“Nós vivemos um período de efervescência espiritual”. Entrevista com Dominique Bourg

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11 Outubro 2019

Atualmente aposentado como professor da Universidade de Lausanne (UNIL), Dominique Bourg não parou, no entanto, de sacudir as consciências e agitar as águas para derrubar os panegiristas de um liberalismo desgastado.

A entrevista é de Philippe Le Bé, publicada por seu blog La vie autrement, 02-10-2019. A tradução é de André Langer.

Nós o conhecemos na segunda-feira, 23 de setembro, no gabinete em que trabalhou durante 13 anos, na Faculdade de Geociências e Meio Ambiente da Universidade de Lausanne. No meio de suas caixas de livros e documentos, pronto para enriquecer outros horizontes. Mas se Dominique Bourg (66) se aposenta como professor, não parece realmente pronto para uma aposentadoria tranquila em um mundo que está desmoronando. Com sua caneta e palavra, tão precisa e eficaz como um raio laser que destrói apenas o que já está necrosado, o filósofo trava uma guerra impiedosa para despertar as consciências. Para esta figura extremamente sensível, cujo ardor não saberia ocultar uma grande ternura, não há trégua para a urgência ecológica.

Eis a entrevista.

Após 13 anos de ensino na UNIL, você sente um aperto no coração?

Com certeza. Uma página grande está sendo virada. Mas as minhas atividades realmente não param. Acabei de publicar um livro (Le marché contre l’humanité, PUF) e um outro está em fase de preparação com Sophie Swaton, professora e pesquisadora da UNIL e presidente da Fundação Zoein, na qual presido o conselho científico. Não sou como um ferroviário aposentado que não põe mais os pés em uma locomotiva. Sempre terei trens para pilotar, viajantes para frequentar, mas, é verdade, não pararei mais na estação UNIL.

Diante dos colapsos

Não passa uma semana sem um novo sinal de colapso da biodiversidade ou um agravamento do aquecimento global. Você me disse certa vez que oscila constantemente entre a esperança e o desespero. O que faz você ainda ter esperança?

Em relação à evolução física deste mundo, é muito difícil manter a esperança. Estamos realmente no Antropoceno, período em que a influência da humanidade na biosfera é tal que se tornou quase uma força geológica capaz de marcar a superfície da Terra. A habitabilidade da Terra está piorando. Os modelos climáticos mais recentes revelam uma crescente sensibilidade do sistema climático às nossas emissões de gases de efeito estufa. Até 2040, certamente teremos atingido os dois graus de aquecimento, quaisquer que sejam os nossos esforços. Com uma temperatura de 46 graus neste verão no sul da França, de mais de 40 na Holanda e 50 na Índia, constatamos que a realidade dos picos já excede o que se poderia temer. Portanto, ser otimista é simplesmente ser um idiota. E se houvesse apenas o clima!

Ao ouvi-lo, os idiotas parecem ainda mais numerosos!

A cegueira dos panegiristas do mercado e da tecnologia salvadora é impressionante. Não é com a inteligência artificial que vamos resolver os problemas do planeta. Imaginar que vamos conhecer um crescimento sem substrato material e energético, não faz sentido.

O que esperar?

Não está excluído que 80% da população humana acabará sendo exposta a uma saturação da sua regulação térmica. Quando o calor e a umidade se acumulam, não podemos mais eliminar o calor do nosso corpo através da transpiração, o que conduz irremediavelmente à morte. Podemos imaginar, então, que uma humanidade que sofreu tal choque se tornaria menos estúpida do que é hoje e experimentaria escolhas antropológicas não destrutivas. No horror, podemos manter um raio de esperança.

Em um colóquio organizado em sua homenagem no dia 6 de setembro passado na UNIL, Gérald Hess, professor e pesquisador, disse que seria um erro apresentá-lo como uma figura do Apocalipse. O que você diz?

