França. O legado inapagável dos coletes amarelos

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19 Novembro 2019

Um colete amarelo gigantesco pendurado em uma janela chama a atenção do transeunte. Alguns metros depois, diante de um portal, aparece uma faixa escrita: “Casa do povo”, em pleno centro de Nantes, em um colégio católico abandonado que se tornou o novo epicentro dos coletes amarelos desta cidade no noroeste da França. Entre as paredes de concreto de um edifício ostensivamente abandonado, tentam manter a chama de indignação que em 17 de novembro do ano passado encheu de pessoas as estradas, praças e ruas da França e colocaram contra as cordas o presidente francês Emmanuel Macron.

A reportagem é de Enric Bonet, publicada por El Salto, 17-11-2019. A tradução é do Cepat.

Um ano após a irrupção explosiva dos coletes amarelos, as manifestações continuam sendo repetidas todos os sábados, mas são cada vez menores, exceto em ocasiões excepcionais, como nos protestos para comemorar, neste sábado, o primeiro aniversário. Embora as ruas estejam vazias, persiste um legado de solidariedade e construção do comum. A “Casa do povo” é uma boa prova disso.

“Nosso objetivo é reapropriarmos espaços comuns para tentar resolver a miséria atual e impedir que haja pessoas que durmam na rua”, diz Renz, de 37 anos. Esse militante, com “dedicação total por três anos”, mudou-se para Nantes em julho, quando promoveu a primeira “Casa do povo” desta localidade. Depois de serem expulsos do primeiro espaço, em outubro, estabeleceram-se no Colégio Notre-Dame-du-Bon-Conseil.

Sentado ao redor de uma mesa no pátio deste recinto, Renz lembra em detalhes como viveu o surgimento dos coletes amarelos, em 17 de novembro do ano passado. “Fiquei bloqueando a circulação em um centro comercial, durante uma semana, em Pau (sul da França), e depois fui para Saint-Nazaire, onde tentamos impedir o acesso a um dos principais portos industriais do país”, explica esse manifestante, com barba bem cumprida e inseparável de seu gorro de lã. Em Saint-Nazaire, perto de Nantes, descobriu a primeira “Casa do povo”, promovida no início de dezembro. Estes edifícios ocupados se multiplicaram, desde então, pelo território francês: Marselha, Bordéus, Caen, Lorient, Tours ...

“Os coletes amarelos permitiram às pessoas que não chegavam ao fim do mês que deixassem de se esconder. Estas saíram às ruas e disseram que estavam fartas”, diz Mathieu Herbomel, um hipnoterapeuta que nunca havia militado até o surgimento desse movimento. Agora, é um dos coordenadores da “Casa do povo” de Nantes. “Acolhemos cerca de 30 pessoas. Um terço delas são migrantes e outro terço são franceses sem teto”, destaca sobre esse espaço ocupado que se inspira no espírito do bairro anarquista de Atenas Exarchia e nas casas okupas de Barcelona e Madri. Além das assembleias semanais dos coletes amarelos, “há também reuniões de grupos de estudantes, ativistas ambientais e associações de acolhida de refugiados”.

“Macron nos permitiu descobrir a fraternidade”

As “Casas do povo” resultam na continuidade das milhares de praças ocupadas há um ano, quando os protestos começaram por meio do bloqueio de estradas. A presença de manifestantes foi permanente por semanas e meses, durante o inverno. As forças de segurança despejaram a maioria delas. No entanto, alguns coletes amarelos ainda resistem como galos. “Não conseguimos grande coisa por parte do presidente Emmanuel Macron, mas ao menos conseguimos que o movimento não parasse por um ano. Quando surgiu, ninguém acreditaria que duraria tanto tempo”, diz Erick Simon, de 58 anos, porta-voz dos coletes amarelos de Coutances, uma cidade normanda de 8.000 habitantes, localizada a 330 quilômetros a oeste de Paris, onde a praça des Îles foi ocupada quase continuamente, durante os últimos doze meses.

“Ao menos Macron nos permitiu descobrir uma fraternidade que anteriormente ignorávamos”, presume Simon sobre os fortes vínculos de solidariedade estabelecidos entre os coletes amarelos de sua região e, especificamente, de sua cidade. Lá comemoram, neste domingo, o primeiro aniversário, “preparando uma grande sopa para comer e debater com todos os vizinhos que estão na vizinhança da praça”. Essa reivindicação do local é uma das heranças mais fortes desse movimento transversal, que em dezembro conseguiu conter a ofensiva neoliberal do jovem presidente francês.

“A ocupação das praças permitiu criar novos coletivos de pessoas em áreas periurbanas e rurais, onde viviam de maneira muito isolada e individual”, defende o cientista político Laurent Jeanpierre, autor do livro In Girum. Les leçons politiques des ronds-points (La Découverte, 2019). Segundo esse professor da Universidade Paris 8, “representou um movimento de educação popular que deu origem a uma nova sociedade civil em regiões que estavam muito despolitizadas”. Para muitos coletes amarelos, esses protestos representaram a primeira militância de suas vidas. Então, descobriram “que a política não se resume apenas ao voto. Aprenderam que falar sobre os problemas cotidianos de saúde, emprego e transporte também é uma maneira de fazer política”.

