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29 Novembro 2018

De tanto brincar de colocar o povo contra as elites e fazer desse jogo retórico um instrumento eleitoral, o povo acabou indo à rua. O presidente francês, Emmanuel Macron, enfrenta há várias semanas um movimento chamado “os coletes amarelos”, que ocupou as ruas e bloqueou as rotas para protestar contra o aumento do preço dos combustíveis, concretamente o do diesel que, em 2019, passará a custar tanto como a gasolina comum.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 28-11-2018. A tradução é do Cepat.

Embora o chefe de Estado ainda não tenha cedido às demandas, sim, aceitou abrir um diálogo com uma força que foi se constituindo pouco a pouco com mais radicalidade, até dotar de um rosto e uma voz essa França escondida pelos meios de comunicação. Pequenos comerciantes e produtores, agricultores, motoristas de caminhão e artesãos compõem este movimento “social nebuloso” (Le Monde), em torno do qual os analistas não chegam a um acordo quando é o caso de defini-lo: de direita, de extrema-direita, populistas, os qualitativos se movem segundo os momentos. Os coletes amarelos parecem muito mais com o que ocorreu, a partir de 2007, na Itália, quando começou a surgir esse grupo ao qual se qualifica como “pós-ideológico”, ou seja, o Movimento Cinco Estrelas (M5S) que hoje cogoverna a Itália por meio de uma aliança com a extrema-direita.

Em um país formatado pela divisão ideológica, os coletes amarelos desconcertaram a presidência, o governo e a sociedade. São “inclassificáveis”, apontam muitos editorialistas. O semanário Le Nouvel Observateur escreve que “este movimento não se parece em nada ao conhecido até agora e marca uma guinada na vida política social francesa”.

Os argumentos deste setor não são novos. Para além de sua exigência vertebral de não pagar mais pelos combustíveis, sua narrativa reproduz o verbo dominante da extrema-direita e de setores da esquerda radical: o povo vítima das elites ignorantes, descoladas da realidade popular, indolentes frente ao sofrimento social de muitos níveis da sociedade, o povo esmagado por um sistema que olha para outro lado. Os coletes amarelos encenam o confronto entre uma espécie de França à antiga contra a França moderna e conectada que recebe todos os benefícios. Como é uma força eleitoral de certa consistência, todos os partidos políticos correm atrás desses coletes amarelos (a roupa obrigatória que deve ser levada nos carros) sem que, até o momento, estes tenham caído em sua influência.

Não convocaram multidões imponentes, mas sua influência começa a ser sentida quanto mais se envolve em uma polarização já aberta durante a campanha eleitoral de 2017, quando Macron derrotou no segundo turno a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen. Os coletes amarelos são a expressão ativa da França antissistema, antielites e eurocética. Essa França dos coletes amarelos usa o motor (carro, tratores) como instrumento de trabalho, circula na periferia do país, nos povoados e cidades médias e em zonas rurais. Pagar mais pelo diesel é visto como uma medida direta contra essa França que se levanta com o sol. A bronca deste setor é ainda mais forte, já que o aumento do diesel se inscreve dentro do programa “transição ecológica”, ou seja, a favor do meio ambiente. A França dos coletes sente que fazem com que ela e apenas ela pague o custo de uma maquiagem em favor do meio ambiente, ao passo que as burguesias ambientalistas e endinheiradas ficam fora da medida.

Desconcertados e sem respostas, Macron e seu Executivo abriram um caminho de diálogo com este setor. Parecem recém-descobrir que os coletes são algo a mais que um objeto eleitoral disperso. Em um discurso pronunciado nesta terça-feira para apresentar a transição ecológica, Macron adotou um tom surpreendentemente modesto. Disse que compreende a “cólera” dos coletes amarelos, a quem qualificou como “as primeiras vítimas da crise do meio ambiente”. O presidente falou muito, mas ofereceu pouco: apenas uma revisão da tributação em relação aos combustíveis, segundo o preço do petróleo e um grande acordo nacional.

Muito pouco frente às reivindicações de uma parte do país onde se percebe o presidente como um árbitro parcial: faz os aposentados e os trabalhadores pagar mais impostos, retira auxílios dos estudantes, diminui os subsídios sociais, ao mesmo tempo em que modifica o imposto para as grandes fortunas, o que se traduz em uma desigualdade indiscutível. “Nós estamos pagando por eles”, dizia uma mulher do centro da França que participou das manifestações dos coletes amarelos, que aconteceram em Paris. Seu companheiro, Olivier, repetia irritado: “Macron e os ricaços que o rodeiam não entendem nada. Não sabem onde está, nem como é a França profunda”.

Essa sensação de incompreensão entre dois países que se olham de muito longe é retratada em um vídeo divulgado por um produtor de frangos. Filmado em seu galinheiro, Aloïs Gury, produtor do famoso frango de Bresse, disse ao presidente: “você não entende nada. Você não merece comer meus frangos”. Aos olhos do mundo, Macron surgiu em 2017 como o líder providencial que havia derrotado nas urnas o populismo trumpista que estava se disseminando pela Europa. Bastou-lhe pouco mais de um ano na presidência para que seu elitismo presidencial desembocasse em um movimento que lhe reivindica seu direito de não perder na fogueira do sistema o que acredita merecer.

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