Na verdade, passei a vida imaginando soluções para os desafios que nos ameaçam. Parece-me muito importante manter a ideia de que não vamos assistir ao fim da humanidade. Por mais dolorosas que sejam, as provações podem nos levar a perspectivas interessantes. Lembremos: após a Segunda Guerra Mundial, o Ocidente reorganizou a democracia, instaurou maior igualdade entre os indivíduos, implementou a seguridade social, reafirmou a primazia dos direitos humanos, etc. Isso foi fantástico, pelo menos por algumas décadas, antes de ser destruído.

Desta vez, o horror que virá não será diretamente humano, como foi com o nazismo, mas relacionado às condições de habitabilidade do planeta. Isso não impede que a reconstrução de uma humanidade mais aberta e generosa seja um caminho possível.

No mesmo colóquio, o professor de Direito Alain Papaux explicou por que, diante da urgência climática, nada faremos. Porque, segundo ele, o homem contemporâneo é mais um homo faber, um criador de ferramentas, do que um homo sapiens que manifesta sua sabedoria e sua inteligência. Você compartilha dessa visão?

Em parte. Certamente, uma pequena parcela da sociedade está se abrindo a novos comportamentos. Mas a grande maioria continua consumista até a ponta das unhas. Na esfera política em vigor, incluindo uma parcela dos Verdes, ninguém quer admitir que a manutenção do crescimento leva inevitavelmente à destruição das condições habitáveis da Terra. Qualquer aumento do PIB se traduz em fluxos crescentes de energia e de matéria. Todos, como perfeitos ideólogos, estão mergulhados no pensamento mágico de uma tecnologia que nos salvará.

O compromisso político e acadêmico

Então, um movimento como o Extinction Rebellion está justificado?

Este tipo de movimento que eu apoio totalmente, perfeitamente legítimo, é a única esperança que temos hoje. Os jovens não são idiotas. Eles sabem que os adultos querem fazê-los viver em um mundo insuportável. Por que eles deixariam fazer isso? Qual é o interesse, para esses jovens, de ter um carro novo quando nem sabem se serão capazes de se alimentar, enquanto temem desde já o mês de maio anunciador de terríveis ondas de calor?

Urgência Ecologia, movimento lançado por Delphine Batho com sua colaboração e que obteve 1,8% dos votos nas eleições europeias, deve continuar?

Sim, como um laboratório de ideias à margem dos movimentos ecológicos. O Urgência Ecologia teve que quebrar o monopólio dos Verdes para fazê-los aceitar uma federação. Uma fórmula que eles parecem ter que aceitar. Quanto a mim, saio da militância direta, mas não excluo a participação em um conselho científico, se necessário.

As humanidades ambientais criaram raízes na UNIL. Essa é uma das suas realizações mais marcantes no mundo acadêmico?

Com Benoît Frund, agora vice-reitor de Sustentabilidade e Campus da UNIL, contribuímos, de fato, para ecologizar a oferta desta universidade com a criação, principalmente, de um mestrado. O curso intitulado “Sustentabilidade: desafios científicos e sociais”, que eu ensinei durante anos, reuniu de 60 a 80 estudantes de todas as faculdades. Minha colega Sophie Swaton agora é responsável por esse curso. Também na França, lutei pelo bem público, em particular criando os primeiros cursos de formação em sustentabilidade na Universidade de Tecnologia de Troyes e participando da redação da carta francesa sobre o meio ambiente na Comissão [Yves] Coppens.

A França agradecida fez de você um oficial da Ordem Nacional do Mérito e oficial da Legião de Honra...

Ser duplamente oficial para alguém que não prestou serviço militar é realmente muito engraçado.

Certa ideia de espiritualidade

Que sentido você dá à espiritualidade?