Normalização das barricadas e dos distúrbios

Além da solidariedade das praças, a identidade dos coletes amarelos foi reforçada pela experiência do confronto com a polícia. “Inicialmente, não havia vontade de se manifestar através de distúrbios de forma insurrecional”, lembra Romain Huet, que publicou recentemente o livro Le vertige de lemeute. De la Zad aux gilets jaunes (PUF, 2019). Mas, fruto de sua vontade de se tornar visível no espaço público e perpetuar sua presença nos bairros ricos das grandes cidades, as barricadas e os distúrbios se tornaram uma forma habitual de se manifestar.

“Refletiram uma certa impotência política, já que não é possível expressar sua indignação apenas se manifestando de maneira pacífica”, acrescenta esse professor de comunicação da Universidade de Rennes sobre alguns protestos conflitantes que nos últimos meses se reproduziram em Hong Kong, Equador, Chile e, inclusive, na Catalunha.

São manifestações que experimentaram uma dura repressão das forças de segurança francesas. Isso se reflete no balanço das vítimas de violência policial, nos últimos doze meses: 2 mortos, 2.448 feridos, 315 manifestantes com ferimentos na cabeça, 24 que perderam um olho, 5 que ficaram sem mão...

Foi para denunciar esses abusos policiais que Gabin Formont criou, em dezembro de 2018, a mídia Vécu (Vivido), cuja página do Facebook já tem mais de 100.000 seguidores. “Não era normal que quase nenhum meio de comunicação falasse, em dezembro, sobre a violência policial”, afirma esse jovem de 29 anos, que não é jornalista de formação e que se manifestou nesse dia 17 de novembro, pela primeira vez em sua vida. Desde então, dedica-se à tarefa de “cidadão-repórter”. Diante do tratamento hostil dos grandes veículos de comunicação, os coletes amarelos preferiram se informar através de publicações alternativas, como Brut, ThinkerView, Le Média e a edição francesa da rede russa RT.

Um movimento com vocação municipalista?

Doze meses depois que o aumento do preço do combustível desencadeou esse protesto, “a raiva social permanece”, reconhece Jeanpierre. Embora os coletes amarelos sejam o movimento que mais obrigou Macron a ceder, ao adotar uma série de medidas sociais e reduções de impostos para a classe média no valor de 17 bilhões de euros, “as dificuldades econômicas persistem”, afirma este cientista político.

“O preço da gasolina não parou de aumentar. Também sobre a eletricidade e os produtos de primeira necessidade. O governo não mudou nada”, lamenta Laure Courbey, membro dos coletes amarelos em Nemours, na parte sul da região de Paris, onde mantém uma praça ocupada. De acordo com uma pesquisa do Instituto Elabe para a rede BFM TV, 55% dos franceses continuam apoiando as reivindicações dos coletes amarelos, embora 66% não desejem que suas mobilizações se intensifiquem.

Priscillia Ludosky e Jérôme Rodrigues, duas figuras do movimento, enviaram no final de outubro uma carta a Macron pedindo uma reunião antes do dia 16 de novembro. Uma solicitação negada. Seu objetivo era repassar as 59 propostas elaboradas através do “verdadeiro debate”, uma plataforma promovida pelos coletes amarelos como alternativa ao “grande debate” do presidente francês e que contou com um milhão de contribuições. São medidas voltadas à justiça tributária, ecologia solidária, reforço dos serviços públicos e transformação do sistema político.

Ludosky, que deu origem aos protestos com uma petição na internet contra o aumento do preço do combustível, com mais de um milhão de assinaturas, também anunciou, nesta sexta-feira, a criação de um lobby cidadão. Uma iniciativa com a qual deseja fazer emergir reivindicações locais e nacionais, sobretudo das áreas periurbanas e rurais. Outros “coletes amarelos” apostam em se estruturar através do modelo de assembleias. Cerca de 600 delegados das assembleias locais se reuniram, de 1 a 3 de novembro, em Montpellier, para discutir o futuro do movimento na quarta “assembleia das assembleias”.

“Também existe a vontade de se apresentar nas eleições municipais de março do próximo ano”, afirma Jeanpierre, que enfatiza que é o “movimento mais descentralizado da história recente da França”. Em grandes cidades como Bordeaux, Nice e Grenoble, mas também em pequenas como Commercy (nordeste), onde foi realizada a primeira “assembleia das assembleias”, grupos de coletes amarelos já preparam “listas cidadãs”. Suas expectativas são muito incertas. Nas últimas eleições europeias, as candidaturas que queriam incorporar o espírito dos protestos obtiveram muito poucos resultados.

“Nossa aposta é se concentrar na convergência de lutas”, defende, por outro lado, Herbomel. Este militante da “Casa do povo” de Nantes cita como demonstração do mal-estar persistente as recentes manifestações no setor de saúde e dos estudantes, depois que na semana passada um jovem de 22 anos tentou se matar em frente a um restaurante universitário, em Lyon. Os indignados franceses não só marcam de vermelho o calendário deste fim de semana, como também a greve de 5 de dezembro contra a reforma das aposentadorias. O legado dos coletes amarelos não se transmite, se transforma.

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