Por que os bispos católicos precisam se abster por um ano de fazer pregações sobre sexualidade

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26 Junho 2019

Esforços para reduzir a identidade católica a uma “teologia pélvica” hiperfocada sobre a sexualidade humana levantam questões a respeito de como nós cristãos devemos ser conhecidos quando buscamos viver o evangelho. Os funcionários católicos das escolas e de outras instituições católicas são avaliados pela frequência com que visitam os presos, cuidam dos doentes, tratam o meio ambiente e enfrentam a desigualdade? Todas essas questões morais são centrais para as encíclicas papais, séculos de ensino social católico e do ministério de Jesus.

O artigo é de John Gehring, diretor do programa católico na Faith in Public Life e autor de The Francis Effect: A Radical Pope’s Challenge to the American Catholic Church [O efeito Francisco: O desafio de um papa radical para a Igreja Católica americana], publicado por Religion News Service, 25-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Se os bispos católicos esperam recuperar sua credibilidade moral depois das revelações sobre encobrimentos de abuso sexual por parte do clero, a hierarquia deve começar a enviar uma simples, mas potente mensagem: líderes da Igreja deveriam fazer um ano de abstinência nas pregações sobre sexo e gênero.

Isso deveria parecer óbvio quando a Igreja encara uma crise de legitimidade causada pelo abuso de crianças por parte do clero, e mostraria mais humildade enquanto alega sustentar as verdades finais sobre a sexualidade humana.

Em vez disso, somente no mês passado, um bispo de Rhode Island tuitou que os católicos não deveriam participar de eventos de orgulho gay porque são “especialmente prejudiciais para as crianças”; um escritório do Vaticano divulgou um documento que descrevia pessoas transgênero como “provocativas” na tentativa de “aniquilar o conceito de natureza”; e uma escola católica de Indianápolis, que se recusou a demitir um professor casado com um parceiro do mesmo sexo, foi informada pela Arquidiocese de Indianápolis de que não pode mais se chamar católica.

Aí está uma arrogância inconfundível exposta quando alguém na igreja está determinado em fazer da sexualidade peça central da identidade católica ao mesmo tempo que bispos falham em convencer seu rebanho de que eles devem estar preparados para policiar predadores em suas próprias paróquias.

Mesmo antes de os escândalos de abusos explodirem e se tornarem de conhecimento público, mais de uma década atrás, muitos católicos foram adaptando os ensinamentos da hierarquia masculina católica sobre sexualidade. Pesquisas mostram que a vasta maioria de católicos usa o controle de natalidade e perto de 70% agora apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Isso não é uma matéria simplesmente sobre a imagem da Igreja, apesar de tudo. Quando a Igreja Católica descreve a intimidade sexual entre pessoas gays como “intrinsecamente desordenada”, falha em levar em conta como essa linguagem degradante contribui para altos níveis de suicídio entre pessoas LGBTQ; quando condena até o reconhecimento civil da união de mesmo sexo, que não impede a competência em definir o sacramento do matrimônio, os bispos parecem indiferentes aos obstáculos que casais sem atestados civis de casamento enfrentam em hospitais e outros serviços.

A menos que os líderes da igreja se contentem em afastar uma geração de jovens, essas posições são feridas autoinfligidas. Os católicos Millennials compreensivelmente perguntam por que séculos de ensinamentos católicos sobre a dignidade humana e a justiça não se aplicam plenamente a seus amigos, familiares e professores LGBTQ. Aqueles que são criados católicos são mais propensos que os jovens criados em outras religiões a citarem o tratamento negativo com gays e lésbicas como a principal razão pela qual saem da Igreja, de acordo com o Public Religion Research Institute.

Um documento sobre identidade de gênero, divulgado no início do mês pelo Vaticano, pela Congregação para a Educação Católica, intitulado “Homem e mulher os criou”, ressalta por que precisamos de uma ruptura com os pronunciamentos da Igreja sobre essas questões. O documento está certo em seu apelo ao diálogo respeitoso com as pessoas LGBTQ, mas o documento em si não reflete esse ideal.

Os autores claramente não escutaram os católicos transexuais. Não houve esforço aparente para se engajar com a ciência moderna ou conhecimentos médicos contemporâneos sobre o desenvolvimento de gênero. Parece que foi escrito em um bunker fechado do mundo em 1950.

