Sínodo da Amazônia. É preciso abrir espaço para o ‘Deus das surpresas’ agir. Artigo de Mauricio López

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15 Agosto 2019

O Sínodo de outubro em Roma está sendo bombardeado pelos críticos do Papa, incluindo cardeais proeminentes. Uma figura importante em seu planejamento apresenta a estrutura do discernimento espiritual em que o processo sinodal deve ser entendido.

O artigo é de Mauricio López Oropeza, Secretário Executivo da Rede da Igreja Pan-Amazônica (Repam), publicado por The Tablet. A tradução é de Natália Froner dos Santos.

Eis o artigo.

Parece natural para mim – e até mesmo desejável – que devemos ouvir uma variedade de vozes (incluindo dissidentes) no processo do Sínodo Amazônico. Isso reflete a riqueza abundante da Igreja. Em qualquer jornada sinodal, se estamos falando de permanecer fiéis ao seu propósito essencial de discernimento espiritual, todas as vozes bem-intencionadas são bem-vindas.

Uma das características que definem o Sínodo Amazônico é que ele age da periferia em direção ao centro. Aqui, talvez, esteja a explicação para a inquietação sobre o sínodo em certos setores dentro da Igreja – e além. Como tantas vezes acontece no Evangelho de Jesus, é uma voz das margens que está chamando pacientemente ao centro em uma busca compartilhada pela pureza de coração. E isso pode desafiar posições estabelecidas e suposições confortáveis.

Neste processo sinodal, que chegará ao clímax em três semanas de discussão em Roma em outubro deste ano, é a região amazônica – na verdade, a Igreja Sul-Americana como um todo, com suas abordagens ricamente distintas do materialismo, individualismo, tecnocracia e "cultura descartável" – que estará falando à Igreja, chamando-a à conversão.

Este não é um processo no qual a periferia procura usurpar o papel e o lugar do centro. Isso seria totalmente indesejável. A periferia não traz mais nem menos do que é e do que têm. Mas neste momento, talvez sejam as periferias, os cantos negligenciados e alguns dos povos esquecidos do mundo, que melhor possam lançar uma luz sobre o caminho a seguir, não só para a Igreja, mas também para a sociedade como um todo.

Como será o discernimento espiritual autêntico? O Papa e os bispos são unidos da mesma maneira que, no Evangelho, Pedro e os outros apóstolos constituíram um colégio apostólico. Isto é, como recorda o Concílio do Vaticano II, "a prática muito antiga em que os bispos devidamente estabelecidos em todas as partes do mundo estavam em comunhão uns com os outros e com o Bispo de Roma num vínculo de unidade, caridade e paz" (Lumen Gentium 22).

Não devemos ficar preocupados com diferenças de opinião sobre o próximo sínodo: isso é natural e, de fato, positivo. Mas toda contribuição deve ser marcada pelos três elementos belamente expressos pelos padres conciliares – união, caridade e paz.

O discernimento espiritual é o caminho para encontrar e seguir a vontade de Deus. Eu estou constantemente aprendendo com minha própria experiência de acompanhamento na tradição de Inácio de Loyola. É uma questão de discernir o que é bom espiritualmente, o que leva a uma abundância maior, a um maior senso de vida, maior paz interior e comunhão. O que é de Deus e o que constitui uma "consolação espiritual" (Exercícios espirituais, 316) é caracterizado por um reforço de esperança, fé e caridade; e pela alegria e felicidade interiores.

Isso contrasta com o que não é de Deus e que expressa "desolação espiritual": escuridão da alma, turbulência e ansiedade, falta de confiança e perda de direção e propósito. Ao comentar o sínodo, pode ser fácil cair na armadilha de se distrair com posições estridentes que não enriquecem nem promovem o processo de discernimento.

Há um perigo, também, na tentativa de "ligar" o Espírito Santo, de modo que antes mesmo do discernimento na reunião de outubro começar, os críticos procuram deliberadamente sufocar a discussão impondo limitações, barreiras e restrições. O documento preparatório para o sínodo (Lineamenta) e o documento de trabalho (Instrumentum Laboris) fazem parte de um processo, não são documentos finais, gravados em pedra. Eles são meios, não fins. Eles são, de certa forma, como o grão de trigo que tem que morrer antes que possa dar frutos. Eles surgiram de um longo processo de discernimento entre os fiéis da Amazônia, que teve uma participação muito ampla.

