O Papa: “A Igreja está ferida por tensões internas. É preciso ser mansos”

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14 Junho 2019

"Façam perguntas ... Bola ao centro!" Assim, com sua habitual ironia e alegria, o Papa Francisco começa a conversa com 22 confrades jesuítas reunidos na nunciatura de Bucareste na noite de 31 de maio, no final de seu primeiro dia de visita à Romênia. O diálogo do encontro é publicado em La Civiltà Cattolica, em um artigo assinado pelo diretor padre Antonio Spadaro, presente no encontro. O Pontífice alerta contra a "cultura da indiferença ruim", reflete sobre as dificuldades e o clima de ataques e venenos internos que marcam a Igreja, e nos encoraja a responder com "mansidão". E revela que para ele "as maiores consolações são encontradas com o povo de Deus", em particular com "os doentes, os velhinhos e os jovens que são inquietos e em busca de testemunhos verdadeiros". Enfatiza: as pessoas "entendem melhor as coisas do que nós. Isso tem sentido, corrige a linha e te coloca no caminho certo”.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada por Vatican Insider, 13-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Spadaro ilustra a cena: o bispo de Roma entretém-se com os Jesuítas "por cerca de uma hora, respondendo a algumas perguntas em um ambiente familiar e descontraído. O Papa chega por volta das 20 horas e é apresentado pelo Pe. Gianfranco Matarazzo, provincial da Província Jesuíta Euro-Mediterrânica, que inclui a Itália, Malta, Romênia e Albânia”.

Presentes na entrevista: “O assistente do pe. Geral para o sul da Europa, pe. Joaquín Barrero, o delegado para a Romênia, pe. Michael Bugeja e o superior, pe. Henryk Urban”.

A primeira pergunta diz respeito às críticas a que às vezes os jesuítas são expostos: "Como devemos nos comportar em tempos difíceis? Como podemos permanecer a serviço de todos em momentos de turbulência?”, pergunta o padre Marius Talos. O Papa não tem dúvidas: "É preciso paciência, é preciso "hypomonē", ou seja, assumir a responsabilidade pelos acontecimentos e pelas circunstâncias da vida". Devemos carregar em nossos ombros o peso da vida e de suas tensões. Sabemos que precisamos prosseguir com parrésia e coragem. São importantes. No entanto, há momentos em que não se pode avançar demais, e então é preciso ter paciência e doçura”. É preciso uma “proximidade, uma proximidade suave. Estar primeiramente perto do Senhor com a oração, com o tempo passado diante do tabernáculo. E depois a proximidade com o povo de Deus na vida cotidiana, com as obras de caridade para curar as feridas". Francisco pensa na Igreja "como um hospital de campo. A Igreja está muito ferida, e hoje também está tão ferida pelas tensões dentro dela. Mansidão, precisamos de mansidão!”, invoca o Pontífice. E é preciso "muita coragem para ser mansos!" Mas devemos continuar com a mansidão. Este não é o momento de convencer, de fazer discussões. Se alguém tem uma dúvida sincera, sim, pode-se dialogar, esclarecer. Mas não responder a ataques".

Bergoglio recorda: “O que fez Jesus no momento de tribulação e enfurecimento? Ele não ficava brigando com os fariseus e os saduceus, como fizera antes quando tentavam montar armadilhas para ele. Jesus permaneceu em silêncio. No momento da fúria, não se pode falar. Quando a perseguição está em andamento, resta viver o testemunho e a proximidade amorosa na oração, na caridade e na bondade. Abraça-se a cruz".

Então o Provincial pede ao Papa que fale "das consolações que o acompanham". Francisco “gosta desta linguagem! Você não me pergunta o que podemos fazer aqui ou ali. O exame de consciência deve dar conta desses movimentos da alma. Quais são as verdadeiras consolações? Aqueles em que o passo do Senhor se faz presente". Onde estão as "maiores consolações? Na oração, o Senhor se faz ouvir. E também eu as encontro com o povo de Deus”. Em particular com “os doentes e os velhinhos, que são um tesouro. Visitem os anciãos!" E depois, com os "jovens que são inquietos e procuram testemunhos verdadeiros". Ele destaca: “O povo de Deus entende as coisas melhor do que nós. O povo de Deus tem um sentido, um sensus fidei, que te corrige a linha e te coloca no caminho certo. Mas vocês deveriam ouvir as coisas que as pessoas me dizem quando as encontro nas audiências! Elas têm um talento para entender as situações”.

Francisco conta uma anedota: “Eu gosto de conversar com crianças e idosos. Certa vez havia uma idosa. Seus olhos eram preciosos, brilhantes. Eu perguntei a ela: ‘Quantos anos você tem?’ ‘Oitenta e sete’, ela respondeu. ‘Mas o que você come para ficar tão bem? Dê-me a receita’, eu perguntei a ela. ‘Tudo! - ela responde - E os ravioli sou eu mesma que faço’. Eu lhe disse: ‘Senhora, reze por mim!’ Ela responde: ‘Todo dia eu rezo pelo senhor!’ E eu, por brincadeira, perguntei a ela: ‘Diga-me a verdade: você ora por mim ou contra mim?’ ‘Mas que dúvida! Eu rezo pelo senhor! São outros dentro da Igreja que rezam contra o senhor!’. A verdadeira resistência não está no povo de Deus, que se sente realmente povo. Pois bem, encontro as consolações no povo de Deus. E também o povo de Deus é um verdadeiro teste decisivo: quando você realmente está com o povo de Deus, entende se as coisas estão indo bem ou não."

