O caso do padre Dupuis não está encerrado

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22 Abril 2019

Em um livro-entrevista revive o drama do teólogo que acreditava haver salvação no diálogo entre as religiões. Ele foi banido e humilhado. Quinze anos depois de sua morte, na Igreja do Papa Francisco, pode-se falar sobre o assunto. É paradoxal quanto sofrimento possa ser encontrado quando se lê um livro cuja publicação nos deixa profundamente felizes. E é paradoxal que se deva colocar como título Il mio caso non é chiuso (O meu caso não está encerrado, em tradução livre) um livro-entrevista cujo protagonista está morto há quase quinze anos. É na linha desses dois paradoxos que gostaria de articular minha reflexão sobre a figura e o pensamento de um jesuíta que fez e está fazendo a história, não apenas do diálogo entre o cristianismo e as outras religiões, mas da possibilidade e da anunciação cristã em um mundo plural.

O comentário é do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 20-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Questão antiga para a igreja. Já no IV século, encontramos na disputa sobre a pluralidade dos cultos uma resposta emblemática de Símaco, prefeito de Roma, um pagão, ao bispo Ambrogio de Milão: "Não se pode alcançar um mistério tão grande como Deus por apenas um caminho!". Palavras que revelam uma questão constantemente percebida pelos crentes diante do pluralismo religioso que sempre foi evidente nas diferentes culturas. Os padres da igreja antiga chegaram a afirmar a presença de "raios da verdade, sementes do verbo (palavra de Deus), brotos do Espírito Santo" mesmo fora do cristianismo.

Mas foi o Concílio Vaticano II que inaugurou uma teologia das religiões e vislumbrou a possibilidade da salvação em Cristo, mesmo para aqueles que não conheceram a revelação cristã. Entre os teólogos que empreenderam essa busca - gostaria de recordar pelo menos o dominicano Claude Geffré - Jacques Dupuis foi o mais corajoso e visionário. Não será possível aqui traçar o conflito entre sua busca e o magistério católico, mas a acusação identificava nas obras de Dupuis o relativismo teológico, a confissão pouco clara da unicidade da salvação em Cristo, a consideração de que também as outras religiões como "caminhos de salvação".

Jesuíta belga, professor da Universidade Gregoriana, Jacques Dupuis, em 1997, publicou Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso. Essa obra se revelaria uma provação para ele, um caminho de paixão, constelado de humilhações e injustiças. Só agora a edição das Conversazioni con Jacques Dupuis (Conversações com Jacques Dupuis, em tradução livre) de Gerard O'Connell nos permite ampliar nosso olhar da dolorosa disputa para a vida e o pensamento do padre Dupuis através de suas palavras, apreendendo os fundamentos de sua busca teológica: a sua paixão pela figura de Cristo, o amor pela igreja e o desejo de reconhecer as sementes da anunciação cristã presentes também nas outras religiões. Um percurso acidentado, repleto de sofrimento, amargura, mas também de esperança. O livro é uma peça fundamental para a afirmação da verdade sobre tristes eventos, mas portadores de uma mensagem que "não está encerrada".

Acompanhei de perto a dolorosa história do padre Dupuis, que alguns transformaram em ostracismo de sua pessoa. Fui o primeiro a revisar – no jornal Avvenire - aquele texto escrito "não apenas com competência, mas também com extrema lucidez e com raro equilíbrio". Opinião, a minha, não compartilhada por muitos. Em especial não compartilhada - ou melhor, não compartilhadas as posições do teólogo - por parte da Congregação para a Doutrina da Fé que iniciou um processo de forma não transparente nem respeitosa pelos direitos e dignidade do autor, um procedimento acusando a obra de “grave erros e ambiguidades doutrinários", afastando o autor do ensinamento e isolando-o do corpo acadêmico.

A entrevista reunida com paixão por O'Connell havia sido revisada com o autor pouco antes de sua morte, mas foi preciso esperar para publicá-la que o clima eclesial mudasse graças ao pontificado de Francisco, primeiro papa jesuíta, mas também pastor atento às novas fronteiras do anúncio evangélico. É o doloroso percurso de um homem, um cristão, um teólogo ferido mortalmente naquilo que ele mais amava: a paixão pelo Senhor e pela igreja e o desejo de tornar a salvação universal trazida por Cristo compreensível inclusive por aqueles que nunca encontraram a anunciação cristã. Pude me encontrar com o padre Dupuis, escutar sua desorientação pelo que ele considerava uma traição realizada por alguns coirmãos, ler em seus olhos a tristeza por uma hostilidade que não dizia respeito a uma opção teológica, mas à sua pessoa.

Encontro esses sentimentos no livro, assim como o leitor encontrará documentos confidenciais, cartas de amigos e de oponentes, relatórios guardados e mensagens nunca transmitidas, palavras de fogo e silêncios ardentes; encontramos nomes proeminentes da teologia e da hierarquia católica, alguns desaparecidos, outros marginalizados também por defendê-lo, outros sendo recompensados talvez por terem se oposto a ele. Mas não encontramos ódio: apenas a amargura de um cristão que se vê considerado um inimigo daquela fé pela qual doou sua vida. Mas também encontramos a luminosa abertura para um futuro maior do que a mesquinhez daqueles que quiseram mortificar uma mente lúcida e livre.

O padre Dupuis buscou consolo na história de outros teólogos considerados perigosos e oprimidos - Yves Congar principalmente -, mas foi obrigado a constatar com amargura: “Eu não tinha um João XXIII que pusesse fim ao processo contra mim; acho que isso nunca terá um fim”. Sim, o processo contra o padre Dupuis foi estancado com a sua morte, mas "o seu caso não está encerrado", porque não se pode encerrar a disseminação da palavra de Deus na história, nem aprisionar as boas novas da salvação nas jaulas de uma teologia da inimizade, nem sufocar o Espírito que sopra onde quer e que espalha sementes de vida e de verdade, mesmo naqueles lugares onde não queremos que cheguem.

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