Papa Francisco e a COP25: “Existe a vontade política de mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas e ajudar as populações mais pobres?”

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06 Dezembro 2019

A 25ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas - COP25 está ocorrendo em Madrid, de 2 a 13 de dezembro. Nesta quarta-feira, 04 de dezembro, o Vaticano divulgou a carta enviada pelo papa Francisco aos participantes. Segundo o Papa, o Acordo de Paris firmado em 2015, na COP21, ainda não é aplicado na prática: "lamentavelmente, após quatro anos, devemos admitir que essa consciência permanece bastante fraca, incapaz de responder adequadamente a esse senso de urgência".

Na carta, Francisco provoca as lideranças políticas e sociais sobre a falta de ímpeto em criar soluções à emergência climática e os seus efeitos sobre os mais pobres. "Devemos nos perguntar seriamente se existe a vontade política de destinar com honestidade, responsabilidade e coragem mais recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas, assim como para ajudar as populações mais pobres e vulneráveis, que são as mais afetadas", escreve.

Para o pontífice, é necessário "refletir conscientemente sobre a importância de nossos modelos de consumo e produção e sobre os processos de educação e sensibilização para fazê-los coerentes com a dignidade humana".

Abaixo, compartilhamos a íntegra da carta. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a carta.

 

Mensagem do Papa Francisco aos participantes na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, em Madrid (2 a 13 de dezembro de 2019)

A Sua Excelência, a Sra. Carolina Schmidt, ministra de Meio Ambiente do Chile, presidente da COP25, vigésimo quinto período de sessões da Conferência dos Estados Membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (Madrid, 2 a 13 de dezembro de 2019).

Em 12 de dezembro de 2015, a COP21 adotou o Acordo de Paris, cuja aplicação “requererá um compromisso concertado e uma dedicação generosa por parte de cada um” [1].

Sua rápida entrada em vigor, em menos de um ano, e as numerosas reuniões e debates destinados a refletir sobre um dos principais desafios para a humanidade [2], o das mudanças climáticas, e a identificar as melhores formas de aplicar o Acordo de Paris, revelaram uma crescente tomada de consciência por parte dos diferentes atores da comunidade internacional sobre a importância e a necessidade de “trabalhar juntos na construção de nossa Casa Comum” [3].

Lamentavelmente, após quatro anos, devemos admitir que essa consciência permanece bastante fraca, incapaz de responder adequadamente a esse senso de urgência por ações rápidas requeridas pelos dados científicos que estão disponíveis, como os descritos nos recentes relatórios especiais do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) [4]. Esses estudos mostram que os compromissos atuais dos Estados para mitigar a mudança climática e se adaptar a ela estão muito distantes de ser os que realmente são necessários para alcançar os objetivos estabelecidos no Acordo de Paris.

Demonstram o quão longe estão as palavras das ações concretas!

Na atualidade, existe um crescente acordo sobre a necessidade de promover processos de transição, assim como uma transformação de nosso modelo de desenvolvimento, para fomentar a solidariedade e reforçar os fortes vínculos entre a luta contra a mudança climática e a pobreza. Assim demonstram também as numerosas iniciativas que se puseram em prática ou estão em marcha não somente por parte dos governos, mas também das comunidades locais, do setor privado e da sociedade civil. No entanto, segue sendo motivo de grande preocupação a capacidade desses processos de respeitar o calendário exigido pela ciência, assim como a distribuição dos custos necessários.

A partir desta perspectiva, devemos nos perguntar seriamente se existe a vontade política de destinar com honestidade, responsabilidade e coragem mais recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas, assim como para ajudar as populações mais pobres e vulneráveis que são as mais afetadas [5].

Numerosos estudos nos dizem que ainda é possível limitar o aquecimento global. Para isso necessitamos de uma vontade política clara, antenada e forte, decidida a seguir um novo rumo que aponte a reorientar os investimentos financeiros e econômicos para aquelas áreas que realmente salvaguardam as condições de uma vida digna da humanidade, em um planeta saudável para hoje e para amanhã.

Tudo isso nos convida a refletir conscientemente sobre a importância de nossos modelos de consumo e produção e sobre os processos de educação e sensibilização para fazê-los coerentes com a dignidade humana.

Deparamo-nos com um “desafio de civilização” em favor do bem comum e uma mudança de perspectiva que situa a dignidade no centro de nossa ação, que se expressa claramente no “rosto humano” das emergências climáticas. A oportunidade segue existindo, porém não devemos permitir que se perca. Devemos aproveitar essa ocasião por meio de ações responsáveis nos âmbitos econômico, tecnológico, social e educativo, sabendo muito bem que nossas ações são interdependentes.

Os jovens de hoje mostram uma grande sensibilidade aos complexos problemas que surgem desta “emergência”. Não devemos sobrecarregar as próximas gerações com os problemas causados pelas anteriores. Devemos dar-lhes, em troca, a oportunidade de recordar a nossa geração como aquela que renovou e atuou – com consciência honesta, responsável e corajosa – a necessidade de colaborar para preservar e cultivar nossa Casa Comum. Oxalá possamos oferecer à próxima geração razões concretas para esperar e trabalhar por um futuro bom e digno! Espero que este espírito anime o trabalho da COP25, à qual desejo muito êxito.

Receba, senhora presidente, meus mais cálidos e cordiais cumprimentos.

Vaticano, 1 de dezembro de 2019.
Francisco

Notas

[1] Palavras depois do Ângelus, 13 de dezembro de 2015.
[2] Cfr. Laudato si’, n. 25.
[3] Cfr. Laudato si’, n. 13. Cfr. Mensagem à COP23, Marrakech, 10 de novembro de 2016.
[4] Cfr. IPCC: Summary for Policymakers of the Special Report on the impacts of global warming of 1.5°C above pre-industrial levels and related global greenhouse gas emission pathways, in the context of strengthening the global response to the threat of climate change, sustainable development, and efforts to eradicate poverty, 6 October 2018. IPCC: Summary for Policymakers of the Special Report on Climate Change, Desertification, Land Degradation, Sustainable Land Management, Food Security, and Greenhouse Gas Fluxes in Terrestrial Ecosystems, 7 agosto 2019; IPCC:Summary for Policymakers of the Special Report on The Ocean and Cryosphere in a Changing Climate, 24 de setembro de 2019.
[5] Cfr. Papa Francisco. Vídeo-mensagem para a Cúpula sobre a Ação Climática, Nova Iorque, 23 de setembro de 2019.

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