Organizadores de dados: a face oculta da inteligência artificial

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09 Novembro 2019

De sua casa, na cidade de Barquisimeto, noroeste da Venezuela, Douglas Valenzuela passava umas oito horas por dia, pelo menos cinco dias por semana, delineando e classificando imagens de semáforos e pessoas, de céus e ruas. Estava programando o que mais tarde os carros autônomos reconheceriam por si mesmos.

A reportagem é de Gabriela Martínez, publicada por Ctxt, 06-11-2019. A tradução é do Cepat.

“Preferi procurar algo que fosse mais consistente”, afirma o jovem de 21 anos que fez isso por quase dois anos, mas há um ano parou. Havia períodos que não tinha trabalho, outros que tinha muito. Os valores por cada imagem que classificava também podiam variar muito. Por um lado, Valenzuela podia receber cerca de três centavos, entre um e dois dólares por hora, por meio da plataforma Spare 5, uma subcontratada da Mighty AI (comprada recentemente pela Uber). Todo mês, recebia cerca de 200 dólares. Não tinha contrato.

A mais de 7.000 quilômetros dali, em Madri, Maria José García treinava assistentes virtuais de voz para uma empresa que prefere não citar o nome. Escutava uma frase, a transcrevia e a enviava. Escutava uma frase, a transcrevia e a enviava. E, assim, quatro horas por dia. “Era muito chato”, confessa, mas para o sistema aprender o que as pessoas querem dizer, alguém tem que transcrever muitos dados, explica o linguista computacional de 28 anos.

“A inteligência artificial (IA) é importante porque, pela primeira vez, as capacidades humanas tradicionais podem ser assumidas no software de maneira eficiente, econômica e em escala”, pode-se ler no estudo El estado de la IA: divergencia, publicado este ano pela sociedade de capital de risco MMC. Segundo este, a Inteligência Artificial, cuja adoção triplicou nos últimos 12 meses, pode ser a mudança de paradigma mais rápida da história da tecnologia.

Contudo, as maravilhas da Inteligência Artificial desvanecem quando se olha atentamente para o trabalho por trás da mesma. “As pessoas são muito gentis com os benefícios da Inteligência Artificial, mas não conhecem o trabalho humano envolvido por trás”, afirma Florian Alexander Schmidt, professor da Universidade de Ciências Aplicadas HTW Dresden, que realizou uma pesquisa sobre as grandes quantidades de trabalho manual que requer o aprendizado de carros autônomos. A demanda por essas patentes aumentou 42%, de acordo com o primeiro estudo da OMPI sobre Tendências Tecnológicas, enquanto a demanda por patentes de aprendizagem automática, o subconjunto da Inteligência Artificial que mais predomina, aumentou em 28%, entre 2013 e 2016.

A antropóloga Mary Gray, principal pesquisadora do centro de pesquisa da Microsoft e coautora de Trabalho fantasma: Como evitar que o Vale do Silício construa uma nova subclasse global, concorda que o termo Inteligência Artificial esconde o trabalho humano que há por trás dela.

“São necessários muitos dados compilados em qualquer lugar onde as pessoas tenham criado um rastro de dados em suas vidas, e depois muitos trabalhadores contextualizando, anotando e estruturando esses dados para treinar a Inteligência Artificial, para fazer qualquer uma das coisas que pareça magicamente independente das mãos humanas”, afirma.

Muitas dessas tarefas são realizadas por pessoas que não são vistas, em países como China, Filipinas, Índia e em países da África. Mas, não só. Enquanto Schmidt pesquisava, descobriu que em 2018 foram registrados centenas de milhares de trabalhadores venezuelanos, inclusive em algumas plataformas, estes representavam 75% da força de trabalho, porque o idioma de trabalho mudou de inglês para o espanhol.

“Os Humanos e as máquinas trabalham juntos em estruturas cada vez mais complexas”, segundo Schmidt. Os que treinam carros autônomos usam cada vez mais a tecnologia da Inteligência Artificial, mas, paradoxalmente, o crescimento da Inteligência Artificial aumenta a demanda por mão de obra formal, o que, por sua vez, aumenta a demanda por automação da Inteligência Artificial.

Os próprios diretores executivos das principais empresas de Inteligência Artificial do setor que Schmidt entrevistou, como Mighty AI, Hive, Playment, Clickworker, Understand.ai e Crowd Guru concordaram que a demanda por trabalhadores nesse campo continuará aumentando no futuro.

No entanto, as máquinas “só podem substituir o trabalho humano que pode ser medido de maneira confiável e traçado de maneira previsível”, de acordo com Gray. A Inteligência Artificial enfrenta um desafio técnico muito difícil quando se distancia de tarefas previsíveis. Naquelas que requerem espontaneidade criativa e comunicação complexa (termos usados por F. Levy e R. Murnane, em seu livro Nova Divisão do Trabalho) é que entram os humanos. “Essas duas características são as que definem a maior parte da interpretação das informações e a resposta às necessidades das pessoas em uma economia baseada em serviços”, destaca.

Gray e o coautor de Trabalho fantasma, Siddharth Suri, chamam de “crueldade algorítmica” a desvalorização involuntária das necessidades dos seres humanos a serviço da otimização de algum processo computacional. Como são os casos de Valenzuela, na Venezuela, e García, na Espanha. Ambos trabalhavam por demanda, no anonimato de suas casas, sem entrar em contato direto com a empresa para a qual realizavam o trabalho e sem contrato estável. “Estávamos trabalhando há três meses, após três meses parados”, lembra García, que abandonou este trabalho, no qual ganhava cerca de 500 euros por mês.

O desenvolvimento da tecnologia pode levar a uma maior expansão desse tipo de trabalho invisível, alerta Gray. Mas, o que torna esses trabalhos em torno da Inteligência Artificial prejudiciais é que nem os consumidores, nem empresas, sabem como valorizá-los.

“Poderíamos criar (um novo contrato social) para que os trabalhadores possam estabelecer seus próprios horários, escolher as tarefas e projetos que lhes interessam e aproveitar ao máximo o apoio à colaboração entre redes de pares maiores. Não precisamos ver o trabalho para valorizar os trabalhadores, mas precisamos saber que as tecnologias que desfrutamos todos os dias dependem deles”, conclui Mary Gray.

Nota: 

Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida, a ser realizado nos dias 19 a 21 de outubro de 2020, na Unisinos Campus Porto Alegre. (Nota de IHU On-Line).

XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida.

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