A solidão de Francisco na época dos dois papas

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10 Junho 2019

Após o pedido de renúncia por parte do ex-núncio Viganó, em setembro de 2018, um bispo latino-americano encontrando o Papa Francisco lhe disse: "Coragem, Santo Padre". Acrescentando "Em toda comunidade há um Judas". Francisco olhou para ele por um momento e respondeu: "Sim, mas o Judas não está aqui na cúria, e sim nos EUA". O episódio é contado no último livro de Marco Politi "La Solitudine di Francesco" (A solidão de Francisco, em tradução livre, pela Editori Laterza), um livro abertamente dedicado ao "segundo tempo" do pontificado de Francisco que, do ponto de vista geopolítico, coincide com a presidência norte-americana de Donald Trump.

O comentário é de Maria Antonietta Calabró, publicado por Huffington Post, 09-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

La Solitudine di Francesco
Capa do livro de Marco Politi | Divulgação

Terminada a lua-de-mel planetária neste segundo tempo, ressurgiram os mesmos problemas que atormentaram a segunda parte do pontificado de Bento XVI, quando à presidência norte-americana de George W. Bush seguiu-se a de Barack Obama: pedofilia, escândalos financeiros, acidentes de percurso contínuos e o mesmo "exterminador de Papas", o ex-núncio Viganò, que já foi protagonista do primeiro Vatileaks na época de Ratzinger.

Porque, mais uma vez, o Trono do mundo e o Altar estão fora de sincronia.

O episódio mencionado é surpreendente, porém, não tanto pela leitura geopolítica que Francisco fez dos ataques sofridos, quanto pela segurança com a qual Francisco enfatiza que seus inimigos não estão mais na cúria. Assim cai um estereótipo que poderia ter sido por muito tempo também um gigantesco alvo falso da mídia de massa (daqueles que os submarinos lançam para evitar de serem atingidos).

O episódio relatado torna-se mais importante se for lido em coincidência com a abertura da Assembleia Geral de primavera dos bispos norte-americanos em Baltimore, de 11 a 14 de junho, chamada para aparar as diretrizes da Igreja dos Estados Unidos sobre os escândalos dos abusos sexuais. E enquanto a última reportagem do Washington Post mostra como a "corrupção" financeira mais uma vez esteja andando de mãos dadas com os abusos (após os casos do fundador dos Legionários, Maciel e do próprio ex-cardeal McCarrick, que foi reduzido ao estado laico).

Naturalmente, isso leva em conta o fato de que ao longo dos anos que se passaram desde março de 2013, a cúria foi amplamente renovada: a Esfinge teve seus dentes limpos com algo mais do que uma escova de dentes (a imagem da Cúria-Esfinge é de Francisco em um dos memoráveis votos à Cúria de Natal), mas é significativo que Francisco agora, no exato momento do ataque mais duro, tenha certeza do "seu" recinto, de seu grupo, do "Non prevalebunt” impresso em seu jornal de "partido" (como ele chamou em seu retorno de sua última viagem à Romênia, o Osservatore Romano).

Também porque Francisco, como bom jesuíta, é um homem astuto e habilidoso em usar o poder. O quanto tenha incidido até agora, inclusive no governo do pequeno Estado do Vaticano (7 de junho de 2019, entrou em vigor a nova lei fundamental), o demonstra Francesco Clementi no recém publicado “Città del Vaticano” (Il Mulino).

Certamente o Papa, como Politi sustenta em seu exame cuidadoso, está sozinho. Mas está sozinho da mesma forma que uma rocha. E apesar de toda a ingenuidade e também dos numerosos passos em falsos realizados (começando com muitas nomeações equivocadas) ninguém pode dizer que a "sua" Igreja (que, seja bem claro, não é sua no sentido de uma new age de uma densa corte bergogliana, a primeira destinada a derreter como a neve ao sol, mas é sua, mais propriamente e teologicamente, por ter sido construída sobre ele) não tenha demonstrado até mesmo nos fracassos ou nas manobras mais imprudentes, estar viva.

Talvez, justamente o desafio de estar vivo seja a razão pela qual Francisco preocupa um pouco todo mundo, e até mesmo bispos e cardeais pouco parecem em cena para defender o Papa, como observa Politi.

No entanto, o padrão, o critério de juízo, para julgá-lo não pode ser aquele do papel das mulheres e nem mesmo o da eficiência burocrática e financeira, da limpeza dos antigos privilégios, dos círculos e dos lobbies. Este mandato, entre outras coisas, foi dado a ele, entre outros, pelos próprios "norte-americanos", seus grandes eleitores no Conclave.

Francisco é como Inocêncio Smith, o personagem corpulento, exuberante, alegre e infantil de "Manalive" de Chesterton, que dá a volta ao mundo com o casaco do pijama e um ancinho em seus ombros, contrariando todas as convenções e fazendo todos os tipos de esquisitices (ele confessou, como Politi nos lembra, que precisou de apoio psiquiátrico em determinado momento de sua vida). Enquanto os anos passam e muitos adversários já estão mortos ("Quem come Papa morre", reza um velho ditado italiano).

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