Um duplo significado. O primeiro, é a relação entre a sociedade e o universo físico e biológico que a faz viver. Toda sociedade percebe, a seu modo, essa relação com a vida. Para uma pessoa como Sarah Palin, a musa do movimento Tea Party, que do alto de um helicóptero caça lobos no Alasca, sua relação com o dado natural limita-se a um picado de carne. Aos olhos do mundo ocidental, a natureza é apenas para ser explorada. Por outro lado, em seu maravilhoso filme Dersu Uzala, o diretor japonês Akira Kurosawa nos apresenta um caçador tradicional, um pouco xamã, tecendo uma relação com a natureza completamente diferente.

E a segunda dimensão da espiritualidade?

Toda sociedade valoriza necessariamente um modo particular de autorrealização, de realização da própria humanidade. Para um índio da Amazônia, por exemplo, trata-se de viver em harmonia com os espíritos da floresta. Para um cristão, essa realização passa pela salvação. Ultrapassando as tendências naturais da humanidade, evolui para a santidade. Para um budista, a superação passa pela vigília, etc.

E para o homem ocidental moderno sem convicção religiosa?

Para ele, também existe uma espiritualidade implícita. O macho um pouco falocrata realiza-se através do seu carro potente, de sua casa grande, de sua linda esposa e de seus lindos filhos. No Ocidente, toda a vida social tem se articulado em torno dessa espiritualidade. Mas esta é totalmente dependente daquilo que descrevi acima. Quando a espiritualidade muda em sua primeira dimensão, também muda em sua segunda dimensão.

Quanto a nós, desde o final do período medieval até o advento da ciência moderna passando pelas guerras de religião, nossa sociedade abandonou toda ideia de um objetivo comum e transcendente, a salvação, o que aparece claramente na filosofia do contrato. Produzir riqueza e desfrutá-la tornou-se nosso único objetivo. Isso é contrário ao que todas as sociedades anteriores tinham como valores.

Mas isso não está mudando?

De fato. A espiritualidade em sua primeira dimensão evolui singularmente. Como descrevo em um livro ainda não publicado, escrito com Sophie Swaton, estamos vivendo uma efervescência espiritual. Consequentemente, também estamos testemunhando à emergência de uma mudança na espiritualidade vista em sua segunda dimensão. Mas é também nesses tempos de transição que todas as ilusões são permitidas. Quero com isso dizer que, se todos os xamãs do mundo se reunissem, o efeito estufa seria derrotado. É realmente pura loucura!

E para você, pessoalmente, Dominique Bourg, como se apresenta a espiritualidade?

Eu sou uma espécie de católico completamente esclarecido. Eu jamais posso renunciar ao meu espírito crítico de filósofo. Gosto de fazer referência ao sudário de Turim, este lençol de linho que mostra a imagem apagada de uma figura humana que apresenta as marcas das feridas após uma crucificação. Alguns afirmam que é o sinal evidente da ressurreição de Cristo, outros que é uma falsificação, como mostra uma análise do carbono 14.

Mas se é uma falsificação que aparece no século XII, não é menos milagroso do que se fosse verdadeiro. Seria impossível reproduzir esse objeto, a imagem sendo impressa de maneira completamente uniforme. Não há o menor indício de um gesto humano. Então, esse clichê negativo comporta conhecimentos sobre os quais ninguém sabia nada no século XII. Observo de maneira geral que, seja qual for a religião ou a espiritualidade, encontrarei manifestações surpreendentes que não entram na ordem deste mundo. O que fazer com tudo isso? Esta é a questão do filósofo que eu sou!

A Laudato Si’, a segunda encíclica do Papa Francisco, não oferece uma reconciliação do gênero humano com o mundo natural?

Isso faz parte dos sinais que estou decifrando. Algo vital está nos pressionando para restabelecer os vínculos perdidos com a natureza que estamos destruindo. Eu vejo sinais por toda parte: o amor pelas árvores, a empatia com o mundo animal que vai muito além do movimento vegano, a eco-psicologia, etc. Quais serão os efeitos? Eles ainda chegarão a tempo? Isso faz parte dessa esperança que eu não me decido a descartar.

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