EUA. Colégio jesuíta recorre ao Vaticano depois de arcebispo retirar sua designação católica

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09 Agosto 2019

Um colégio de Ensino Médio que perdeu sua designação católica por se recusar a demitir um funcionário gay a pedido do arcebispo entrou com um recurso legal junto ao Vaticano para reverter a decisão da arquidiocese. Enquanto isso, o arcebispo proibiu que a escola celebre missas para todo o corpo escolar.

A reportagem é de Robert Shine, publicada por New Ways Ministry, 08-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Brebeuf Jesuit Preparatory School, em Indianápolis, EUA, pediu ao Vaticano para reconsiderar o decreto do arcebispo de Indianápolis, Charles Thompson, que retirou a designação católica da escola em junho, porque seus funcionários se recusaram a demitir Layton Payne-Elliott por causa de seu casamento com uma pessoa do mesmo sexo.

De acordo com uma carta do diretor da escola, Pe. William Verbryke, SJ, a província dos jesuítas do Meio-Oeste dos EUA apelou formalmente primeiro ao arcebispo, que se recusou a derrubar seu decreto. A província, agora, pediu que a Congregação para a Educação Católica revise o decreto de Thompson e, nesse ínterim, suspenda seus efeitos. Verbryke escreveu:

“No fim, esperamos que o decreto seja anulado. Se isso não ocorrer, pedimos mais clareza quanto aos efeitos legais do decreto do arcebispo sobre a vida sacramental da Brebeuf. Não sabemos quanto tempo o processo de apelação vai demorar, mas tenham certeza de que estamos fazendo todos os esforços para resolver o nosso desacordo com o arcebispo e retomar a forte relação que desfrutamos com a arquidiocese nos últimos 57 anos.”

Uma questão central no recurso é a celebração da missa no campus. Thompson proibiu que a Brebeuf celebre liturgias para toda a escola, incluindo uma Missa do Espírito Santo no início do próximo ano letivo. Dois padres, Verbryke e Chris Johnson, SJ, poderão celebrar a missa diária todas as manhãs na capela da escola diretor da escola comentou em sua carta:

“Estamos decepcionados e entristecidos com a decisão do arcebispo. No entanto, nosso apelo inclui o nosso pedido para poder celebrar missas no colégio novamente. Esperamos sinceramente que possamos celebrar novamente a Eucaristia como uma comunidade escolar inteira em um futuro próximo. No entanto, devemos reconhecer, e reconhecemos, a autoridade do arcebispo em relação à celebração da missa dentro da arquidiocese. Em vez de celebrar a Missa do Espírito Santo como uma missa tradicional de abertura do ano escolar na quinta-feira, 15 de agosto, a nossa comunidade jesuíta da Brebeuf invocará as bênçãos do Espírito Santo sobre a nossa comunidade escolar para este ano letivo, realizando um rito de oração para toda a escola durante o dia escolar.”

A Arquidiocese de Indianápolis continuou defendendo suas ações contra a Brebeuf, enquadrando a concessão de Thompson da missa diária como uma ação de “preocupação pastoral e caridade”, relatou a revista America. O porta-voz, Greg Otolski, ainda atribuiu a culpa dessa disputa às autoridades jesuítas da Brebeuf que, nas palavras de Otolski, “optaram por não serem mais reconhecidos como uma instituição católica”, porque se recusaram a demitir Payne-Elliott.

O arcebispo Thompson fez ainda a alegação de que ele “está firmemente convencido de que estamos em sintonia com o Papa Francisco” sobre o modo como ele abordou as questões LGBTQ. Em uma entrevista ao jornal arquidiocesano The Criterion, ele disse que as pessoas devem ler o histórico do papa em vista da “totalidade da mensagem, não apenas escolher o que se encaixa em sua agenda”. Thompson falou extensamente sobre a necessidade de diálogo em uma sociedade polarizada e de ir além das diferenças.