Instrumentum Laboris é o resultado de um processo intenso. Tem sido muito rezado, com a colegialidade como pedra fundamental. Surgiu de uma extensa consulta (talvez sem precedentes na história recente da Igreja). É o resultado da reflexão, debate e aprovação de um conselho pré-sinodal posto em prática pelo Papa Francisco. Participaram dele bispos representativos da região amazônica; bispos e representantes de agências especializadas que acompanharam a missão da Igreja nesta região; e bispos que trouxeram experiências relevantes de outras realidades fora da região amazônica.

Houve também o próprio Papa Francisco, que o presidiu, e o apoio do secretariado permanente do Sínodo dos Bispos. É crucial valorizar essa expressão de colegialidade e reconhecer sua riqueza. Nas questões que inevitavelmente surgirão, o sentido de colegialidade inerente a todo o modo de ser eclesial – de "ser Igreja" – deve ser honrado.

O convite a toda a Igreja agora é mostrar respeito e humildade e abrir nossos ouvidos e corações para ver o que Deus pode estar dizendo através do povo da Amazônia, para o bem de toda a Igreja. Cerca de 87 mil pessoas participaram do exercício de "escuta" que fazia parte do processo de consulta formal do Sínodo, facilitado pela Rede da Igreja Pan-Amazônica (Repam). Destes, 22 mil participaram de assembleias, fóruns e convenções e pelo menos outros 65 mil nos processos preparatórios nos nove países da Panamazônia: partes da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname. 90% dos bispos da região ou seus vigários compareceram. E, em alguns casos, as próprias conferências episcopais realizaram seus próprios processos de consulta.

A reflexão dentro do Instrumentum Laboris exige uma leitura séria e profunda de nossa parte. Temos que discernir com coragem, energia e liberdade interior aquilo a que Deus nos chama nesta situação, que reconhecemos como um verdadeiro momento kairos. Devemos deixar ir um estado de espírito suspeito que pode impedir que o Espírito se expresse para nós como um ar fresco.

É vital lembrar que, como todo sínodo, o Sínodo especial da Amazônia atua com o acompanhamento do Papa em seu serviço à Igreja. Um fator crucial para dar bons frutos é que os envolvidos no processo tenham uma disposição genuína de buscar a comunhão. Novamente, vale a pena considerar estas palavras familiares do Concílio do Vaticano II: "O colegiado ou corpo de bispos não tem autoridade, a menos que seja entendido junto com o Pontífice Romano, o sucessor de Pedro, como seu chefe. O poder de primazia do Papa acima de tudo, tanto pastores como fiéis, permanece íntegro e intacto: em virtude de seu ofício, que é um Vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o Pontífice Romano tem poder pleno, supremo e universal sobre a Igreja. E ele está sempre livre para exercer esse poder" (Lumen Gentium, 22).

O que parece estar subjacente a muitas das preocupações sobre o Instrumentum Laboris expressas por seus críticos é a aparente tensão entre alguns elementos do ensino e disciplina da Igreja, e o senso de fé do povo de Deus, o sensus fidei. O Concílio Vaticano II ensina "que o santo povo de Deus compartilha também o ofício profético de Cristo; difunde-se testemunho vivo de Deus, especialmente por meio de uma vida de fé e caridade e oferecendo a Deus um sacrifício de louvor, o tributo dos lábios que dão louvor ao nome de Deus".

"Todo o corpo dos fiéis, ungidos como são pelo Espírito Santo, não podem errar em matéria de crença. Eles manifestam essa propriedade especial por meio do discernimento sobrenatural de todos os povos em matéria de fé quando 'dos ​​bispos até o último dos fiéis leigos’ eles mostram concordância universal em questões de fé e moral". Este ponto é reafirmado pelo Papa Francisco em sua constituição apostólica sobre a estrutura do sínodo, Episcopalis Communio.

O Concílio afirma também que o Espírito Santo não somente santifica e dirige o povo de Deus em sacramentos e ministérios, mas também "distribui graças especiais entre qualquer um dos fiéis, independentemente da posição social, passando para cada um de acordo com o que ele precisa ou quer". Em um discernimento cuidadosamente nutrido, um lado nunca procura triunfar sobre o outro. Não há lados opostos, porque é um processo de busca do que leva à realização do plano de Deus para a criação. Este é o grande perigo com posições extremistas ou com aqueles que procuram simplesmente descartar ou desacreditar o outro lado. Nem permite diálogo ou espaço para o “Deus das surpresas” agir.

Devemos caminhar sem medo do novo, respeitando nossas fontes e raízes, para que a presença de Deus no mundo, em seus povos e na Amazônia, se fortaleça, e a missão da Igreja seja fortalecida.

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