antes dos cortes de impostos do presidente Trump, é surpreendentemente progressista, um sinal de como esse debate se deslocou.

O contexto mais amplo desse debate é que a renda do lar real explodiu positivamente na parte de cima, mesmo que mal tenha oscilado para a metade de baixo – a soma total de duas histórias separadas, mas entrelaçadas, que se desdobraram ao longo das décadas.

“Você tem duas tendências que se reforçam”, disse-me Zucman. “Houve um aumento na desigualdade de renda no mercado – o aumento na desigualdade de renda antes dos impostos. Ao mesmo tempo, o sistema tributário se tornou muito menos progressivo no topo da distribuição de renda.”

O ponto principal de Zucman: “O sistema tributário dos EUA é levemente progressivo na parte de baixo e no meio da distribuição, e depois se torna regressivo na parte de cima”.

Como mudar isso é um debate de que os progressistas vão gostar. Essas novas descobertas devem ajudá-los nisso.

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