O roubo dos “ídolos”: a saga da igreja, melhor que Dan Brown

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24 Outubro 2019

Vou colocar isso em latim para me adequar ao tema: deixou Dan Brown de boca aberta. E depois vou dize-lo também como leitor espantado com notícias e jornais: mas veja só que tipo de história.

A reportagem é de Alessandro Robecchi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 23-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Ok, primeiro as notícias. Em um maravilhoso amanhecer do outubro romano, alguns sujeitos entram em uma igreja muito importante (Santa Maria in Traspontina, 90 segundos a pé da Basílica de São Pedro), roubam algumas esculturas de madeira, saem e as jogam no Tibre. Filmam tudo e se tornam algo como heróis da ala direita da Igreja, aqueles que combatem Francisco, que abre demais, exagera, estraga tudo, atropela as mudanças, fica calmo, amigo.

O objeto da disputa é o Sínodo sobre a Amazônia, convocado pelo Papa, por trás do qual se travam uma guerra política e uma guerra de religião, tudo dentro da mesma religião. Também devem ser contabilizadas perturbações econômicas, tropeços, dossiês, acusações aqui e ali, disputas teológicas, atritos políticos e até roubo na igrejas (Dan Brown, como acima). Em resumo: o sínodo sobre a Amazônia trata de coisas concretas como a defesa do planeta, o fato de que milhões de pessoas que vivem lá, ao lado da floresta, ficam incomodados por verem cortado o local onde vivem com o objetivo de cultivar ração para os futuros hambúrgueres.

Naturalmente (mea culpa) eu não tenho a menor ideia de como funciona um sínodo, acho que eles discutem entre si. Entretanto, nas cerimônias de abertura, as populações indígenas trouxeram como presente aquelas estátuas de madeira, que retratam a Pachamama, ou seja, uma mulher grávida, ou seja, para eles, a Mãe Terra, da qual tudo vem, etc., como presente. Em suma, um presente simbólico, um pedaço consistente da cultura indígena, um voto positivo para o diálogo. Até que um comando de aspirantes a Templários rouba as estátuas e as joga no rio (incrível o zoom místico-turístico no Castelo Sant'Angelo).

Agora é que vem o melhor, porque alguém pensa: caramba, furto de obras de arte em uma igreja! É algo pelo qual você pode pegar alguns anos de cadeia, se, além dos textos sagrados, também resolver ler o Código Penal. Em vez disso, parece tudo um pouco na surdina, pois ladrões que se filmam já é algo bizarros, e depois aparecem aqui e acolá reivindicações semelhantes. Ou seja, análises e crônicas que justificam o gesto. É verdade que uma olhadinha exploratória na galáxia da Internet dos ultracatólicos é sempre instrutiva (como ir jantar com Bonifacio VIII), mas mesmo assim é estarrecedor se deparar com o raciocínio típico das guerras religiosas. Símbolos inimigos, sacrilégio. O furto é chamado de "autodefesa", ou "católicos jogam ídolos no Tibre" ou "Não é furto, mas legítima defesa", depois se descamba com citações, versículos, documentos de apoio, sagradas escrituras para dizer que os ídolos pagãos, etc. etc., vade retro, caia fora, vamos jogar no rio.

Disputa com um sabor vagamente medieval, tudo bem, mas atenção que o viés de farsa não oculte a substância. Não apenas dentro da Igreja e contra este Papa existem pressões e facções e rancores sem fim, mas também estão agindo com ações que vão um pouco além do código penal. Qualquer um que já tenha frequentado um estádio sabe que se começa assim, primeiro roubando as bandeiras e depois se acaba em pancadaria (perdoe a comparação).

Disputa teológica, mas também sinal de pressão muito forte e choque ideológico, tipo a garota Greta que alerta o mundo da emergência (neste caso, o Papa), contra seus agressores e detratores profissionais estilo Feltri (neste caso, os ladrões de estátuas). É um seriado que já dura há dois mil anos, por isso aguardamos os próximos episódios e os próximos séculos, mas, enquanto isso se registra, sempre para a informação, um impulso midiático dos tradicionalistas. Tão tradicionalistas a ponto de colocar suas façanhas no Youtube. Vamos lá, caramba, um pouco de coerência! Joana d'Arc jamais teria feito isso.

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