Depois, outra história:" Eu fiz uma promessa a Nuestra Señora del Milagro para as vocações para a Companhia. Eu costumava ir ao santuário no Norte da Argentina todos os anos. Há sempre tantas pessoas lá. Depois da missa, enquanto saía com outro sacerdote, uma senhora simples do povo se aproximou. Trazia consigo santinhos e crucifixos. E pediu ao outro sacerdote: ‘Padre, pode me abençoar?’ E ele - ele era um bom teólogo - respondeu: ‘Mas você estava na missa?’ E ela responde: ‘Sim, padrecito’. E então o padre lhe perguntou: ‘Você sabe que a bênção final abençoa a todos’ E a senhora: ‘Sim, padrecito’. E o padre: ‘E você sabe que o sacrifício de Cristo é renovado na missa?’ E ela: ‘Sim, padrecito’. E ele: ‘E você sabe que quem sai a missa está abençoado?’ E ela: ‘Sim, padrecito’. Naquele momento, outro padre apareceu e o padrecito se virou para cumprimentá-lo. Nesse momento a senhora virou-se de repente para mim e disse: ‘Padre, pode me abençoar?’ Vejam, pois, a senhora aceitou toda a teologia, claro, mas ela queria aquela bênção! A sabedoria do povo de Deus! O concreto."

O Papa observa: "Vocês diriam: mas poderia ser superstição. Sim, às vezes alguém pode ser supersticioso - reconhece - Mas o que importa é que o povo de Deus é concreto. No povo de Deus encontramos o lado concreto da vida, as verdadeiras questões, do apostolado, das coisas que temos que fazer. O povo ama e odeia, como se deve amar e odiar. É concreto."

Depois se passa ao tema da família. O Padre Mihály Orbán pergunta: "Nesta região temos uma paróquia com alemães, húngaros, romenos e greco-católicos. Eu quero falar sobre a nulidade dos casamentos. É difícil administrar os processos de nulidade. Nunca se chega ao fim. Eu sei que V.S. falou com os bispos italianos sobre isso, mas como fazê-lo? Parece-me que muitos vivem sem conseguir chegar ao final do processo. Os tribunais diocesanos não funcionam". Francisco confirma: "Sim. O Papa Bento também falou sobre isso. Três vezes, se bem me lembro. Há casamentos nulos devido à falta de fé. Depois talvez o casamento não seja nulo, mas não se desenvolve bem devido à imaturidade psicológica. Em alguns casos, o casamento é válido, mas às vezes é melhor que os dois se separem pelo bem dos filhos”. Corre-se o risco de cair “na casuística. Quando o Sínodo sobre a família começou, alguns disseram: o Papa convoca um Sínodo para dar comunhão aos divorciados. E continuam ainda hoje!" Na realidade, o Sínodo "fez um caminho na moralidade matrimonial, passando da casuística da Escolástica decadente para a verdadeira moral de São Tomás. Aquele ponto em que na Amoris laetitia se fala da integração dos divorciados, abrindo eventualmente a possibilidade dos sacramentos, foi elaborado de acordo com a mais clássica moralidade de São Tomás, a mais ortodoxa, não segundo a casuística decadente do tipo ‘se pode ou não se pode’”.

Francisco recomenda: "Em relação ao problema matrimonial, nós devemos sair da casuística que nos engana. Às vezes seria mais fácil dizer "se pode ou não se pode", ou também "siga em frente, não há problema". Não! - exclama - os casais devem ser acompanhados. Existem experiências muito boas. Isso é muito importante. Mas são necessários os tribunais diocesanos. Eu pedi que se realize o processo breve”. O papa está ciente de que "em algumas situações, os tribunais diocesanos não funcionam". E são realmente poucos. O Senhor nos ajude!"

Respondendo a outra consideração, Francisco adverte contra "uma das grandes tentações de hoje: a indiferença. Vivemos a tentação da indiferença, que é a forma mais moderna de paganismo. Na indiferença, tudo está centrado no eu. Não há capacidade de tomar posição sobre o que acontece". O Pontífice cita "um dos fotógrafos do Osservatore Romano, um artista" que "tirou uma foto intitulada ‘Indiferença’. Na imagem vemos uma senhora muito bem vestida, com um casaco de pele e um belo chapéu, que sai de um restaurante de luxo em uma noite de inverno. Na foto ao lado dela há uma senhora no chão pedindo esmolas. Mas a senhora olha para o outro lado. Essa fotografia me fez pensar muito". Trata-se "daquela que nós, em espanhol, chamamos a calma chicha. Como se diz em italiano? Calma chata. Santo Inácio nos diz que, se há indiferença e não há nem consolações nem desolações, isso não é bom. Se nada se move, é preciso olhar o que está acontecendo. E nos fará bem abrir os olhos para a realidade e ver o que está acontecendo".

Mas então ele alerta: "Cuidado para não a confundir com aquela que para Santo Inácio é uma ‘boa indiferença’. A boa indiferença é aquela que se deve ter diante das escolhas da vida e que nos permite não sermos vencidos por paixões fortes, mas fugazes e voláteis, que nos confundem. Existem indiferenças diferentes: aquela boa e aquela ruim”.

Francisco está preocupado com "a cultura da indiferença ruim, onde tudo é clama chata, onde não se reage à história, quando não se ri e nem se chora. Uma comunidade que não sabe rir e não sabe chorar não tem horizontes. Está encerrada nos muros da indiferença”.

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