Ray Dever, um diácono católico que tem uma filha transgênero e que ministra para famílias católicas com membros transgêneros, chamou o documento de "totalmente desvinculado da realidade vivida pelas pessoas transexuais".

Dever acrescentou: "Eu acho que qualquer pessoa com experiência em questões de identidade de gênero confirmará que, para uma pessoa autenticamente transgênero, ser transexual não é uma escolha, e certamente não é impulsionado por nenhuma teoria ou ideologia de gênero".

Embora as reflexões abstratas do Vaticano sobre sexo e gênero sejam inúteis, a Igreja enfrenta uma crise mais urgente, forçando a demissão de funcionários LGBTQ em escolas católicas. Em uma rara exibição de desafio, a Brebeuf Jesuit Preparatory School, em Indianápolis, entrou em choque com o arcebispo Charles Thompson, que queria que a escola, operada de forma independente, demitisse um funcionário civilmente casado com uma pessoa do mesmo sexo. A escola recusou, e o arcebispo agora diz que a escola não pode mais se chamar católica. O órgão de supervisão da Brebeuf Jesuit, a Província dos Jesuítas do Centro-Oeste (Midwest Province of Jesuits), disse que a decisão será apelada por meio de um processo da igreja que irá até o Vaticano, se necessário.

“Nós sentimos que conscientemente não poderíamos demitir o funcionário”, falou o padre William Verbryke, presidente da Brebeuf, à revista America, no início dessa semana, explicando que o professor em questão não ensinava religião, e tampouco era ministro do campus.

Depois de a decisão da escola jesuíta tornar-se notícia nacional, outra escola católica de Indiana anunciou sua obediência à arquidiocese e demitiu um professor casado com uma pessoa do mesmo sexo. Administradores da Cathedral High School chamaram de “uma agonizante decisão” e escreveram uma carta para a comunidade escolar. “No contexto de hoje sabemos que é um desafio ser católico e nós esperamos que essa ação não desanime vocês, e mais especialmente, não desanime os jovens da Cathedral High School”.

Nos anos recentes, mais de 70 empregados LGBTQ católicos e professores de escolas católicas foram demitidos ou perderam seus empregos em disputas trabalhistas. Católicos heterossexuais que não seguem o ensinamento da igreja, que proíbe o controle de natalidade ou que vivem juntos antes do casamento, por exemplo, não são disciplinados da mesma forma pelas instituições católicas. O escrutínio mirando somente empregados gays é discriminatório e desproporcional.

Esforços para reduzir a identidade católica a uma “teologia pélvica” hiperfocada sobre a sexualidade humana levantam questões a respeito de como nós cristãos devemos ser conhecidos quando buscamos viver o evangelho. Os funcionários católicos das escolas e de outras instituições católicas são avaliados pela frequência com que visitam os presos, cuidam dos doentes, tratam o meio ambiente e enfrentam a desigualdade? Todas essas questões morais são centrais para as encíclicas papaisséculos de ensino social católico e do ministério de Jesus.

"Não podemos insistir apenas em questões relacionadas ao aborto, ao casamento gaye aouso de métodos contraceptivos",disse o Papa Francisco em uma de suas primeiras entrevistas após sua eleição. “O ministério pastoral da igreja não pode ser obcecado em transmitir uma multidão de doutrinas desconexas a serem impostas com insistência. Temos que encontrar um novo equilíbrio; do contrário, até mesmo o edifício moral da Igreja provavelmente cairá como um castelo de cartas”.

Um ano de abstinência para os líderes da Igreja na pregação sobre sexo demonstraria uma postura simbólica de humildade, que poderia mostrar substantivamente para aqueles que ainda restam nos bancos da Igreja que a hierarquia não é completamente ignorante sobre a dura realidade do momento presente.

Durante seu silêncio sobre sexo e gênero, o Vaticano e os líderes católicos locais deveriam sair de suas zonas de conforto e conduzir sessões de escuta com pessoas casadas, divorciadas, gays, heterossexuais e transexuais. Eles devem se afastar do microfone e fazer anotações. Haveria discordância, mas o simples ato de mudar o roteiro – sacerdotes e bispos silenciosamente ao fundo em vez de se manifestarem na frente – poderia ajudar o clero a reconhecer que há uma sabedoria na realidade vivida, e a verdade não é encontrada apenas em documentos da igreja empoeirados.

Correr riscos e sentar-se com desconforto é parte de uma fé saudável. É hora de nossos bispos liderarem dando um passo atrás.

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