Igreja defende a capitã que desafiou a Itália por trazer migrantes para a costa

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02 Julho 2019

Uma muito observada embarcação de migrantes finalmente ancorou em uma ilha italiana neste sábado, depois de duas semanas no mar. A capitã do “Sea Watch 3”, Carola Rackete, dividiu a opinião pública na Europa quando desafiou o líder populista italiano por trazer 40 imigrantes para a costa, porém a Igreja Católica permaneceu firme ao lado dela.

“Desobedecer a lei para salvar vidas é um princípio cristão, e é fundamental do ponto de vista humano. É o que essa mulher capitã fez ”, disse o arcebispo Gian Carlo Perego, de Ferrara, ex-chefe da seção de migrantes da Conferência dos Bispos da Itáliar repórteres locais, propondo que o porto de Lampedusa seja renomeado para Rackete.

A reportagem é de Claire Giangravè, publicada por Crux, 01-07-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

“Eu penso que a vida humana deve ser preservada de qualquer maneira. Essa deve ser a nossa estrela guia, todo o resto é secundário”, disse o cardeal Pietro Parolin, o secretário de Estado do Vaticano, em 29-06, em uma conferência de imprensa.

A embarcação não-governamental de migrantes Sea Watch 3 passou mais de duas semanas no Mar Mediterrâneo carregando mais que 40 imigrantes e 20 tripulantes antes da capitã alemã Carola Rackete decidir que o barco não poderia esperar mais e ancorou em Lampedusa, uma ilha na costa da Sicília, nas primeiras horas de sábado, 29-06.

O líder do partido de extrema-direita da Itália, vice primeiro-ministro e ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, ordenou que todos os portos italianos fechassem suas portas para embarcações que carregassem imigrantes, disse ele que era um esforço para reduzir o fluxo de migração na península e combater o tráfico humano.

Na quarta-feira, Salvini disse que a tentativa da Sea Watch para chegar a costa italiana foi um ato hostil e jurou compelir outros países europeus para receberem os imigrantes. Quando a embarcação. Embora o navio hasteasse uma bandeira holandesa, é conduzido por uma ONG alemã.

“Eu tive que ancorar. Temi que alguns migrantes cometam suicídio”, falou Rackete, em uma entrevista ao jornal italiano Il Corriere Della Sera, em 30-06, dizendo que alguns passageiros tentaram fazer mal a si mesmo.

“Eu estava com medo. Nós viramos muitos dias e noites, além do medo de alguém se jogar no mar. Para aqueles que não sabem nadar, isso significa suicídio. Eu temia o pior”, ela disse.

Depois de ancorar, barcos de patrulha bateram e Rackete foi presa pela polícia italiana no sábado, e ela enfrentou uma investigação por favorecer imigração ilegal. Ela também arrisca receber uma multa e o confisco da embarcação, mas disse que reconhecerá as consequências legais de seu "ato de desobediência e não de violência".

A jovem capitã pode contar com um grande número de membros do clero que ofereceram seu apoio e se ofereceram para ajudar no cuidado de migrantes a bordo do Sea Watch.

Padre Carmelo La Magra, o pároco de Lampedusa, estava entre os que aguardavam o Sea Watch atracar para receber seus passageiros. Durante várias noites, La Magra dormiu nos degraus de sua paróquia em sinal de solidariedade ao navio.

"Carola é uma garota extraordinária e determinada", disse o padre Massimo Biancalani, que trabalha em um centro de imigrantes e teve algumas rusgas com o próprio Salvini. “Eu a vejo como uma testemunha da humanidade e da lei, porque existe uma lei do mar, uma lei fundamental do homem, que vem antes de nossas normas”.

O bispo luterano Heinrich Bedfort-Strohm, que lidera a igreja evangélica na Alemanha, foi considerado "triste e ansioso" ao ouvir sobre a prisão de Rackete.

"Esta mulher merece o prêmio Nobel", disse o padre missionário Alex Zanotelli em entrevista à imprensa local no sábado, "por sua coragem em desafiar uma lei absurda, que é preciso desobedecer, porque a desobediência à injustiça é um comportamento profundamente cristão".

"Os primeiros mártires morreram precisamente por esse motivo", acrescentou.

O arcebispo Gian Carlo Perego, de Ferrara, ex-chefe da seção de migrantes da Conferência dos Bispos da Itália, também fez uma declaração em apoio à desobediência e comparou Rackete ao lutador pela liberdade italiana: Giuseppe Garibaldi.

“Desobedecer a lei para salvar vidas é um princípio cristão, e é fundamental do ponto de vista humano. É o que essa mulher capitã fez ”, disse ele a repórteres locais, propondo que o porto de Lampedusa seja renomeado para Rackete.

Esta não é a primeira vez que o clero católico ou o Vaticano adotam uma abordagem de “rage against the machine” [Nota de IHU On-Line: raiva contra a máquina, ou o sistema] na Itália desde que Salvini consolidou o poder.

Em maio, o cardeal polonês Konrad Krajewski, que faz obras de caridade em favor do papa Francisco, reconectou a rede elétrica a um prédio estatal em Roma, onde vivem mais de 430 pessoas, incluindo mais de 100 crianças.

Salvini prometeu enviar ao cardeal a conta e criticou seu comportamento ilegal. Porém, Krajewski disse que a verdadeira questão não é trazer água, aquecimento e eletricidade para as famílias em dificuldades, mas que mesmo no coração de Roma as pessoas vivem dessa maneira.

Como Rackete se prepara para enfrentar uma investigação, a dúvida permanece sobre o que vai acontecer com os imigrantes que ela levou para a Itália. Entidades católicas já se ofereceram para ajudar, e a Federação de Igrejas Evangélicas se ofereceu para dar as boas-vindas a todos.

Enquanto isso, as superpotências mundiais se reuniram no Japão para o G20 em Osaka, onde o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, esteve envolvido em conversas com pelo menos quatro países que expressaram disposição de receber os passageiros da Sea Watch.

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