Adaptando-se a uma ''Igreja global'': um novo comentário internacional sobre o Vaticano II. Artigo de Massimo Faggioli

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18 Agosto 2019

Um grande grupo de teólogos e historiadores da Igreja inaugurou uma iniciativa internacional destinada a explorar a conexão entre o Vaticano II e a mudança deste pontificado na direção de uma catolicidade global.

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, EUA, em artigo publicado por Commonweal, 15-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

De acordo com Karl Rahner, o Vaticano II foi o começo da “Igreja mundial”. Eleito bispo de Roma meio século depois do Vaticano II, Francisco é o primeiro papa que não é da região euro-mediterrânea e, portanto, pode ser entendido como o primeiro papa da “Igreja mundial” de Rahner: uma Igreja verdadeiramente global e não eurocêntrica.

Mas a globalização teológica e a globalização institucional são duas coisas diferentes, e estiveram surpreendentemente desconectadas uma da outra na história recente da Igreja. O choque institucional de um jesuíta latino-americano tendo sido eleito papa foi mais lento para influenciar a teologia do que o esperado em 2013.

Em seu discurso de 21 de junho à Pontifícia Faculdade Teológica da Itália Meridional, em Nápoles, Francisco expressou sua visão de “uma teologia da acolhida e do diálogo”, uma “teologia interdisciplinar” que ocorre em um ambiente de liberdade e em relação com todo o povo de Deus – com os povos (no plural) e as culturas em todo o mundo.

Ele não mencionou nem citou os documentos do Vaticano II; ele não precisava fazer isso. Ficou claro para qualquer um que ouviu o discurso que a visão desse papa é profundamente conciliar. Assim como o seu discurso de setembro de 2015 ao congresso teológico internacional na Pontifícia Universidade Católica da Argentina, o discurso em Nápoles expôs claramente a agenda teológica de Francisco.

Uma nova liberdade para a teologia católica é uma das contribuições subvalorizadas desse pontificado. Francisco ofereceu aos teólogos uma nova oportunidade para interpretar o evento eclesial e teológico através do qual seu próprio pontificado deve ser entendido e avaliado – isto é, o Concílio Vaticano II.

Em um congresso de quatro dias realizado em junho no Berg Moriah Conference Center, perto de Koblenz, na Alemanha, um grande grupo de teólogos e historiadores da Igreja inaugurou uma iniciativa internacional destinada a explorar a conexão entre o Vaticano II e a mudança deste pontificado na direção de uma catolicidade global.

Intitulado “O Concílio Vaticano II: questões hermenêuticas”, o congresso foi organizado pelo comitê diretivo que trabalha em um novo comentário em vários volumes sobre os documentos do Concílio Vaticano II. Os palestrantes e respondentes vieram de todos os continentes. Christoph Theobald, SJ proferiu uma conferência sobre o Concílio desde o “início dos inícios” até a “Igreja em movimento” de Francisco.

Judith Gruber e Jonathan Tan fizeram palestras sobre leituras pós-coloniais dos textos do Concílio. Ormond Rush falou sobre as controvérsias em torno da recepção da autoridade doutrinal. Peter Hünermann, sobre as mudanças na eclesiologia e na teologia das instituições que são exigidas para uma Igreja verdadeiramente global.

A iniciativa para um novo comentário sobre o Vaticano II deu seus primeiros passos em um congresso em Munique, em 2015, marcando o 50º aniversário do fim do Concílio. Hünermann, que havia coeditado um comentário de cinco volumes em alemão sobre o Concílio entre 2004 e 2005, percebeu que um novo comentário teológico sobre o Vaticano II não poderia ser simplesmente uma atualização da edição anterior. Muitas coisas haviam acontecido desde então.

A importância da transição da era de João Paulo II e Bento XVI para o pontificado de Francisco já estava abundantemente clara. Hünermann – professor emérito da Universidade de Tübingen e presidente fundador da Sociedade Europeia de Teologia Católica – acreditava que o novo pontificado oferecia uma oportunidade para uma nova interpretação do Vaticano II do ponto de vista da Igreja global.

Encontros preparatórios para o novo comentário foram realizados entre 2016 e 2018 (uma revelação: eu participei dessas reuniões iniciais e sou membro do comitê diretivo do grupo continental para a América do Norte, Austrália e Pacífico). Ficou imediatamente claro que um novo comentário sobre o Vaticano II que focasse a Igreja global exigiria contribuições de acadêmicos de todo o mundo e teria que se dirigir a uma audiência internacional e multicultural com uma diversidade de pontos de referência teológicos e culturais.

O projeto é para um comentário de 12 volumes, a ser publicado em alemão e em inglês. O primeiro volume será dedicado às referências hermenêuticas sobre a interpretação do Concílio na Igreja global de hoje. Depois, haverá cinco volumes dedicados à recepção do Concílio nos diferentes continentes (Europa, Ásia, África, América Latina, Austrália, Pacífico e América do Norte em um único volume), cinco volumes de comentários sobre os próprios documentos do Concílio, e um volume final dedicado a reflexões sobre o futuro da Igreja. Esses volumes serão o resultado de uma série de simpósios anuais envolvendo acadêmicos de todos os continentes, assim como de uma série de seminários organizados em cada continente.

