O missionário Jacques Dupuis

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08 Novembro 2019

"Precisamente essa imagem do teólogo 'on the road" que atravessa a Índia se torna uma chave para entender a sua teologia", escreve Giorgio Bernardelli, em artigo publicado por Mondo e Missione, 01-1112019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

No livro-entrevista com o teólogo jesuíta belga, publicado postumamente quinze anos após sua morte, a história dos anos vividos na Índia ajuda a entender suas teses sobre a relação entre Cristianismo e outras religiões.

Entre o final da década de 1990 e o início da década de 2000, seu nome esteve no centro das crônicas eclesiásticas. O padre Jacques Dupuis - teólogo jesuíta belga, professor da Universidade Gregoriana e consultor do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso - acabou no centro de um verdadeiro "caso" por causa de um processo aberto contra ele pela Congregação para a Doutrina da Fé (então liderada pelo cardeal Joseph Ratzinger). O objeto da disputa foram as teses expressas pelo teólogo sobre o tema do pluralismo religioso, ou seja, sua tentativa de reconduzir para dentro do projeto de Deus a presença das religiões não-cristãs. O "caso Dupuis" - que se entrelaçou em 2000 com a publicação da declaração Dominus Iesus "sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja" - provocou um debate muito forte no mundo teológico, inclusive pela imediata suspensão do padre Dupuis do ensino que se seguiu à abertura do processo. O processo seria então encerrado em 2001 com uma Notificação oficial sobre sua obra principal (o livro Rumo a uma teologia do pluralismo religioso): naquele texto a Congregação do Vaticano reconhecia a Dupuis "a tentativa" de permanecer dentro dos "limites da ortodoxia", mas ao mesmo tempo alertava os leitores sobre uma série de "consideráveis ambiguidades e dificuldades sobre pontos doutrinários de relevante importância" contidas em sua visão teológica.

O padre Dupuis continuou a considerar esse juízo uma leitura apressada das teses de seu livro, no qual - ele explicava - nunca havia questionado a centralidade da figura de Jesus Cristo na história da salvação. Mas ele também explicou que o clima de suspeita sobre sua fidelidade ao magistério - que não terminou com a publicação da Notificação - o havia ferido profundamente. E é isso que ele mesmo relata em um livro-entrevista póstumo publicado recentemente, vários anos após sua morte. Il mio caso non è chiuso (O meu caso não está encerrado, em tradução livre) - publicado na Itália pelas edições Emi - é o resultado de um longo diálogo com o amigo jornalista Gerard O'Connell, gravado poucos meses antes da morte súbita do teólogo, que aconteceu em 2004 aos 81 anos. Para Dupuis, aquela deveria ter sido sua reconstrução de todo o episódio do processo aberto contra ele; exceto que o súbito desaparecimento do teólogo relegou aquela espécie de testamento a uma gaveta. Também porque - poucos meses depois, em abril de 2005 - o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé havia se tornado Papa Bento XVI; e a reabertura do debate do caso Dupuis teria assumido um significado completamente diferente daquele que o jesuíta provavelmente imaginava.

Depois de 2013, no entanto, o contexto eclesial voltou a ser diferente e, assim, O'Connell publica o manuscrito que o próprio padre Dupuis havia revisado. Não tanto pelo gosto de remover algumas pedrinhas do sapato, mas justamente para relançar a questão que o reflexo do padre Dupuis havia colocado no centro e que aparece hoje - em um mundo em que a globalização coloca homens de diferentes crenças cada vez mais lado a lado - mais crucial que nunca: se Deus é um, por que existem tantas religiões no mundo? E que origem e natureza têm para o cristianismo aquelas "sementes do Verbo" que o Concílio Vaticano II afirma estarem presentes nas religiões não-cristãs?

Obviamente, a intenção é reabrir a discussão sobre as teses teológicas de Dupuis. Para fazer isso com a devida consciência, particularmente interessante se tornam as passagens nas quais, no primeiro capítulo do livro, o jesuíta belga conta seus 36 anos passados como missionário na Índia e o trabalho realizado nos anos do Concílio da Conferência Episcopal local. É uma leitura esclarecedora para entender um ponto fundamental: a sua teologia do pluralismo religioso não nascia de uma mera investigação especulativa, mas de uma experiência de vida, da descoberta da beleza e profundidade espiritual que os antigos templos hindus ou amigos dos monges budistas lhe comunicavam.

A escolha de se oferecer para a missão na Índia já havia amadurecido durante os anos de formação na Bélgica: Dupuis chegou em Calcutá em 1949, ainda seminarista, e o primeiro passo foi aprender o idioma local, o bengali. Já então não foi apenas o estudo de um código, mas o ingresso em um mundo: "Era infinitamente gratificante adquirir a capacidade de ler no idioma original os poemas finíssimos e profundamente religiosos de Tagore", lembra, por exemplo. Sua ordenação sacerdotal ocorreu em 1954 em Kurseong, uma localidade a 2.000 metros aos pés do Himalaia, onde os jesuítas tinham sua faculdade de teologia na Índia.

Lá ele teria começado a ensinar alguns anos depois. E entre as experiências mais significativas daqueles anos, no livro recorda a reestruturação da capela para "adequá-la" ao contexto indiano. "Com uma equipe de quatro estudantes particularmente talentosos como artesãos e pintores, trabalhamos dia e noite durante as férias do final do ano acadêmico de 1967", conta o teólogo. Em Kurseong assim apareceu um Cristo Pantocrator pintado em estilo indiano e um ambão esculpido em madeira na forma de lótus e encimado pelo sagrado Om, o símbolo que para a tradição religiosa local expressa a ideia da palavra de Deus. Num plano mais acadêmico Dupuis também colaborou na elaboração de uma oração eucarística em que se citavam os três margas, os caminhos do conhecimento, da devoção e do trabalho que são o percurso pelo qual é buscada a união com Deus nas religiões da tradição indiana.

Também foi simbólica a transferência da faculdade teológica dos jesuítas de Kurseong para Deli, a capital. "Depois do Concílio, parecia absurdo que a formação teológica dos futuros padres jesuítas ocorresse no Himalaia, entre as nuvens", explica o padre Dupuis na sua conversa. Acrescentando, porém, que ele quis realizar a transferência dirigindo pessoalmente sua motocicleta por mais de dois mil quilômetros.

Precisamente essa imagem do teólogo "on the road" que atravessa a Índia se torna uma chave para entender a sua teologia. No livro-entrevistas, o jesuíta belga dizia expressamente ao amigo jornalista que considerasse os anos vividos na Índia como uma graça particular. Uma experiência que abriu seus olhos, além dos preconceitos de uma visão demasiado eurocêntrica. Daí sua tese básica: "As tradições religiosas do mundo não representam primariamente a busca que os seres humanos fazem de Deus através de sua história, mas a busca que Deus faz deles". A teologia das religiões devia fazer "uma completa inversão de rota: de uma perspectiva centrada no cristianismo para outra centrada nas relações pessoais de Deus com a humanidade ao longo do curso da história da salvação".

Foi isso que ele tentou fazer em seu livro, que ele não considerava uma "summa", mas o simples (e imperfeito) começo de uma jornada. Sobre a qual - vinte anos depois e em um contexto em que o tema do diálogo entre as religiões se torna cada vez mais central - seria útil que a teologia começasse a se questionar.

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