O que pode fazer um pai se o filho for transgênero?

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04 Julho 2019

"Mas uma coisa eu sei: a incongruência de gênero nos chama à mais atenta escuta e ao mais profundo respeito pelas subjetividades. Observamos e participamos com atenção, empatia e, quando necessário, coragem, com os desenvolvimentos futuros de uma metamorfose que poderia tomar forma sob os nossos olhos. Que a psicanálise seja sempre acolhedora e atenta, nunca assustada e apocalíptica", escreve Vittorio Lingiardi, psiquiatra e analista de formação junguiana, professor de Psicopatologia na “Sapienza” de Roma, em artigo publicado por La Repubblica, 01-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O pedido de desculpas à comunidade LGBT dos psicanalistas norte-americanos levanta a questão da identidade sexual. E do sofrimento que isso pode causar, especialmente em adolescentes. É por isso que pedir desculpa não é um gesto precipitado, mas um gesto humano e tem um valor terapêutico.

Discordo em relação às posições expressas por Lorena Preta neste jornal e reitero que as desculpas de alguns dias atrás dos psicanalistas norte-americanos à comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) eram devidas. Não certamente para colocar, sob a insígnia do politicamente correto, tudo dentro do mesmo saco (confundindo condições diferentes como homossexualidade e transgenerismo), mas sim para corrigir atitudes desumanas e pouco científicas de uma psicanálise ultrapassada. Reduzir tudo a uma patologia é uma arma traiçoeira que atingiu, ao longo dos anos, primeiro as mulheres (a teoria da inveja do pênis), depois as pessoas homossexuais (imaturidade psíquica, perversão) e, por fim, as pessoas trans (psicose, delírio).

Mas eu não acredito que seja esta a história que interessa aos nossos leitores que, em vez disso, gostariam de entender o que é o fenômeno transgênero do ponto de vista científico. Que fique claro, não existe uma teoria que possa explicar por que um indivíduo desenvolva uma identidade transgênero. A "disforia de gênero", esse é o termo técnico, é definida como uma "marcante incongruência entre o gênero vivenciado/expresso e o gênero atribuído, associada a um sofrimento clinicamente significativo", exacerbado pelo bullying escolar e pela rejeição familiar e social.

Pode iniciar muito precocemente, em torno dos 2-5 anos, mas apenas em alguns casos (cerca de 20%) persiste após a puberdade. Deve ser seguida com atenção, pois representa um fator de sofrimento mental grave, que pode levar até ao suicídio. As famílias geralmente não sabem como ajudar suas meninas que se declaram meninos (e vice-versa) e muitas vezes os clínicos gerais, os pediatras e os próprios psicólogos se declaram completamente despreparados.

Primeira coisa, portanto, é promover uma formação médica e psicológica adequada. Quantos sabem que existe uma World Professional Association for Transgender Health (Wpath) que elaborou critérios específicos para o diagnóstico e o tratamento? Se as interpretações clássicas colocavam no centro fatores de natureza ambiental, hoje tende-se a olhar para a variação de gênero a partir de uma perspectiva mais ampla na qual concorrem fatores biológicos (distúrbios cromossômicos, exposição pré-natal a hormônios específicos, alterações na diferenciação cerebral) e supostos fatores psicológicos (interações com os pais e identificações complexas com os papéis de gênero). Se a incongruência de gênero frequentemente se manifesta na infância, a puberdade, na maioria dos casos, representa uma idade-limiar. Pesquisas em adultos mostram uma melhora significativa na qualidade de vida após a terapia hormonal e/ou cirúrgica.

Antes de qualquer discurso "cultural", portanto, é necessário um diagnóstico competente e precoce, sempre acompanhado de uma escuta individual e familiar. O que deve fazer uma família quando a sua criança sustenta, não por capricho, mas por uma convicção sincera, inabalável e dolorosa, ainda mais se desqualificada ou severamente contrastada, de ser uma menina, ou vice-versa?

Aqui está uma história representativa. Júlio, 5 anos de idade, é enviado pelo pediatra para um serviço de consultoria especializada. A mãe está preocupada com sua dificuldade em interagir com os colegas do sexo masculino, sua paixão por jogos femininos e o desejo manifesto e persistente de se vestir "de Sailor Moon, sua heroína favorita". Na escola, ele quer usar o banheiro das meninas. Os pais relatam que qualquer tentativa de o tornar "um menino como os outros" foi um fracasso. Ele diz a seus colegas e professores que seu nome é Julieta. Desde as primeiras entrevistas, os pais comunicam à psicóloga o medo de que a criança possa ser homossexual ou, “pior, transexual. Em suma, não é a criança que queríamos". Quem vai "se tornar" Júlio quando crescer? A psicóloga compartilhou com seus pais os vários cenários evolutivos, sugerindo uma abordagem do tipo "observa e espera". Considerada a possibilidade de que a criança esteja expressando desconforto por algumas dinâmicas familiares que lhe causam sofrimento psicológico, propôs aos pais uma série de encontros para promover o conhecimento e a compreensão tanto de seus afetos, pensamentos e comportamentos, como daqueles de Júlio. É importante considerar o contexto de desenvolvimento no qual as várias expressões do gênero estão inseridas (por exemplo, meninos "femininos" e meninas "moleques") e distinguir a "não-conformidade de gênero" da verdadeira "disforia de gênero".

É essencial saber que a incapacidade de reconhecer uma disforia de gênero produz até mesmo sintomas e desconfortos graves. E é importante evitar contraposições, que são muito prejudiciais para o/a paciente, entre a abordagem médica e psicológica, que devem, aliás, ser harmonizadas. Os modelos de intervenção são diferentes e contrastantes. Neste momento histórico, em que os fenômenos que descrevemos são tão recentes, não faz sentido escolher um único modelo; mais sensato é considerar, caso a caso, a abordagem mais apropriada. Mas uma coisa eu sei: a incongruência de gênero nos chama à mais atenta escuta e ao mais profundo respeito pelas subjetividades. Observamos e participamos com atenção, empatia e, quando necessário, coragem, com os desenvolvimentos futuros de uma metamorfose que poderia tomar forma sob os nossos olhos. Que a psicanálise seja sempre acolhedora e atenta, nunca assustada e apocalíptica.

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