Os primeiros comentários sobre o Vaticano II, publicados nos meses e anos imediatamente posteriores ao seu término, foram escritos principalmente por participantes da assembleia conciliar, padres e bispos com uma formação teológica europeia.

Nos últimos anos, um significativo trabalho sobre o Vaticano II foi feito por teólogos leigos, incluindo muitas mulheres. Mas esse trabalho ainda não tomou a forma de uma reinterpretação abrangente do Concílio para o século XXI. Agora, sim. A segunda inovação do projeto é o seu caráter global: os cinco volumes de comentários sobre os textos conciliares serão produzidos por uma equipe de cinco membros de teólogos de todos os continentes. Será um comentário teológico destinado não somente a estudiosos, mas também a toda a comunidade eclesial global, e o projeto foi endossado por três cardeais de três continentes diferentes – Reinhard Marx (Munique, Alemanha), Luis Antonio Tagle (Manila, Filipinas) e Baltazar Porras (Merida, Venezuela).

Hünermann enfatiza que o objetivo de um novo comentário internacional sobre o Vaticano II não é “um texto sistemático uniforme. O objetivo é um comentário que dê espaço para as diferentes interpretações e visões continentais dos textos do Concílio, a recepção pluriforme e a sua convergência fundamental, apesar de suas diversidades culturais e sociais”.

Um novo comentário é necessário, diz Hünermann, porque “a situação da Igreja e da teologia, especialmente em outros continentes além da Europa e da América do Norte, mudou completamente desde a época do Concílio e do primeiro período pós-Vaticano II, quando os primeiros comentários foram escritos e publicados”.

Hünermann conheceu Jorge Mario Bergoglio na América Latina nos anos 1970 e esteve em Roma para o conclave de 2013. Ele foi um dos poucos que expressaram publicamente a sua esperança de que o cardeal de Buenos Aires fosse eleito: “Os gestos, as palavras e o programa do Papa Francisco para o seu pontificado na Evangelii gaudium demonstram a diferença entre [João Paulo II e Bento XVI] e esse papa, que não participou do Concílio. Ele abriu uma nova época no modo de viver o Vaticano II na Igreja Católica: não condicionado pela sua própria experiência pessoal nem pela sua própria ‘tradição oral’ sobre o Concílio”.

O projeto que Hünermann ajudou a lançar pode envolver acadêmicos, mas visa a abordar questões que envolvem a relação entre a Igreja institucional, a teologia e o espaço público: as questões não resolvidas no debate teológico sobre o Vaticano II são uma parte crucial das atuais tensões intraeclesiais. Os conflitos políticos que surgiram durante este pontificado têm muito a ver com ideias diferentes sobre o que significa uma “Igreja global”.

Isso é especialmente verdade aqui nos Estados Unidos, que se tornou o principal palco de uma revanche anticonciliar dentro da Igreja institucional e também na teologia acadêmica. A narrativa de missão e da renovação fomentada por alguns bispos norte-americanos hoje julga o Vaticano II como um fracasso e rejeita algumas de suas principais reformas.

Não é nenhuma coincidência que os bispos nos Estados Unidos estejam entre aqueles que implementaram o Summorum pontificum de Bento XVI com o maior entusiasmo; muitos deles abraçaram publicamente o renascimento da missa pré-conciliar.

É no contexto dessa rejeição ao Vaticano II que se pode entender a atual moda nos círculos intelectuais católicos norte-americanos em relação a várias marcas de integralismo e de “opções” de se retirar do mundo moderno. Enquanto isso, entre alguns “teólogos do Vaticano II” (uma categoria na qual eu me incluiria), o Vaticano II tornou-se uma espécie de monumento, mais para ser glorificado do que para ser estudado de perto como um evento histórico complicado.

Em ambos os lados, à esquerda e à direita, o foco é muitas vezes geograficamente estreito: uma identificação míope das trajetórias do catolicismo com as suas trajetórias no mundo ocidental – ou mesmo com as suas trajetórias em apenas um país. Então, uma ênfase excessiva na mensagem sociopolítica do Vaticano II também produziu, às vezes, um fenômeno paralelo à politização do catolicismo à direita: uma desteologização do debate sobre o Vaticano II.

O Vaticano II não pode ser entendido sem um contato direto com os seus documentos e a sua história. Esses documentos devem ser entendidos no contexto de toda a tradição teológica e devem ser lidos à luz da expansão da Igreja para além das fronteiras culturais do Ocidente. Que começa com a escuta dos teólogos de outras partes do mundo, cujas preocupações e intuições complementam e corrigem as nossas.

Em um de seus ensaios fundamentais sobre a hermenêutica do Vaticano II, Karl Rahner escreveu: “Ou a Igreja vê e reconhece as diferenças essenciais das outras culturas nas quais a Igreja deve se tornar uma Igreja mundial e infere as consequências necessárias a partir desse reconhecimento, com uma audácia paulina – ou então continuará sendo uma Igreja ocidental e, portanto, trairá a intenção que o Vaticano II tinha”.

Isso só é possível com uma nova interpretação da tradição teológica que leve em conta as várias perspectivas dos receptores e dos transmissores dessa tradição. Um comentário internacional e “polifônico” sobre os textos conciliares é um passo nessa direção.

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