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27 Novembro 2019

Sobre a viagem do Papa ao Japão, transcrevemos o artigo de Raniero La Valle, publicado por Il Manifesto, 26-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Apenas um instante, tudo foi devorado por um buraco negro de destruição e morte”. Assim o Papa falou em Hiroshima. Mas ele é o único que permanece ancorado naquele buraco negro, o único que coloca em risco sua autoridade de líder para falar daquele buraco negro para um mundo que parece querer correr para despencar nele novamente. 

Aqueles que souberam compreender desde o início a inesperada novidade do pontificado de Francisco não se surpreenderão com as palavras muito firmes que ele proferiu em Nagasaki e Hiroshima, de "essas terras que experimentaram como poucas outras a capacidade destrutiva a que pode chegar o ser humano" para condenar as armas nucleares como "um crime" e o próprio pensamento que as concebeu. Um Papa que começou em Lampedusa ("vergonha! Salvar os bancos e não os náufragos"), que no memorial do Holocausto em Israel renomeou o pecado original como o pecado não de Adão, mas de Caim, que abriu o Ano Santo não em Roma, mas em Bangui, que convocou toda a Igreja à beira do leito de uma Amazônia que morre pelo fogo causado pelos homens, não podia deixar de subir naquele buraco negro. Subiu como no verdadeiro novo altar, no qual o humano, e também o divino, são queimados para o sacrifício.

E disse estas palavras: "Com convicção, desejo reiterar que o uso da energia atômica para fins de guerra é, hoje mais do que nunca, um crime, não apenas contra o homem e sua dignidade, mas contra qualquer possibilidade de futuro em nossa casa comum. O uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, assim como a posse de armas nucleares é imoral, como eu disse há dois anos. Seremos julgados por isso... Como podemos falar de paz enquanto construímos novas e formidáveis ​​armas de guerra?". 

Como estão longe os bispos estadunidenses que no Concílio, para justificar a estratégia de dissuasão e o equilíbrio do terror, impediram que se condenasse até a simples posse de armas nucleares! Agora, a Igreja, enquanto o Papa for o Papa, também condena sua fabricação e comércio, porque a corrida armamentista, disse ele assim que chegou a Nagasaki, "desperdiça recursos preciosos que poderiam ser usados ​​para o benefício do desenvolvimento integral dos povos e para a proteção do meio ambiente natural. No mundo de hoje, onde milhões de crianças e famílias vivem em condições desumanas, o dinheiro gasto e as fortunas obtidas para fabricar, modernizar, manter e vender as armas, cada vez mais destrutivas, são um atentado contínuo que clama ao céu". 

E acrescentou uma nova definição à paz, depois daquela de João XXIII ("a paz é fora da razão"), dizendo que "a verdadeira paz é desarmada": ou está desarmada ou não é, ou seja, não pode existir: "as armas, antes mesmo de causar vítimas e destruição, têm a capacidade de gerar sonhos ruins, exigir enormes despesas, interrompem projetos de solidariedade e trabalho útil, distorcem a psicologia dos povos. A verdadeira paz só pode ser uma paz desarmada". Não consiste apenas em um não fazer (não fazer a guerra), mas em construir na justiça o bem de todos. 

Justamente nós ficamos escandalizados ao saber que poucos ricos têm tanta riqueza quanto a metade mais pobre da terra, mas ainda mais deveríamos ficar indignados ao saber que a enormidade grotesca dos gastos em armamentos (que chegou, dizem os analistas, a US$ 1800 bilhões no ano passado) não apenas tira a esperança dos pobres, mas impede de colocar as mãos na verdadeira emergência que ameaça outro buraco negro para o mundo inteiro, aquele da devastação dos ecossistemas terrestres e o fim da própria história. 

Porque tudo está ligado. "É um erro grave pensar que hoje os problemas podem ser enfrentados isoladamente, sem considerá-los parte de uma rede mais ampla", disse o Papa Francisco em Tóquio. E não por acaso, falando no recente Congresso de Direito Penal, ele fez questão de dizer que estava prestes a colocar um novo pecado no Catecismo da Igreja Católica para o ecocídio, o pecado ecológico, que também grita, como a guerra, contra Deus e contra os homens. Porque se o sistema político não conseguir colocá-lo entre os crimes, ele o incluirá no pecado; e sabemos como, na história, os dois termos se tenham entrelaçados, até com bastante sorte. 

A verdade é que chegamos àquela virada epocal decisiva para o qual a salvação da humanidade e do mundo não é mais apenas o argumento das religiões e das Igrejas, mas a própria urgência da política e do direito. As duas salvações se encontram, se tornam uma só, fé e história, graça e liberdade, são levadas pelos fatos a se encontrarem em uma nova síntese, saem da dialética dos opostos. 

E, no entanto, justamente agora, a explosão de particularismos, de nacionalismos e dos soberanismos está destruindo aquela ordem internacional que, com tanto esforço, havia se começado a construir após o teste da Segunda Guerra Mundial. Na mensagem de Nagasaki sobre as armas nucleares, o Papa denunciou precisamente essa inversão que está em curso, que se manifesta no "desmantelamento da arquitetura internacional de controle dos armamentos". Estamos presenciando uma erosão do multilateralismo, ainda mais grave diante do desenvolvimento de novas tecnologias de armas; essa abordagem parece bastante incoerente no contexto atual marcado pela interconexão e constitui uma situação que requer atenção urgente e também dedicação de todos os líderes". 

Agora realmente os apelos, as denúncias e também milhões de vozes que se erguem das ruas não são mais suficientes. Deve ser corajosamente retomado o glorioso caminho do internacionalismo, a construção do multilateralismo. Este, hoje, é o verdadeiro "estado de exceção" no qual ontem os instalavam os antigos soberanos. Mas, para fazer isso, precisamos voltar à política, é preciso conceber e promover uma política para a Terra; é preciso fundar um direito capaz de ditar regras exigentes para todos, um constitucionalismo mundial e um sistema de garantias que o torne eficaz, precisamos de uma Constituição para a Terra.

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