Em notícias relacionadas a Indianápolis, a Faithful America lançou um abaixo-assinado pedindo que a arquidiocese reconsidere a sua “campanha cruel e arbitrária” contra os empregados LGBTQ da Igreja, restabeleça os laços com a Brebeuf e permita que outras escolas católicas recontratem funcionários demitidos. Para acrescentar o seu nome, clique aqui.

A diretora executiva do DignityUSA, Marianne Duddy-Burke, escreveu uma carta a Thompson sobre a situação da Roncalli High School. Um ex-aluno, Dominic Conover, publicou um artigo na semana passada detalhando a suposta intimidação do administrador escolar depois que Conover se manifestou publicamente contra a demissão da ex-conselheira Shelly Fitzgerald por causa de seu casamento com uma pessoa do mesmo sexo. Duddy-Burke escreveu:

“Nos meus mais de 36 anos de ministério na defesa dos católicos LGBTQI, poucas coisas me entristeceram e me enfureceram tanto quanto esse artigo (...) O comportamento das autoridades da escola descrito nesse artigo é vergonhoso. A pressão e o isolamento que Dominic experimentou simplesmente por defender suas convicções desmente o objetivo de construir um Corpo de Cristo unido e solidário. É indesculpável o fato de o superintendente Flinging e o diretor Weisenbach terem ameaçado Dominic com a retenção de seu diploma, ameaçando efetivamente sua carreira universitária e minando aquilo que restou do seu último ano escolar. Esse é um repreensível abuso de poder, algo totalmente inconsistente com aquilo de que os educadores católicos deveriam ser modelos. Eu acredito firmemente que ambos os indivíduos, junto com o diretor da Roncalli, Hollowell, deveriam ser demitidos imediatamente.”

Finalmente, membros da Shelly’s Voice, uma rede formada após a demissão de Fitzgerald, manifestaram-se em apoio aos estudantes LGBTQ nessa semana do lado de fora da Roncalli High School e da Cathedral High School, que demitiu o marido de Payne-Elliott nas últimas semanas, sob pressão da arquidiocese.

As chances da Brebeuf no recurso junto ao Vaticano não são claras. A Congregação para a Educação Católica é bastante conservadora. Foi essa congregação que divulgou o documento negativo sobre as pessoas transexuais e intersexuais, “Homem e mulher os criou”, do início deste ano. No entanto, dois prelados estadunidenses pró-LGBTQ, os cardeais Base Cupich, de Chicago, e Joseph Tobin, de Newark, estarão envolvidos na apelação, de acordo com a America.

Outro complicador é que, de acordo com a nova constituição do Papa Francisco para a Cúria, prevista para ser lançada no fim do ano, essa congregação está prestes a ser fundida com o Pontifício Conselho para a Cultura, tornando desconhecida a sua futura composição.

Dado o ritmo do Vaticano, é quase certo que o recurso não será resolvido em breve. A comunidade jesuíta da Brebeuf provavelmente não poderá celebrar missas para toda a escola por algum tempo. Negar os sacramentos porque os funcionários da escola se recusam a discriminar um funcionário LGBTQ fere duplamente a fé das pessoas e as afasta da Igreja, especialmente os jovens.

A situação em Indianápolis é insustentável. As instituições católicas empregam regularmente pessoas LGBTQ, muitas das quais estão, ou entrarão, em casamentos civis. As pessoas LGBTQ têm muito a oferecer ao trabalho da Igreja na educação, na saúde, na pastoral e nos serviços sociais.

O arcebispo Thompson vai perseguir uma caça às bruxas contra cada empregado LGBTQ casado e punir cada instituição que se recusar a discriminar? Ele está pronto para “armar” os sacramentos? Tal caminho poderia destruir a Igreja local. Antes do início do próximo ano letivo, o arcebispo precisa parar essa cruzada e, em vez disso, se reconciliar com as muitas pessoas prejudicadas pelas suas decisões.

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