A "teoria de gênero" e o meu tio canhoto

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30 Março 2015

Meu tio tem quase 80 anos. Um dia, ele me contou que tinha sido forçado a frequentar a escola com a mão esquerda amarrada nas costas, porque tinha nascido canhoto, e, para a professora, a mão esquerda era a mão do diabo.

A reportagem é de Laura Eduati, publicada no sítio Huffington Post.it, 24-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E ela dizia isso para ele, na frente de todos. Por esse motivo, ela o obrigava a escrever com a mão direita, causando-lhe dor e desconforto. Meu tio tinha que escrever lentamente, porque não lhe era natural usar a mão direita, mas não ousava se rebelar, porque se sentia profundamente errado e atingido pela maldade de Satanás: sabe-se lá quais culpas ele tinha cometido para ser canhoto.

Era o início dos anos 1940. Eu não me lembro se ele era zombado pelos colegas de aula, mas posso imaginar que o fosse. Além disso, se a professora repetia que escrever com a mão esquerda é um erro que deve ser corrigido a todo o custo, era fácil pensar que aquele menino com a mãe amarrada fosse realmente diferente, talvez mau, pouco colaborativo.

Nenhuma professora hoje diria aos seus alunos que ser canhoto é errado. E, por outro, ninguém pensaria que os canhotos escolhem ser canhotos.

Nem mesmo os homossexuais ou as lésbicas escolhem a sua inclinação sexual, assim como as pessoas transexuais não acordaram uma manhã pensando em se tornar transexuais.

Os homens e as mulheres que sofrem de disforia de gênero, isto é, que se sentem do sexo oposto ao corpo com que nasceram, não são influenciados pela moda, pela televisão ou pelos livros que leem. Como a sua condição muitas vezes leva ao sofrimento psíquico, muitos deles talvez teriam preferido uma existência mais simples.

Essa não é uma ideia minha. Não estamos falando de aborto, onde existe uma escolha (abortar ou não abortar), ou de maternidade de substituição. Estamos falando de direitos das pessoas homossexuais, de direito à adoção ou de celebrar um casamento civil.

Os direitos, de fato, não são óbvios, mesmo que exigíveis, e, como se viu, os próprios homossexuais têm ideias diferentes: basta pensar na rixa planetária entre o gay Elton John e os gays Dolce & Gabbana.

O fato de ser homossexual, ao contrário, não é matéria de discussão: ou o é assim como são os canhotos.

É por isso que não se entende o que é a teoria de gênero. Vocês sabem o que é a teoria de gênero? Segundo o Papa Francisco, o cardeal Bagnasco e uma grande fileira de católicos, a teoria de gênero é aquela que pretende inculcar nas crianças a ideia de que se travestir como meninas (se forem meninos) e vice-versa é normal, bonito, desejável.

Essa ideia inclui outro desvio considerado perigoso, isto é, que é preciso aceitar a homossexualidade e a transexualidade, promovendo-as como estilos de vida aceitáveis, intercambiáveis à vontade.

Bagnasco disse que a teoria de gênero edifica o trans-humano, quer construir pessoas fluidas, é uma manipulação de laboratório.

Ele pediu que os pais católicos reajam, assim como se reage às perseguições dos cristãos por parte do Isis. O Papa Francisco, em Nápoles, ao contrário, afirmou que a teoria de gênero é "um equívoco da mente humana".

O presidente da Conferência Episcopal Italiana se refere aos cursos de sensibilização que estão ganhando cada vez mais espaço nas escolas italianas, ferozmente criticadas por muitos pais preocupados – talvez – que o seu Pedro volte para casa fazendo-se chamar de Luísa, ou que a pequena Emma cresça tornando-se, mais cedo ou mais tarde, lésbica.

Pois bem, a primeira notícia é que a teoria de gênero é uma invenção. Nas escolas onde esses cursos estão ativos, não se ensina ao Pedro como se camuflar de Luisa, nem se estimula Emma a abraçar o lesbianismo.

São cursos que partem de uma ideia muito menos assustadora e muito mais verdadeira, ou seja, que as pessoas nascem canhotas, loiras, heterossexuais ou homossexuais. Os homossexuais ou os transexuais muitas vezes entendem que o são muito rapidamente.

No seu caso, os professores – alguns, não todos – defendem que são doentes, perigosos, uma má influência para os estudantes. "O vice-diretor dizia por aí que levava as meninas a se tornarem lésbicas, que era uma doença e que eu a estava espalhando", disse Laura, uma adolescente lésbica. "Durante as aulas, uma das nossas professoras repetia que dávamos nojo, que não éramos normais."

Lendo essas linhas, penso no meu tio.

Nenhum curso "reparador" e nenhuma psicoterapia poderia convencer um canhoto a se tornar destro. Por que, então, pensar que um heterossexual poderia se tornar homossexual quando soubesse que os gays existem? O pequeno Pedro, se nasceu heterossexual, continuará sendo heterossexual. Na escola, no máximo, poderá a aprender a respeitar as pessoas homossexuais.

Emma, ao contrário, vai entender que, se ela gosta de brincar com carrinhos e não com as Barbies, ou se ela preferir se inscrever no futebol e não na dança, ninguém deverá pensar que ela é estranha, errada ou sexualmente desviada.

Não existe "a teoria de gênero", nem existe um complô para "homossexualizar" a sociedade. Nos países onde os homossexuais e os transexuais são aceitos – ao menos em palavras – assim como os loiros, os altos, os anões e os canhotos, as pessoas heterossexuais continuam sendo a imensa maioria, casam-se, têm filhos, divorciam-se e apaixonam-se como sempre aconteceu.

Na Itália as pessoas homossexuais também se apaixonam e, às vezes, conseguem ter filhos: não através da adoção, mas com a fertilização assistida e (mais raramente) com a maternidade de substituição.

Por mais que essas práticas sejam contrariadas pelo Vaticano (mas também por algumas vozes "progressistas"), essas crianças já nasceram, existem e vão à mesma escola dos filhos dos católicos. Aceitar a sua existência não é "teoria de gênero".

O que talvez assuste os pais é a palavra "sexo". A palavra sexo está dentro da palavra homossexual, e, em geral, pensa-se que tudo o que tem a ver com os homossexuais seja, no fundo, uma questão de aparelho genital. Como se fossem os únicos a fazer sexo, os únicos a se interessar por esse tema universal.

As crianças, mesmo aos 10 anos, mantidas às escuras e protegidas da bizarra "teoria de gênero" vão logo descobrir o que é o sexo e como se faz. Vão descobrir com os amigos, via web, de forma muito mais distorcida e desrespeitosa em relação à sua idade: o YouPorn não pode ter função educativa ou didática.

Através desses canais informais e muitas vezes divertidos, eles saberão que existem gays, transexuais, lésbicas e bissexuais, mas, se tiverem recebido uma educação que culpabiliza a homossexualidade, pensarão que "os bichas" merecem ser excluídos, ao mesmo tempo em que talvez acharão mais normal que clientes do sexo masculino rigorosamente heterossexuais façam fila para estuprar – esse é o termo mais apropriado – uma prostituta grávida de sete meses.

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